Atenas 2004: Entra que a casa é sua

Por iG São Paulo

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O propalado “espírito olímpico” nunca se sentiu tão em casa, com o retorno à capital grega. Mas não sem muita preocupação de que a sede não estivesse pronta. No fim, Atenas deu sorte aos brasileiros

Espírito olímpico e Atenas, tudo a ver
Daniel Berehulak/Getty Images
Espírito olímpico e Atenas, tudo a ver


A poeira amarelenta, as casas todas branquinhas, o verde-escuro das oliveiras, aquele monte de ruínas espalhadas pela cidade. O propaladíssimo “espírito olímpico” - que se intensifica quando sustentado pela História-com-H-maiúsculo – nunca tinha se sentido tão em casa. Os Jogos Olímpicos retornaram ao seu berço, ainda que, na opinião de muita gente, com oito anos de atraso.

Os argumentos do COI para justificar a decisão de não levar os Jogos do centenário olímpico, em 1996, de volta a Atenas quase se mostraram válidos mesmo oito anos depois. Menos de seis meses antes do começo do evento, ainda havia um certo temor sobre as condições da capital grega de cumprir com os prazos de todas as construções. Nessa época, por exemplo, decidiu-se que o teto do complexo aquático não seria feito, e que portanto as provas de natação seriam ao ar livre – algo que gerou polêmica.

De volta ao berço olímpico
EFE
De volta ao berço olímpico

Não foi plácido e despreocupado como costuma ser nas grandes cidades de países acostumados a receber eventos desse tamanho, mas a Olimpíada de Atenas foi, sim, um sucesso. Num mundo pós-11 de setembro, apenas o fato de que os US$ 2,32 bilhões gastos com segurança – cerca de 19% do orçamento total - deram resultado já foi visto como uma vitória.

A popularidade também não podia ser melhor: estima-se que quase 4 bilhões de pessoas tenham tido acesso às transmissões pela televisão, cujos direitos custaram mais caro do que nunca. Só a NBC, dos Estados Unidos, gastou US$ 793 milhões. E as mulheres, definitivamente, quebraram as últimas barreiras que havia no mundo olímpico. Não apenas porque foram admitidas pela primeira vez na luta greco-romana, mas porque quem assumiu a responsabilidade e comandou toda a Olimpíada foi uma mulher: Gianna Angelopoulos-Daskalaki, a presidente do Comitê Organizador.

Melhor do que tudo isso, Atenas nos trouxe uma sorte danada. Tudo o que havia dado errado quando chegava a hora decisiva em Sydney 2000 funcionou na Grécia: ganhamos um total de 10 medalhas - menos do que em 1996 (15) e 2000 (12) -, mas desta vez foram cinco de ouro, um recorde que nos levou pela primeira vez ao top 20 do quadro de medalhas.

Adhemar Ferreira da Silva deixou de ser nosso único bicampeão olímpico e, de uma só vez, ganhou uma turma para acompanhá-lo: Robert Scheidt (classe Laser), Torben Grael e Marcelo Ferreira (classe Star) e Maurício e Giovane, os dois remanescentes de Barcelona-1992 na equipe imbatível do vôlei masculino comandada por Bernardinho. No vôlei de praia, a dupla Ricardo/Emanuel não teve medo do favoritismo e saiu campeã. No hipismo, a dupla Rodrigo Pessoa/Baloubet du Rouet não teve medo de repetir o fracasso e terminou com a prata. Mas só durante um ano: foi o tempo que levou para se confirmar o doping do cavalo vencedor e se passar o ouro ao Brasil.

Com as pratas de Adriana Behar/Shelda e do futebol feminino, mais os bronzes dos judocas Leandro Guilheiro e Flávio Canto e de Vanderlei Cordeiro de Lima na maratona, saímos da Grécia cheios de história para contar.

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01 - A imagem mais marcante dos Jogos, e não apenas para o Brasil, não envolveu conquista de título: faltando 7km para o fim da maratona, Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a prova quando foi atacado pelo irlandês e biruta Cornelius Horan – um ex-padre que já havia invadido outros tantos eventos esportivos e escrevera um livro prevendo o fim do mundo. O sujeito vestido de kilt escocês barrou o caminho de Vanderlei e o atrapalhou por alguns segundos. O brasileiro não entendeu nada e seguiu caminho. Foi ultrapassado e terminou em terceiro lugar, feliz da vida. O COB ainda tentou que uma medalha de ouro fosse dada também ao brasileiro, mas o protesto foi compreensivelmente negado. A compensação veio com a medalha Pierre de Coubertin ao espírito olímpico: Vanderlei tornou-se apenas a décima pessoa na história a recebê-la do COI.

