Em entrevista ao iG, nadadora fala da crise de pânico que sofreu no Mundial, diz que não pensa em parar e revela que está se acertando com Coaracy Nunes, presidente da CBDA

O Mundial de esportes aquáticos de Barcelona, encerrado há duas semanas, reviveu os piores fantasmas possíveis para a nadadora Joanna Maranhão. Mais experiente na seleção brasileira feminina, a pernambucana de 26 anos sofreu uma crise emocional antes da prova dos 200 m borboleta . Era praticamente um "flashback" do drama que ela passou um ano antes, nas Olimpíadas de Londres , quando uma crise de pânico fez a nadadora desmaiar e bater a cabeça no banheiro, horas antes de disputar os 400 m medley, sua especialidade e prova na qual chegou em quinto lugar nas Olimpíadas de Atenas, em 2004.

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O fato serviu para Joanna tomar a decisão de passar a contar com a ajuda de um psicólogo em sua rotina de treinamento. E mesmo ainda enfrentando problemas de falta de patrocínio, a nadadora não está preocupada se contará ou não com ajuda da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) para bancar esse profissional. “Independentemente da posição da CBDA, vou continuar fazendo o uso deste trabalho. Se vão me dar algum tipo de auxílio financeiro, não me interessa. O que importa é que eu tenho direito a ter esse respaldo”, afirmou.

Joanna Maranhão passará a contar com a ajuda de um psicólogo em sua preparação
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Joanna Maranhão passará a contar com a ajuda de um psicólogo em sua preparação


Em entrevista exclusiva ao iG Esporte , Joanna Maranhão relembrou todo o drama vivido em Barcelona, afirmou que nem passa pela sua cabeça abandonar as piscinas e ainda fez uma revelação: após anos de embate via imprensa e redes sociais, ela disse que está fazendo as pazes com Coaracy Nunes. “É claro que nunca seremos grandes amigos, sempre fomos muito diferentes, mas estamos colocando um objetivo superior sobre nossas diferenças.”

Confira abaixo os principais trechos desta entrevista:

A crise nervosa no Mundial de Barcelona

“O que aconteceu no Mundial é que eu inverti a ordem das coisas na minha cabeça. Ao invés de nadar e esperar o resultado, na minha cabeça eu já comecei a projetar o pior cenário possível: ‘se eu não passar para a semifinal, o patrocínio vai ser renovado ou não? Não vou conseguir ajudar a minha mãe, não vamos conseguir resolver o nosso problema financeiro, as pessoas vão ficar falando que eu sou uma fracassada, etc’. Comecei a imaginar as piores coisas possíveis depois dos 200 medley no primeiro dia, quando nadei mal e estava com a expectativa de nadar muito bem aquela prova, pois tinha treinado muito bem, estava na minha melhor forma física possível.”

“Aí, chegou o dia dos 200 m borboleta e coloquei na minha cabeça que era o tudo ou nada. E quando eu entrei no ônibus, me deu uma palpitação, aquela vontade de fugir e cheguei na competição, olhava e dizia que queria fugir dali. As pessoas me deram muita força na hora, me acalmando e dizendo para eu imaginar o pior cenário possível, que seria ficar em último lugar. E daí? Passei para a semifinal em 16º. Na semifinal, estava tranquila, mas a descarga emocional da crise é equivalente a um treino de 20 km e de uma musculação superpesada, o corpo não aguenta. Por mais tranquila que eu estivesse na semifinal, o meu corpo estava muito pesado com tudo aquilo que tinha ocorrido na parte da manhã.”

“Lá mesmo em Barcelona já fui atrás de um profissional, lá de Recife mesmo, e começamos a trabalhar assim que cheguei. Há um momento em que você precisa parar e colocar as coisas na ordem certa. Não posso subir num bloco para competir, seja num Pernambucano, Norte-Nordeste, Brasileiro, Mundial ou Jogos Olímpicos com a cabeça pensando que eu tenho que dar resultado para reverter um quadro financeiro. Não é isso, a ordem não é essa. Tenho direito para nadar e me divertir, para fazer o que eu amo, como eu faço no treino. E é isso que estou procurando fazer a partir de agora.”

Joanna Maranhão em ação no Troféu José Finklel, realizado na piscina do Corinthians
Divulgação/CBDA
Joanna Maranhão em ação no Troféu José Finklel, realizado na piscina do Corinthians


Veja também: Joanna Maranhão deverá ter apoio de psicólogo nas próximas competições

Decisão de trabalhar com um psicólogo

“É muito comum em qualquer esporte, todo ser humano faz terapia, tem o direito de fazer. É um procedimento completamente normal e em certos momentos da sua vida é preciso parar, respirar fundo e tentar entender o rumo das coisas, para continuar vivendo.”

