Barcelona 1992: Entrando nos eixos

Por iG São Paulo

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A Alemanha voltou a ser uma só. A União Soviética não existia mais. Após décadas de tensão, os Jogos entram em clima de relativa paz e viram um dos case de sucesso do COI ao revitalizar a cidade-sede

O mítico Dream Team dos Estados Unidos. A NBA chegava às Olimpíadas
EFE
O mítico Dream Team dos Estados Unidos. A NBA chegava às Olimpíadas


Os Jogos Olímpicos, como os alunos de geografia, tiveram que esquecer tudo o que sabiam sobre os países do mundo. A Alemanha deixou de ser duas para ser uma só, e a União Soviética deixou de ser uma só para se tornar uma confusão: Estônia, Letônia e Lituânia levaram equipes próprias, enquanto todas as outras 12 repúblicas da ex-URSS competiram unidas sob a sigla “CEI”, a Comunidade dos Estados Independentes - que acabou no topo do quadro de medalhas. A África do Sul deixou de ser nação vetada pelo COI, porque já não segregava mais os negros; pelo menos não institucionalmente por meio do apartheid.

As coisas começavam a acalmar e a se definir, com exceção da Iugoslávia: o país foi desmembrado em quatro partes e, com isso, Bósnia-Herzegovina, Croácia e Eslovênia participaram da Olimpíada pela primeira vez. Mas, numa retaliação da ONU (Organização das Nações Unidas) às guerras contra bósnios e croatas, os iugoslavos foram proibidos de mandar equipes nacionais. Só seus atletas individuais puderam viajar e se inscrever como “participantes olímpicos independentes”.

Os Jogos que reformularam Barcelona
EFE
Os Jogos que reformularam Barcelona

Se desde Los Angeles 1984 sediar os Jogos Olímpicos já parecia um bom negócio para as cidades, os resultados que aquele evento deu a Barcelona viraram um dos maiores cases de sucesso do COI: diversas áreas da capital catalã – como os trechos da Vila Olímpica ou da montanha de Montjuïc, a do estádio Olímpico - foram construídas ou revitalizadas especialmente para o evento (boa parte com fundos privados), e a imagem da cidade como destino turístico para que procura arte, cultura e diversão desabrochou para o mundo.

Pelo clima geral de tranqüilidade com a situação política, pelo momento histórico marcante e pela beleza da cidade, Barcelona 1992 foi festejada pelo COI como a melhor Olimpíada da história. De certa forma, é praxe sempre dizer isso sobre a edição mais recente, mas daquela vez todo mundo sentiu que a declaração era para valer.

No Brasil, a maior conseqüência daqueles Jogos foi a transformação do voleibol num esporte verdadeiramente popular. Por mais que os bons resultados já fossem uma constante no mínimo desde a prata de 1984, era difícil imaginar que o país do futebol ainda fosse dar tanto espaço a um termo como “meninos do vôlei”: Giovane, Maurício, Tande, Carlão, Marcelo Negrão, o técnico José Roberto Guimarães... Os primeiros brasileiros campeões olímpicos num esporte coletivo se tornaram celebridades depois da campanha invicta na Espanha. Além deles, nossa presença no quadro de medalhas se limitou a mais dois feitos: o judoca Rogério Sampaio, campeão na categoria meio-leve, e a prata de Gustavo Borges nos 200m nado livre. Pouco, mas, com dois ouros, o suficiente para que disfrutássemos da festa.

A seleção brasileira de vôlei comemora o ouro histórico em Barcelona
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A seleção brasileira de vôlei comemora o ouro histórico em Barcelona


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01 - O ultimo lastro de amadorismo da Olimpíada terminou em Barcelona: pela primeira vez, os atletas profissionais da NBA, a liga de basquete dos Estados Unidos, foram permitidos em quadra. Os norte-americanos usaram a nova oportunidade para formar um time que era, mais do que tudo, uma homenagem à geração que revitalizou a NBA e a projetou internacionalmente: o triunvirato Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird comandou o autêntico Dream Team, o time dos sonhos que, a caminho do ouro olímpico, anotou uma média de 117 pontos por jogo e não viu o treinador Chuck Daly pedir sequer um tempo técnico ao longo de toda a competição.

02 - O maior destaque individual dos Jogos barceloneses foi o bielorrusso Vitaly Scherbo, na ocasião competindo pela CEI. No dia 2 de agosto, o ginasta de 20 anos tornou-se a primeira pessoa a conquistar quatro medalhas de ouro no mesmo dia: barras paralelas, salto sobre o cavalo, argolas e cavalo com alças. Com o título por equipes e o individual geral conseguidos na véspera, Scherbo chegou a seis ouros numa mesma edição da Olimpíada – o único ginasta a alcançar o feito.

