José Roberto Guimarães é o único brasileiro a conquistar o ouro nos Jogos em três oportunidades

BBC

A 500 dias da Olimpíada do Rio de Janeiro, com as atenções voltadas para as obras de infraestrutura e locais de competição, a pressão ainda passa longe dos atletas e treinadores. Ela não irá demorar para aparecer. O vôlei, modalidade de mais sucesso nas últimas décadas, é parte fundamental do plano traçado para elevar o país a "potência", ocupando o top 10 do quadro de medalhas.

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Mas virar potência é algo ainda distante para o país, segundo José Roberto Guimarães, o único brasileiro com três ouros olímpicos na carreira - técnico da seleção masculina de vôlei em 1992 e da feminina em 2008 e 2012. "Só vamos evoluir no esporte quando tivermos uma educação de primeiro mundo", disse, em entrevista exclusiva à BBC Brasil.

José Roberto Guimarães tem 3 ouros olímpicos
Divulgação/CBV
José Roberto Guimarães tem 3 ouros olímpicos

Ele falou sobre a preparação psicológica especial que está sendo feita com os atletas para lidar com a pressão - na tentativa de evitar frustrações como a do 7 a 1 na Copa do Mundo -, sobre o momento político do país para receber os Jogos e também sobre a perspectiva de medalhas do Brasil na competição. Para Zé Roberto, o Brasil vai evoluir esportivamente nos Jogos de 2016, mas ainda levará tempo para se tornar uma "potência olímpica".

Leia a entrevista completa com o técnico José Roberto Guimarães:

Como está a preparação da seleção brasileira de vôlei para os Jogos?
José Roberto Guimarães: Nós estamos iniciando os treinamento da seleção agora em abril, temos torneios importantes que vamos jogar esse ano, o Grand Prix e o Pan-Americano, que ainda não sabemos se vamos levar o time principal, e tem o Sul-Americano. Vamos tentar fazer jogos amistosos, torneios aqui no Brasil com a equipe, porque isso vai ser importante na preparação. A gente precisa tentar fazer o máximo possível de jogos em casa. É uma maneira de jogar junto com a torcida, sentindo o clima, porque a Olimpíada vai ser clima de pressão, de muita responsabilidade.

A Copa foi um sucesso em organização para o Brasil, mas isso ficou em segundo plano, porque teve uma grande frustração esportiva. Qual é o risco de acontecer o mesmo na Olimpíada? Como isso mexe com os atletas?
O COB (Comitê Olímpico Brasileiro), por sua iniciativa, tem feito reuniões de técnicos, atletas dirigentes exatamente falando sobre esse tipo de pressão que teremos jogando dentro do país, acho que isso está sendo muito importante pra todas as modalidades que têm sua realidade e que estão com sua expectativa de fazer boa Olimpíada. Tudo está sendo feito para tentar diminuir a pressão que vamos ter aqui. Por outro lado, essa pressão faz parte desde que o Brasil ganhou a chance de sediar os Jogos, então estamos convivendo com isso há alguns anos e trabalhando com isso. Decepções no esporte sempre vão acontecer. O que eu acho importante é todos os atletas tentarem fazer seu melhor.

No ano passado, apareceram denúncias contra a CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), que teria firmado contratos irregulares para favorecer pessoas próximas ao ex-presidente da Confederação, Ary Graça. Como você recebeu isso? Isso influencia no trabalho com a seleção?
Primeiro, é preciso dar tempo ao tempo para se provar as coisas. Por enquanto, tem muito falatório. É importante que se tenha um quadro real daquilo que aconteceu. A Confederação vive um momento importante de algumas mudanças lá dentro e está tudo caminhando melhor. Não tenho sentido por parte dos atletas algo a mais. O que eu vejo é que as pessoas estão se mobilizando dentro da CBV. Quando apareceram essas coisas, foi a época que a seleção já não estava mais trabalhando, então ela não foi afetada diretamente com nenhum tipo de clima. Temos que tocar nossa vida. Deixo isso pros advogados, eu tenho que continuar trabalhando.

O Brasil está passando por um momento político difícil, com protestos e muita insatisfação com o governo. Como isso afeta a preparação do país para sediar a Olimpíada? Afeta o esporte de alguma forma?
Acho que esse momento político não afeta o esporte, afeta o país. Vivemos um momento de descrença e isso é muito ruim. Temos que resgatar a confiança para que a economia volte a dar passos largos. Não penso nem em Olimpíada, eu penso no povo, no país, acho que o país precisa resgatar essa credibilidade que ficou manchada com os problemas de corrupção. Para mim, é um momento de tristeza enorme.

Desde que ganhou a disputa pra sediar os Jogos, o Brasil falou em fazer uma campanha histórica no esporte. Em Pequim, a China teve um plano assim e fez uma preparação de oito anos pra liderar o quadro de medalhas em 2008 – e conseguiu. O Brasil tem o plano Brasil Medalhas, que aumentou investimento em atletas de ponta. Acha que conseguirá o resultado expressivo que almeja?
Ninguém, nem China, Estados Unidos ou Rússia, muda um quadro de medalhas em oito anos. O que eu vejo de positivo para o esporte é que vai deixar um legado histórico. A gente vai mexer com a cabeça dessa nova geração, que está na escola, começando sua vida esportiva e que vai poder ver de perto um evento dessa magnitude. Acho que o Brasil vai ganhar mais medalhas, mas não vamos nos tornar agora uma potência olímpica. Ainda vai levar bastante tempo para isso. Acredito que no futuro, talvez em 20, 30 anos, o país possa ser potência olímpica. Mas, para ser, acho que a educação, a saúde, a economia têm de caminhar juntas. Eu não vejo grande investimento no esporte se não tiver com a economia galopante.

Eu acho que isso é do governo da maneira geral. Acho que só vamos evoluir quando tivermos uma educação de primeiro mundo. Eu não posso culpar o Ministério do Esporte se hoje a gente não tem condição adequada na educação, nem para desenvolver o esporte. Não vejo uma coisa sem a outra. Acho que começa na escola. Tem muita coisa pra ser feita. Investir na base, na escola, pra depois se tornar potência olímpica.

O COB fala em atingir a meta de estar no top 10 do quadro de medalhas dos Jogos do Rio. Acha que a delegação brasileira vai atingi-la? (Em 2012, o Brasil ficou em 22º, e, em 2008, em 23º)
É possível atingir meta. Muita gente está se preparando bem, todos sabem da dificuldades que vão encontrar. Vamos melhorar no quadro de medalhas, não tenho dúvidas disso.

A presidente Dilma assinou uma medida provisória para a modernização do futebol que também propõe, além do fair-play financeiro, limitar o mandato da presidência da CBF a 8 anos. Nas confederações olímpicas, temos os mesmos presidentes no comando há décadas. O que acha de uma medida dessas para outros esportes?
Acho que a gente vive numa democracia onde o que acontece no governo tem que acontecer nas federações e confederações. Na presidência, é uma reeleição. São 8 anos, tempo considerável, então acho que pode ser dessa maneira no esporte também. Não vejo por que não.

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