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"Vantagem" de Pistorius sobre rivais não é consenso entre especialistas

Para professora da USP, antes de discutir eventual benefício de próteses em sul-africano, é necessário analisar perda de equilíbrio que ele enfrenta por não ter os pés

Pedro Taveira, iG São Paulo | 25/08/2011 12:11

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Foto: Getty Images

Oscar Pistorius será o primeiro atleta paraolímpico a competir em um Mundial de atletismo

No momento em que pisar na pista de Daegu, na Coreia do Sul, às 23h15 do próximo sábado (horário de Brasília), o sul-africano Oscar Pistorius fará história. Aos 24 anos e com índice para disputar a prova dos 400m, ele se tornará o primeiro atleta amputado a competir contra corredores normais em um Mundial de atletismo. Sua participação, porém, será cercada da polêmica sobre a suposta vantagem que teria sobre os demais competidores por causa de suas próteses, algo que não é consenso nem entre especialistas.

Pistorius obteve sua vaga ao correr a distância em 45s07, o que nenhum brasileiro conseguiu. Há quem afirme que o atleta só estará em Daegu graças a suas próteses, como é o caso do cientista sul-africano Ross Tucker. Ele sugere que seu compatriota ganharia até dez segundos de vantagem e define a decisão da CAS em permitir sua ida ao Mundial como uma farsa.

Entenda o caso e a polêmica entre IAAF e CAS sobre Oscar Pistorius
Em janeiro de 2008, após analisar os testes de Brüggemann, a IAAF (Associação das Federações Internacionais de Atletismo) proibiu Pistorius de competir por entender que seu caso se enquadrava no seguinte regulamento: “Está proibido o uso de qualquer dispositivo técnico que incorpore molas, rodas ou qualquer elemento que dê a seu usuário vantagem sobre outro atleta que não possui tal dispositivo”. Em maio do mesmo ano, após apelação do corredor, a CAS (Corte Arbitral do Esporte) anulou esta decisão.


VEJA TAMBÉM: Infográfico: Oscar Pistorius, o atleta para olímpico que vai ao Mundial

No entanto, para Elisabeth de Mattos, professora de Educação Física da USP (Universidade de São Paulo) e ex-membro do Comitê Paraolímpico Brasileiro, é impossível dizer se a disputa de Pistorius contra atletas olímpicos será legítima ou desleal. Pelo menos com estudos realizados até hoje.

Testes realizados pelo cientista alemão Gert-Peter Brüggemann no entre o fim de 2007 e o início de 2008 mostraram que, em uma prova de 400m, Pistorius consome 25% menos oxigênio que o normal. Além disso, quando em velocidade, as próteses do sul-africano devolvem 90% da energia do impacto, contra 60% de pés normais. Estaria aí a suposta vantagem.

“Como ele [Pistorius] gasta menos oxigênio que os demais, se ele não tivesse a prótese não teria nem condições de pegar o índice”, afirma Mattos. “Mas não conseguiram dizer o quanto ele ganha de tempo e também não foi quantificado o quanto ele perde, por exemplo, no equilíbrio”.

A questão do equilíbrio, também citada pelo corredor paraolímpico Alan Fonteles em entrevista ao iG, é vista como um dos pontos fundamentais para analisar o desempenho de Pistorius. “Nós, para andarmos, temos os pés. A prótese dele para correr o mantém na ponta do pé. Para manter o equilíbrio ele tem que estar em movimento. Ele não tem equilíbrio estático”, explica a professora. “Então ele tem menos possibilidades. Quando vai correr, ele tem que ser mais perfeito. Se diminuir a velocidade, o equilíbrio dele é prejudicado”.

De acordo com Mattos, a solução para se descobrir se Pistorius possui ou não vantagem sobre rivais poderia ser dada de duas formas. A primeira seria a realização de testes específicos com o sul-africano para ver seu desempenho em provas de maior velocidade. “Ele não foi avaliado em provas de 100m e 200m. Falaram que ele tinha perfil fisiológico X e desempenho Y, mas e as provas específicas?”, diz a professora. “Na época, o Brüggemann alegou ter havido algum impedimento para continuar os testes”.

Podem afirmar que a prótese dá, por exemplo, 10s a mais para Pistorius. Mas quanto ele perde por não ter pé?

O outro método, um tanto menos ortodoxo, é colocado de forma bem humorada, apenas para provocar uma reflexão. “Seria pegar uma pessoa que tenha o perfil fisiológico bom, amputar, colocar as próteses e mandar fazer a mesma coisa”, conta Mattos. “Como essa opção é inviável, teria que ser feita a primeira”.

Mas, apesar da ciência julgar ser capaz quantificar qual poderia ser a vantagem de Pistorius sobre outros competidores, não é possível mensurar a perda que o sul-africano tem por simplesmente não ter os pés. “Podem afirmar que a prótese dá, por exemplo, 10s a mais para ele. Mas quanto ele perde por não ter pé?”, afirma Mattos. “Pé dá um molejo e uma impulsão diferente dessa ‘coisinha’ na ponta do corpo”.

Foto: Getty Images

Pistorius se prepara para largada. Equilíbrio inicial é maior problema para sul-africano

 

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