03 - Para a Fifa, o torneio de futebol já estava ficando chamativo demais com a abertura para os profissionais (desde que não houvessem disputado uma Copa do Mundo). Decidiu-se por estabelecer um limite de 23 anos de idade, e então o Brasil acabou com sua série de bons resultados e sequer se classificou para os Jogos, depois de um empate com a Venezuela no Pré-Olímpico. Os donos da casa, que contavam com várias promessas como Cañizares, Guardiola, Ferrer, Luis Enrique e Kiko, bateram a Polônia na decisão e ganharam uma de suas medalhas de ouro mais celebradas.

Os ginastas da Comunidade dos Estados Independentes celebram ouro por equipes. Resquícios da URSS
EFE
Os ginastas da Comunidade dos Estados Independentes celebram ouro por equipes. Resquícios da URSS


04 - Quando a África do Sul estava bem no meio do processo de desmantelar a política do apartheid, a prova dos 10.000m femininos ilustrou claramente a esperança de paz racial no continente: a etíope Derartu Tulu chegou na frente e se tornou a primeira negra africana a conquistar uma medalha olímpica. Após cruzar a linha de chegada, Tulu esperou até que a segunda colocada Elana Meyer – que era sul-africana e branca – chegasse também e lhe deu a mão para que dessem juntas uma volta olímpica.

05 - Aos 32 anos, considerado velho para um velocista, Linford Christie deu o passo que faltava para tornar-se um verdadeiro ícone pop na Inglaterra: ele venceu os 100m rasos e, a partir de então, virou presença constante na televisão, seja envolvendo-se em polêmicas com a imprensa, usando lentes de contato com o logotipo do patrocinador ou pela discussão de como suas partes íntimas ficavam destacadas dentro do maiô justinho de lycra. Finalmente, em 1999, Christie foi flagrado com nandrolona e encerrou a carreira, jurando que nunca tinha feito nada errado.

06 - Aquele sim é o tipo de cena que faz todo mundo gostar dos Jogos Olímpicos: em Seul-1988, machucado, Derek Redmond, dos 400m rasos, teve que desistir da prova. Após cinco cirurgias, uma delas quatro meses antes da Olimpíada, o britânico voltou em Barcelona-1992 e vinha fazendo bom papel: fez o melhor tempo na primeira fase, venceu sua bateria de quartas-de-final e passou à semi. Na semirfinal, quando faltavam pouco mais de 150m para a chegada, Derek sentiu uma dor lancinante no músculo da coxa: era uma ruptura. Do chão, quando viu os médicos chegando com a maca, ele se recusou a ser carregado: chorando de dor e decepção, fez questão de se arrastar até a linha de chegada. Seu pai, que sempre apoiou sua carreira, saltou da arquibancada e juntou-se a ele. O momento virou imediatamente um dos vídeos promocionais do COI. Carreira acabada, em 94 Derek venceu o Celebrity Gladiators, uma gincana entre famosos na Inglaterra, e desde então virou especialista em palestras motivacionais.

07 - O impacto da Olimpíada de Barcelona no planeta pode ser medido pela popularidade de suas músicas-tema: uma delas foi Barcelona, composta em 1987 pelo vocalista do Queen, Freddie Mercury, que chegou a gravar a canção ao lado da soprano barcelonesa Montserrat Caballé. Os dois deveriam repetir o dueto ao vivo na cerimônia de abertura, mas a morte de Freddie em 1991 fez com que a música fosse tocada em playback. A canção da cerimônia de encerramento foi ainda mais popular e até hoje encara um bocado de casamentos e karaokês: é "Amigos Para Siempre", de Andrew Lloyd Webber e Don Black, que em Barcelona foi executada por Sarah Brightman e José Carreras.

08 - A cerimônia de abertura, aliás, contou com um dos métodos mais memoráveis de se acender a chama olímpica: o arqueiro paraolímpico Antonio Rebollo atirou uma flecha em direção à pira do Estádio Olímpico, que já estava soltando gás e se acendeu com a passagem da flecha incandescente.

09 - O mundo inteiro assistiu à prova da maratona feminina, mas houve um aparelho de televisão que recebeu o sinal com mais intensidade do que qualquer outro. Pouco antes dos Jogos, os 1500 habitantes do povoado russo de Iziderinko fizeram uma vaquinha e compraram a primeira televisão da vila: um aparelho preto-e-branco que foi instalado na praça central. De lá, 1499 iziderinkenses torceram como loucos para sua vizinha mais famosa, Valentina Yegorova, que conquistou o ouro e colocou o vilarejo no mapa múndi por alguns dias.

10 - Na prova do “oito com patrão” do remo, a Espanha incluiu em sua delegação o pequenino (e leve) Carlos Front, que aos 11 aninhos se tornou o atleta olímpico mais novo desde um misterioso garoto holandês não-identificado que exerceu a mesma função em Paris-1900.


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