“Eu já precisava há muito tempo, mas é aquela situação que você vai empurrando com a barriga. O nadador vive sob pressão o tempo inteiro. É o calendário que te pressiona, tem horário certo pra comer e não atrapalhar o próximo treino, tudo é cronometrado em sua vida. A gente vive em função de tempo, literalmente. Agora, eu vou continuar vivendo em função do tempo, mas também dando um tempo para mim.”

“Será algo muito simples. A maioria dos atletas de alto rendimento tem esse auxílio psicológico. Trata-se de um ritual para você competir, que lhe faça se sentir melhor, entrar na zona de performance. No fundo, tudo é muito simples, só que era algo que eu estava adiando e vi que agora chegou o momento de trabalhar esse lado.”

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A falta de um psicólogo em Londres

“Não posso viver de ‘se’. Aquilo foi uma crise de pânico, desmaiei, bati a cabeça e não pude nadar. O que acontece é que todo atleta tem que estar com a cabeça voltada para treinar e competir. Ele não tem que se preocupar em contratar técnico, nutricionista etc, isso tudo tem que estar pronto para ajudá-lo em seu treinamento. Só que eu estava fazendo muito mais coisa do que nadar, era uma carga muito grande.”

“Mesmo assim, fui 15ª do mundo nos 200m medley em Londres. Apesar de tudo, nenhuma das minhas viagens de preparação, torneios, nada foi em vão. Quando não nadei os 400medley, eu estava com o supercílio cortado mas falava que só queria colocar meu maiô, subir no bloco e nadar numa Olimpíada. E competi e fui semifinalista, algo que não tinha acontecido em Pequim. Foram oito anos para ser novamente semifinalista, que não é qualquer coisa, são apenas 16 atletas do mundo que chegam a essa condição, a cada quatro anos. Eu valorizo isso.”

Joanna não teve boa participação no Mundial de Barcelona e seu melhor resultado foi o 16º lugar na semifinal dos 200 m borboleta
Divulgação/CBDA
Joanna não teve boa participação no Mundial de Barcelona e seu melhor resultado foi o 16º lugar na semifinal dos 200 m borboleta


Patrocínio e relação com Coaracy Nunes

“O contrato dos Correios está em processo de renovação. O contrato anterior terminou em julho, mas acredito que será renovado, pois fui semifinalista do Mundial e no Finkel estou ganhando as minhas provas, ou seja, não devo ter problemas quanto a isso.”

“Os problemas com a CBDA são parte do passado. Eu conversei com o Coaracy no Mundial, mas como isso ocorreu antes da competição, foi uma conversa muito rápida. Falei pra ele que era complicado após termos tido tantos embates, a ponto de um não querer olhar na cara do outro, chegar agora e achar que vai resolver todas as diferenças numa única conversa.”

“Ele entende que me ajudou muito ao longo da carreira. Eu respondi a ele que minha obrigação era respeitá-lo, como presidente da minha confederação e pedi desculpas se em alguma ocasião eu faltei com respeito a ele. Ao mesmo tempo, disse que tinha direito de discordar da gestão dele. Mas a conversa está sendo boa, porque eu vi que tinha portas abertas para com você, não preciso mandar recado via imprensa.”

“Não sei o que levou ele a mudar a forma de me tratar. Mas eu prefiro olhar pelo lado positivo, que ele enxergou que o nosso relacionamento precisava melhorar e fico muito feliz que isso tenha partido dele. E mais feliz ainda que ele sabe que eu tenho talento e ainda posso dar retorno. Deu-se uma luz. Não vou dizer que somos os melhores amigos, mas pelo menos na parte profissional, estamos falando a mesma língua.”

Aposentadoria distante

“Ah, vocês vão ter que me aguentar ainda por muito tempo (risos). Eu continuo nadando bem. Eu me sin to como se tivesse 21 anos. Na minha cabeça, eu me sinto muito jovem pra nadar. A rotina é muito prazerosa pra mim e ainda estou dando conta do recado para pensar em parar. Nem penso nisso.”

“Com a idade você tem um ganho de explosão, então quem sabe não arriscar um 4 x 100 livre? Os 200m medley ainda posso evoluir muito. Tem muita prova aí para poder brincar.”

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