Antuérpia 1920: os Jogos dão adeus às armas, mas as boas vindas ao Brasil

Por iG São Paulo

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Depois de interrupção pela 1ª Guerra Mundial, as Olimpíadas voltaram na Bélgica, se expandindo e ganhando forma. Esta edição marcou também a estreia dos brasileiros, com direito a 3 medalhas

Finlandês Paavo Nurmi vence a prova dos 10.000m
EFE
Finlandês Paavo Nurmi vence a prova dos 10.000m


Graças ao sucesso das duas edições anteriores, a Olimpíada pôde arcar com os anos de recesso causados pela Primeira Guerra Mundial e seguir seu desenvolvimento como se nada tivesse acontecido. O que é mentira, claro, porque o mundo inteiro nunca mais foi o mesmo do Tratado de Versalhes em diante.

A princípio, Budapeste havia conquistado o direito de sediar os Jogos. Mas, após Versalhes, a Hungria – assim como Alemanha, Áustria, Bulgária e Turquia – foi banida de todas as competições esportivas internacionais. A honra de receber a sexta edição caiu no colo de Antuérpia, segundo o COI, “para homenagear o sofrimento do povo belga durante a Guerra”.

O fato é que os Jogos continuaram, sim, crescendo e tomando forma: foi a primeira vez que na cerimônia de abertura se utilizou a bandeira olímpica, a dos cinco anéis, e que se proclamou o Juramento Olímpico. A partir de 1920, apenas os comitês olímpicos nacionais puderam inscrever atletas – nada de federações, clubes, associações de bairro ou freelancers.

O atirador Guilherme Paraense
Arquivo
O atirador Guilherme Paraense

Dizem os irônicos que a Olimpíada cresceu tanto que até o Brasil conseguiu participar. A Confederação Brasileira de Desportos colocou 21 atletas – de esportes aquáticos, remo e tiro esportivo – a bordo do Curvello, um navio cedido pelo Governo Federal que viajaria durante um mês para chegar à Bélgica.

O problema foi que, ao aportar na Ilha da Madeira, o comandante se deu conta de que só conseguiriam chegar a Antuérpia no dia 5 de agosto, duas semanas depois de iniciada a competição. Uma ajudinha dos nossos diplomatas encurtou o percurso e salvou a participação: o navio desembarcou em Portugal e, de trem, os atletas chegaram prontos para começar a escrever a história olímpica do Pais.

Os mesmos irônicos dizem também que foi aproveitando o clima de armistício na Europa que os brasileiros mandaram bala nas provas de tiro. Das armas de fogo saíram nossas três primeiras medalhas: um bronze por equipes na pistola livre; uma prata de Afrânio Costa na pistola livre de 50m e nosso ouro inaugural, do tenente do Exército Guilherme Paraense, no tiro rápido de 25m.

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01 - A história de dependência com relação aos Estados Unidos não é de hoje: foram os americanos que, em compaixão pelo estado dos aos equipamentos dos brasileiros (dá para imaginar?), emprestaram armas e munição para que eles competissem no tiro esportivo. Nossa equipe agradeceu e conquistou as três medalhas, incluindo o ouro de Guilherme Paraense, que deixou o americano Raymond Bracken com a prata.

02 - Cinco atletas brasileiros - Abrahão Saliture, Adhemar Ferreira Serpa, Angelo Gammaro (vulgo Angelu), João Jório e Orlando Amendola – disputaram três modalidades de uma vez: natação, remo e pólo aquático.

03 - A tenista francesa Suzanne Lenglen, que hoje dá nome a uma das principais quadras do complexo de Roland Garros, mostrou quanto era melhor que suas adversárias: conquistou a medalha de ouro tendo perdido apenas quatro games nos dez sets que disputou. Ela ainda venceu as duplas mistas e foi bronze na dupla feminina.

A sexta edição dos Jogos, depois de intervalo prolongado por conta da 1ª Guerra Mundial
EFE
A sexta edição dos Jogos, depois de intervalo prolongado por conta da 1ª Guerra Mundial

04 - Eddie Eagan era tão bom que parecia personagem da Disney. Nasceu em uma família pobre no Colorado, conseguiu estudar em Yale, Harvard e Oxford e se tornou um advogado de primeira linha. Entre um habeas corpus e outro, ganhou uma medalha de ouro em Antuérpia 1920, na categoria meio-pesado do boxe. Doze anos depois, Eddie reapareceu nos Jogos Olímpicos de Inverno de Lake Placid como parte da equipe de bobsled que foi campeã. É até hoje o único com medalhas de ouro nas duas Olimpíadas, de verão e de inverno. E ainda dizem que ele era boa-pinta!

05 - Para o esgrimista italiano Nedo Nadi, tanto fazia a arma – se espada, florete ou sabre. Ele é o único da história a conquistar a medalha de ouro das três numa mesma Olimpíada. Além disso, ajudou a Itália a conquistar dois títulos por equipe – no florete e no sabre.

06 - Com 14 anos, 1,40m de altura e pesando 29,5kg, Aileen Riggin era a menor e mais jovem atleta da Olimpíada de 1920. O que chamou a atenção em Antuérpia não foram seus resultados, mas o pânico que o local das provas de salto lhe inspirava: um fosso de água fria e algo lamacenta. “Fiquei bloqueada. Pensava na possibilidade de ficar presa na lama do fundo. Que, como a água era escura, ninguém se daria conta da minha falta e eu teria uma morte horrível por afogamento.” Eu, hein!

07 - As três provas de natação feminina que foram disputadas – 100m, 300m e 4x100m nado livre – tiveram a norte-americana Ethelda Bleibtrey como vencedora. Ela entrou na piscina cinco vezes e quebrou o recorde mundial em todas elas. Um ano antes, a natação havia custado caro a Ethelda, que foi detida por atentado ao pudor numa piscina pública dos EUA onde era proibido “exibir as extremidade inferiores femininas”. O que significa, que fique claro, que a moça simplesmente tirou as meias.

08 - Até hoje, o sueco Oscar Swahn é o medalhista olímpico mais velho da história: aos 72 anos, ele fez parte da equipe que ficou com a prata no imperdoável “tiro duplo ao veado”.

09 - Já o mais velho campeão olímpico numa prova de atletismo foi o policial norte-americano Patrick McDonald, que aos 42 anos e 26 dias venceu o arremesso de peso. Até 1946, era o oficial McDonald quem controlava todos os dias o tráfego nas ruas da Times Square de Nova York (e recebia dezenas de buzinadinhas de reconhecimento ).

10 - Das 14 classes do iatismo, apenas uma tinha mais de três barcos competindo. Com isso, a embarcação belga da classe 6 metros foi a única a sair de Antuérpia sem medalha. A classe Dinghy 12 pés tornou-se o único evento de uma mesma Olimpíada realizado em dois paises. A primeira regata foi na Bélgica mesmo. Como a disputa era apenas entre dois holandeses, as duas regatas seguintes foram para o pais vizinho.

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