Atlanta 1996: Vende-se sede olímpica

Por iG São Paulo

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Era hora de celebrar que o evento havia sobrevivido a tanta coisa: 100 anos. Portanto, nada mais óbvio do que levar os Jogos do Centenário para... Atlanta? Por quê? A resposta está na geladeira

A cerimônia de abertura de Atlanta 1996
David Taylor/Getty Images
A cerimônia de abertura de Atlanta 1996


O mundo vivia em paz (relativa, como tudo); ninguém achava mais graça em boicotar coisa nenhuma e o interesse em sediar os Jogos Olímpicos era maior do que nunca. A Europa não recebia uma Olimpíada desde 1972, e era hora de celebrar que o evento havia sobrevivido a tanta coisa: 100 anos desde Atenas 1896. Portanto, nada mais óbvio do que levar os Jogos do Centenário para... Atlanta? Nos Estados Unidos, que haviam abrigado uma Olimpíada fazia apenas 12 anos?? Por quê??? A resposta está logo ali na sua geladeira: Coca-Cola.

É modo de dizer, mas só até um certo ponto: a marca de refrigerantes bateu o pé – ou abriu o talão de cheques – para que os primeiros Jogos Olímpicos 100% financiados por investidores privados rumassem para sua cidade de origem, na Geórgia. O resultado não foi nada perto de um desastre, porque a estrutura e o dinheiro estavam lá, mas foi certamente a Olimpíada mais comercializada (e menos autêntica) da história. Um dos exemplos mais claros é o mascote: no lugar de um animalzinho gracioso, os organizadores saíram com um bicho amorfo, cor de Curaçao Blue, desenhado por computação gráfica. O tal Izzy virou motivo de piada no mundo todo. Com todos os 197 países membros do COI participando, o presidente Juan Antonio Samaranch até que saiu satisfeito. Mas não se atreveu a dizer que Atlanta havia realizado os melhores Jogos da história – como havia dito em todas as ocasiões anteriores até então e como voltaria a fazer em Sydney quatro anos depois.

Para o esporte brasileiro, a participação em Atlanta foi uma completa revolução. Subimos um degrau e deixamos de ser coadjuvantes quase imperceptíveis: foram 15 medalhas, apenas duas a menos do que havíamos conquistado nas três Olimpíadas anteriores somadas. Parte do sucesso pode ser atribuído à inclusão de uma modalidade autenticamente nossa: o vôlei de praia. A primeira dobradinha de nossa história veio com Jacqueline/Sandra, medalha de ouro, e Adriana/Mônica, prata. Foi, aliás, a primeira vez que nossas mulheres contribuíram com medalhas. Além das duplas na praia, o basquete (prata) e o vôlei de quadra (bronze) femininos também subiram no pódio.

A dupla Jacqueline/Sandra venceu o 1º ouro olímpico do vôlei de praia
Doug Pensinger/Getty Images
A dupla Jacqueline/Sandra venceu o 1º ouro olímpico do vôlei de praia


Dois de nossos maiores heróis estrearam sua cota de medalhas de ouro (que aumentaria em Atenas 2004): Robert Scheidt, vencedor da classe Laser, e Torben Grael, que ganhou a Star ao lado de Marcelo Ferreira. Gustavo Borges levou prata nos 200m e bronze nos 100m livre e chegou a três medalhas na carreira, enquanto o judoca Aurélio Miguel juntou uma de bronze ao seu ouro de Seul-1988. O hipismo, que movimenta tantas multidões no Brasil, também começou a virar foco de interesse quadrienal com a conquista da medalha de bronze por equipes. O judoca Henrique Guimarães, os velejadores Kiko Pelicano e Lars Grael (classe Tornado), o nadador Fernando Scherer (50m livre) e o futebol masculino completaram nosso saldo, todos com medalhas de bronze.

Fogo na pira! | 10 fatos que marcaram aqueles Jogos

01 - O que realmente deixou o COI reticente na hora de elogiar Atlanta foi o retorno, ainda que mais tímido, do terrorismo. Na noite de 27 de julho, uma bomba explodiu no Centennial Olympic Park: uma área aberta que oferecia diariamente shows para o público da Olimpíada. Uma mulher morreu e 110 pessoas ficaram feridas. Como em Munique-1972, o COI foi claro em proclamar que “os Jogos têm que continuar”. Em 2003, Eric Rudolph foi preso por esse atentado e outros três que diz ter feito em nome da moral cristã: dois em clínicas que supostamente praticavam abortos e um numa boate gay. O que Atlanta tem a ver com o pecado? Segundo ele, o mundo se unia nos Jogos Olímpicos para “celebrar os ideais do socialismo global”. Rudolph assumiu todos os seus crimes e acatou cinco penas de prisão perpétua para fugir da pena de morte. Está numa penitenciária no Colorado, junto a outros terroristas.

Muhammad Ali, personagem olímpico
Michael Cooper/Getty Images
Muhammad Ali, personagem olímpico

02 - Por outro lado, um dos momentos mais emocionantes da história da Olimpíada aconteceu na cerimônia de abertura: Muhammad Ali, claramente debilitado pelo Mal de Parkinson, foi quem acendeu a chama olímpica. Ele ainda recebeu uma réplica da medalha de ouro que ganhou em Roma-1960 e que jogou no rio Ohio, num acesso de raiva por ter sido vítima de preconceito racial. A entrega da medalha, porém, não foi durante o evento de boxe, mas no ginásio de basquete, a pedido da emissora norte-americana que transmitia os Jogos.