Uma das imagens mais absurdas e inesquecíveis da história olímpica
Arquivo
Uma das imagens mais absurdas e inesquecíveis da história olímpica


02 - Parecia inacreditável, mas a grande expectativa do Brasil antes dos Jogos (e sua maior desilusão durante eles) era para a ginástica artística, especificamente para Daiane dos Santos na prova do solo. A campeã do mundo foi capa de todas as revistas do País – esportivas ou não – e transformou todo mundo em entendido. De repente, era um tal de discutir sobre nota de partida e duplo twist carpado que ninguém acreditou quando Daiane cometeu duas falhas em sua série na final e terminou em quinto lugar. Naquela nossa velha cara-de-pau, muita gente argumentou que Oleg Ostapenko deveria ter vetado o duplo twist e optado por uma série mais segura. Só Daiane mostrou bom-senso e admitiu: “Errei. Acontece.”

03 - Antes do começo dos Jogos, o grande assunto era a despedida do nosso maior medalhista olímpico, o nadador Gustavo Borges. Durante a Olimpíada, a condição de maior vencedor brasileiro trocou de mãos: Torben Grael isolou-se com cinco medalhas.

Torben Grael e Marcelo Ferreira comemoram. Recorde é recorde
Clive Mason/Getty Images
Torben Grael e Marcelo Ferreira comemoram. Recorde é recorde


04 - Sob o comando de Renê Simões, o futebol feminino fez grande campanha e conseguiu a medalha de prata. Três anos depois, na Copa do Mundo da China, novamente as meninas ficaram com o vice-campeonato.

05 - A imersão do Brasil no clima olímpico foi potencializada dois meses antes da abertura da competição, quando a chama olímpica passou pela primeira vez por estes lados. Foi, aliás, a primeira vez que o revezamento da tocha passava pelos cinco continentes. No Rio de Janeiro, 126 pessoas seguraram a chama por 49km, começando com Pelé no Maracanã e terminando com Ronaldo Fenômeno no Parque do Flamengo.

Phelps vinha com tudo em busca de marca de Spitz
Al Bello/Getty Images
Phelps vinha com tudo em busca de marca de Spitz


06 - Soava como balela arrogante quando o norte-americano (ainda por cima norte-americano!) Michael Phelps dizia que, com a natação acirrada como é hoje em dia, lutaria para igualar o recorde de sete medalhas de ouro de Mark Spitz em Munique 1972. Dia após dia, foi ficando claro que não era por acaso; que o rapaz podia pleitear a quebra do recorde: o multi-nadador venceu os 100m e 200m borboleta, os 200m e 400m medley e os revezamentos 4x200m livre e 4x100m medley. Nos 200m livre e no revezamento 4x100m, Phelps ficou com o bronze. Saldo final: “apenas” seis ouros, um a menos que Spitz. Mas um novo recorde de medalhas numa mesma Olimpíada, oito – empatado com o ginasta soviético Aleksandr Dityatin em Moscou 1980.

Luis Scola, lenda viva, comemora o ouro argentino contra a Itália na decisão
Peter Kneffel EPA
Luis Scola, lenda viva, comemora o ouro argentino contra a Itália na decisão

07 - Desta vez, no basquete masculino, os Estados Unidos não ficaram nada perto de ser um sonho. A primeira derrota olímpica de uma equipe norte-americana formada por profissionais da NBA veio ainda na primeira fase, para Porto Rico. Na semifinal, liderada por Ginóbili, Oberto, Scola e cia. – todos, aliás, também na NBA hoje em dia - , a Argentina foi quem realmente transformou a aura em torno dos EUA e os deixou de fora da final. Os argentinos sairiam de Atenas com o ouro ao bater a Itália, e os norte-americanos, com o bronze.

08 - A Argentina, aliás, conquistou duas medalhas de ouro que foram ensandecidamente comemoradas não apenas porque eram as primeiras desde Helsinque-1952, mas porque vieram em dois dos esportes mais populares no país e no planeta: o basquete e o futebol. Com Carlos Tévez como artilheiro do torneio e um timaço que tinha gente como Heinze, D’Alessandro, Ayala e Lucho González, os argentinos bateram o Paraguai na final por 1 x 0 e terminaram a competição sem sofrer nenhum gol. O Brasil, como em Barcelona-1992, sequer se classificou, graças a uma derrota da equipe de Diego e Robinho contra o mesmo Paraguai, no Pré-Olímpico.

09 - Os chineses já sabiam que receberiam a Olimpíada seguinte e já haviam começado a preparar seus atletas para fazer bonito em casa. Mas era tanta gente boa que eles já começaram a fazer bonito na Grécia mesmo: com 32 medalhas de ouro e 63 no total, a China terminou os Jogos em segundo lugar da classificação geral, atrás apenas dos Estados Unidos.

10 - Os gregos capricharam especialmente ao criar o clima de Antiguidade em duas provas: o arremesso de peso foi disputado nas ruínas da cidade de Olímpia e a maratona retomou o percurso da lenda que a originou: o soldado grego Fedípedes teria percorrido sem parar os 42km entre as cidades de Maratona e Atenas para anunciar que os gregos haviam derrotado os persas na Batalha de Maratona. Ao terminar o recado, exausto, Fedípedes caiu morto.

A disputa do arremesso de peso foi realizada em meio às ruínas de Olímpia
Michael Steele/Getty Images
A disputa do arremesso de peso foi realizada em meio às ruínas de Olímpia


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