Em uma prova tão exigente quanto um Ecomotion, as mulheres sofrem no começo, mas costumam chegar mais "inteiras" ao final de seis dias de corrida

Camila Nicolau ajuda a carregar o caiaque com a equipe BMS durante a Ecomotion/Pro 2013
Aretha Martins/iG
Camila Nicolau ajuda a carregar o caiaque com a equipe BMS durante a Ecomotion/Pro 2013

"Qual o papel da mulher na corrida de aventura? Ela é o nosso equipamento obrigatório". Esta era a conversa na largada para da Ecomotion/Pro, que começou domingo e segue ao longo da semana na Costa do Cacau, no Sul da Bahia. A brincadeira é por conta de uma exigência da prova, que reúne equipes de quatro participantes e pelo menos um deve ser do sexo oposto. Com são todos times masculinos, ter uma mulher virou obrigação. Mas a ala feminina se mostra mais resistente aos desafios da corrida de aventura e também tem seu papel nas equipes.

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"Até brincam sobre o equipamento obrigatório, mas a mulher aguenta mais no geral da prova. Nos dois primeiros a gente sofre mais, mas depois começa a ficar mais forte e termina melhor que os homens", afirma Camila Nicolau, da equipe BMS, até agora uma das primeiras colocadas no Ecomotion. Eles reconhecem a qualidade feminina. "Não é tanta quebraceira quanto o homem. Lá pelo terceiro dia ela ainda vai estar bem", comenta Evandro Clunc, da Sol da Indiada.

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Camila, que era atleta de remo e começou na corrida de aventura em 2004 depois que a sua mãe participou de uma prova e a incentivou, ainda lembra outra qualidade. "Acho que a mulher pensa um pouquinho melhor, age com mais cautela", diz a paulistana. Atualmente, ela vive do esporte. Além de competir, Camila Nicolau tem uma escola com o namorado Guilherme Pahl, também atleta, e dá aula de mountain bike, canoagem e treino de corrida em Brasília.

A definição de Camila cabe também em outras equipes. Rosemeri Muller faz parte da Papaventuras e compete o Ecomotion pela sexta vez. Não veio mais porque ficou grávida - tem duas filhas, uma de 13 e outra de cinco anos. Ela se vê como cérebro da equipe.

"Acho que o meu papel no grupo é dar o equilíbrio. Posso dizer que sou o cérebro, que vai com calma, analisando as coisas, dando um basta quando é necessário. Sou muito ponderada. Já fiz mais de 50 provas e nunca desisti de nenhuma, então ajudo também com o estímulo. Mas eu me cuido porque eu sei que tenho casa, duas filhas para cuidar. Eu vou na minha e me divirto", explica a atleta de 44 anos.


Rose ainda brinca com a diferença física para os homens. "Eles são mais fortes, claro. Não sou uma atleta boa na corrida ou na bike. Acho que sou tipo um pato. Eu vou, aos poucos, e faço a minha parte em todas as modalidades".

A mulher também pode levar cuidado e sensibilidade ao time, ainda mais falando de uma prova que dura dias e na qual os competidores sentem fome, estão extremamente cansado, quase não dormem e percorrem 620km aproximadamente.

"Eu cuido dos meninos. O Evandro é o nosso navegador e não me importo de dar a comida na boca se precisar. Eu me preocupo se eles estão se alimentando, se hidratando", fala Renata Mariani, da Sol de Indiada. "Estou sempre de bom humor e sorrindo e acho que isso ajuda o time, mas na chegada eu choro muito. Acho que a sensação de dever cumprido misturado com todo o sofrimento", completa a personal trainner de 32 anos.

Ela corre desde 2001, fez seu primeiro Ecomotion em 2006 e voltou neste só esse ano. "Sofri demais e achei que fosse morrer. Fiquei com um pouco de trauma de corridas longas assim, mas agora estou bem", comenta. Neste ano, ela também ajudou na logística da prova. "Também sou a parte técnica, que vê toda a comida, o que levar na caixa, como arrumar a caixa, a nossa suplementação, os acessórios, se era preciso comprar mais alguma coisa", conta Renata.

Vaidade só na largada

Em uma prova como a Ecomotion as mulheres dizem ser necessário deixar a vaidade de lado. Com tanta corrida, pedalada, natação e canoagem, dá para tentar ficar bonita apenas na largada. "Antes faço a unha, passo um bom rímel a prova d'água para durar mais. Para a largada tem que estar bonita, mas vai ver depois de uns três dias... Não dá para pensar em mais nada", fala Renata Mariani.

Unhas pintadas e maquiagem na véspera da prova para Renata Mariani, uma das atletas
Aretha Martins/iG
Unhas pintadas e maquiagem na véspera da prova para Renata Mariani, uma das atletas

Existem alguns truques para sobreviver a tanto tempo de prova. E claro, não pode faltar bom humor. "Levo protetor solar, lenço umedecido e desodorante para dar um cheirinho já que não tem como tomar banho. Mas com tanta lama, poeira, sujeira, tem que pensar: "Certeza que essa lama vai fazer bem. E esse mar? Também vai fazer bem para a pele", brinca Marilia Santos, integrante da Enigma Selva Aventura. "Levo sempre escova de dente e tem gente que esquece. Mas depois do quarto dia você está tão esgotado que até empresta sem pensar", revela Marilia.

Nem sempre os planos ao longo da corrida dão certo. "Eu queria até pentear o cabelo, mas ainda não deu", disse Mariza Sousa, da Brou Aventuras durante a prova. Ela e a equipe estavam no segundo dia de corrida e haviam acabado de completar uma etapa de aproximadamente 3,5 km de natação e parado para comer alguma coisa antes de seguir para canoagem. "Vou aproveitar a canoagem para pentear o cabelo e escovar os dentes", previa a atleta.

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