03 - Mais uma alteração no futebol: além dos jogadores de até 23 anos, cada time podia levar três atletas mais velhos. Uma de nossas mais promissoras gerações olímpicas reuniu Ronaldo Fenômeno, Dida, Roberto Carlos, Flávio Conceição, Juninho Paulista... E ainda incluímos Aldair, Bebeto e Rivaldo. Mas o sonho do ouro foi frustrado na semifinal contra a Nigéria: depois de estar vencendo por 3 x 1 até os 33 do 2º tempo, levamos o empate e, na morte súbita, Kanu nos eliminou. Os nigerianos derrotaram a Argentina na decisão e ratificaram a curiosa força dos times africanos nas competições com limite de idade.

04 - Não que seu nome já não estivesse lá no alto do panteão olímpico (aliás, “panteão” é uma palavra que só aparece a cada quatro anos. Que nem “pira”), mas Carl Lewis se juntou a um grupo ainda mais seleto: venceu o salto em distância e se tornou o terceiro atleta da história com um tetracampeonato olímpico na mesma prova e o quarto a somar nove medalhas de ouro.

Michael Johnson, o
Getty Images
Michael Johnson, o "Pato" que corria demais


05 - Mas o maior feito registrado no atletismo foi o de outro norte-americano, Michael Johnson. Além de ter conseguido uma dobradinha inédita, nas provas dos 200m e 400m rasos, ele chamou a atenção pela maneira como estraçalhou o recorde mundial na primeira delas: não houve uma pessoa que não se assombrasse com sua marca, de 19.32s . Se o canadense Donovan Bailey - que ganhou os 100m rasos com novo recorde mundial, 9.84s - corresse mais um trecho de 100m na mesma velocidade, seu tempo ainda seria 0.36s inferior ao de Johnson.

06 - Não adiantou o fanfarrão Gary Hall Jr. estar atuando em casa: com seu jeito tranquilão, o russo Aleksandr Popov defendeu seus títulos dos 50m e 100m nado livre conquistados em Barcelona 1992. Um mês depois, Popov discutiu com três vendedores de melancia num mercado em Moscou e foi esfaqueado: teve seu pulmão atingido e passou duas semanas no hospital. Apesar de ter voltado sem grande estrondo em Sydney 2000 (prata nos 100m), em 2003 ele retornaria com tudo, aos 32 anos, no Campeonato Mundial de Barcelona, onde novamente venceu os 50m e 100m.

O russo Popov acababou com a fanfarra de Hall Jr. nos 100m e também deixou Scherer para trás
Mike Hewitt /Allsport/Getty
O russo Popov acababou com a fanfarra de Hall Jr. nos 100m e também deixou Scherer para trás

07 - O roteiro de cinema veio prontinho: os Estados Unidos duelavam com a Rússia pelo ouro por equipes na ginástica feminina e, para assegurar o título sem depender da performance das rivais, precisavam de uma boa nota no salto sobre o cavalo. Só que era a vez de Kerri Strug, e ela havia machucado seu tornozelo no salto anterior. Sentindo dor, de tornozelo enfaixado, a garotinha partiu para o salto e pousou direitinho num pé só. Enquanto Kerri era carregada da área de competição para o banco, os juízes anunciaram a nota que garantiu o ouro para as norte-americanas.

08 - Campeão da maioria das enquetes sobre o maior jogador de vôlei de todos os tempos, o norte-americano Karch Kiraly, depois de já ter conquistado tudo na quadra – inclusive o ouro olímpico em Los Angeles 1984 e Seul 1988 -, partiu para o vôlei de praia e, aos 36 anos, coroou essa outra carreira com mais um título olímpico.

09 - Sozinha, a nadadora Michelle Smith deu à Irlanda a segunda melhor participação olímpica da história do país. Mas as medalhas de ouro nos 200m e 400m medley e nos 400m livre vieram cercadas de suspeita. Até 1993, Michelle era uma nadadora do segundo escalão, que nunca chegara a uma prova final de Europeu, Mundial ou Olimpíada. Foi depois de se casar (e começar a treinar) com o holandês Erik de Bruin – um atleta de lançamento de disco que foi banido por doping de testosterona -, em 1993, que Michelle teve a ascensão inacreditável. Mesmo assim, ela saiu de Atlanta como heroína e foi saudada pessoalmente pelo presidente dos EUA, Bill Clinton. Dois anos depois, a irlandesa foi acusada de manipular um teste de urina colocando álcool (que mascara a presença de outra substâncias) e foi banida de forma vitalícia do esporte.

10 - Com 1,47m de altura, o caminho não foi fácil para Naim Suleymanoglu ser chamado de “gigante” em seu país, a Turquia. Foi preciso conquistar o tricampeonato olímpico do levantamento de peso, da maneira mais emocionante possível: a final contra Valerios Leonidis, da Grécia, teve três quebras de recorde em poucos minutos e é considerada a melhor prova da modalidade na história.

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