Amsterdã 1928: A chama que antecede a tempestade

Por iG São Paulo

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O Barão de Coubertin não queria mais se envolver com um evento que se distanciava do amadorismo. Uma questão insignificante, claro, diante do Crash da bolsa em 1929 e da ascensão do nazismo

O marquês de los Trujillos, montado sobre Zalamero, durante a prova de saltos. Ganhou ouro
EFE
O marquês de los Trujillos, montado sobre Zalamero, durante a prova de saltos. Ganhou ouro


Talvez ninguém se desse conta - porque essas coisas grandiosas demais a gente só percebe de verdade depois que elas acontecem -, mas 1928 foi como um último suspiro de inocência da Olimpíada antes de o mundo entrar em uma fase que seria problemática demais na política para deixar o esporte ser algo verdadeiramente importante.

Em 1925, o Barão Pierre de Coubertin anunciou sua renúncia ao cargo de presidente do COI. Incomodava ao aristocrata francês o fato de os Jogos Olímpicos estarem, segundo ele, “se desvirtuando”. A quantidade de atletas que flertavam com o profissionalismo aumentava, assim como algo que, para ele, sempre foi uma afronta ao conceito original do evento: a participação feminina. O número de mulheres em Amsterdã foi mais do que o dobro de Paris-1924 - 277 contra 135. Isto porque, com a saída do Barão, o caminho ficou aberto para que, pela primeira vez, houvesse competições femininas de atletismo e ginástica.

Um total de 28 países conquistaram medalhas de ouro na capital holandesa – um recorde que sobreviveria 40 anos. O Brasil, lamentavelmente, não estava entre eles. Aliás, nem estava lá. Por causa da crise econômica que nos assolava (aquela mesma, iniciada mais ou menos na época das Capitanias Hereditárias e não terminada até o fechamento desta edição), não houve verba disponível para enviar uma delegação.

Naquele ano, os Jogos incorporaram um de seus rituais mais simbólicos: o ato de acender a chama no alto do estádio olímpico. O fogo olímpico queimou tranqüilo durante três meses. Era a primeira vez - e a última antes de ser agitado pelos ventos do crash da Bolsa de Nova York em 1929, da ascensão do Nazismo e de tanta convulsão que o século 20 ainda guardava.

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01 - A suspensão da Alemanha por ter sido considerada causadora da Segunda Guerra Mundial terminou em 1925, e o pais retornou aos Jogos após 16 anos. Foi para dar trabalho: os alemães terminaram em segundo no quadro de medalhas, atrás apenas dos EUA.

A 8ª edição
EFE
A 8ª edição

02 - A cerimônia de abertura deu mais um passo para ter exatamente o mesmo formato dos dias de hoje: a Grécia foi o primeiro país a desfilar, e a equipe da casa, a Holanda, entrou no estádio por último. A ordem passou a fazer parte do protocolo olímpico.

03 - A seleção uruguaia virou, definitivamente a “Celeste Olímpica” . A equipe mais uma vez encarou uma trupe de europeus e se sagrou bicampeã depois de derrotar a Argentina: o primeiro jogo terminou empatado em 1 a 1, e os rivais precisaram voltar a se enfrentar, quando o Uruguai marcou 2 a 1. Até hoje, são as duas únicas medalhas de ouro na história do pais.

04 - O futebol olímpico cresceu vertiginosamente e já movimentava cerca de 1/3 do dinheiro envolvido nos Jogos. O comitê organizador de Amsterdã recebeu 250 mil solicitações de ingressos vindas de toda a Europa. A Fifa, então, abriu os olhos. Numa reunião de seu comitê executivo em 1929, o presidente Jules Rimet oficializou a criação da Copa do Mundo, em 1930, que teria o Uruguai como primeiro pais-sede. Na final, os uruguaios – contando com 11 campeões olímpicos de 1928 - outra vez derrotaram os argentinos.

05 - A polêmica estréia das mulheres no atletismo teve na polonesa Halina Konopacka sua primeira medalhista de ouro, no lançamento de disco. O COI, no entanto, descobriu da maneira mais dura que ainda era melhor pegar leve com as garotas. Na prova dos 800m, várias corredoras caíram exaustas no meio do percurso. Pela dúvida, até Roma1960 não houve eventos femininos de mais de 200m.

06 - Para quem acha que o papo lá em cima de “suspiro de inocência” é balela, escuta só: na regata de quartas-de-final, o remador australiano Bobby Pearce parou o seu barco no meio da disputa para deixar uma família de patos passar à sua frente! Quando os bichinhos terminaram a travessia, Pearce retomou o ritmo e ganhou a corrida. Ele acabaria com a medalha de ouro – além, provavelmente, do titulo honorário de “cidadão amigo do patinho holandês”.

A competição seguia na Europa
EFE
A competição seguia na Europa

07 - Nunca um atleta asiático havia conquistado uma medalha de ouro na Olimpíada. O primeiro foi o japonês Mikio Oda, que venceu o salto triplo. Dias depois, seu compatriota Yoshiyuki Tsuruta já venceu a segunda, nos 200m nado peito.

08 - Se os irmãos Coen até hoje não filmaram a história de Betty Robinson, é porque há alguma enorme falha de comunicação nos Estados Unidos da América: um dia, um professor viu a estudante de 16 anos em plena disparada para não perder o trem. Achou aquele estilo notável e resolveu cronometrar seu tempo dos 100m. Em sua primeira prova oficial, quatro meses antes dos Jogos, Betty bateu o recorde mundial. Três anos após o ouro de Amsterdã, ela se envolveu num acidente aéreo. O homem que a resgatou pensou que ela estava morta e a levou no porta-malas até o necrotério. Betty Robinson não havia morrido, mas ficou sete semanas em coma e dois anos sem andar. Apesar de não poder dobrar completamente o joelho para ficar na posição de largada, ela retornou à equipe de revezamento dos EUA em Berlim 1936 e conquistou seu segundo ouro.

09 - O Lorde David Burghley, Marquês de Exeter, se tornou um dos nomes mais populares na Inglaterra não apenas por seu ouro nos 400m com barreiras, mas por outros eventos curiosos. Foi ele quem deu uma volta no pátio central do Trinity College de Cambridge no tempo que o relógio demorava para dar as 12 badaladas do meio-dia. No filme Carruagens de Fogo, o feito foi erradamente atribuído a outro velocista, Harold Abrahams. Por causa disso, supostamente, o Lorde Burghley teria se negado a assistir ao filme. Eleito para o Parlamento em 1931, ele recebeu dispensa para competir em Los Angeles 1932. Depois, seguiu a carreira de dirigente, sendo presidente da Iaaf, membro do COI e chefe do comitê organizador de Londres 1948.

10 - A Olimpíada de Amsterdã assistiu ao início de duas dinastias nos esportes coletivos: a Índia venceu a primeira de seis medalhas de ouro consecutivas no hóquei de grama. Na esgrima, a Hungria conquistaria o sabre por equipes sete vezes seguidas: entre 1928 e 1960.

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