'Foi difícil me reerguer novamente', diz Fabiana Murer sobre fiasco em Londres

Pouco mais de dois meses após nem ter se classificado para a final do salto com vara nas Olimpíadas, atleta brasileira fala pela primeira vez sobre seu frustrante desempenho

Marcelo Laguna - iG São Paulo | - Atualizada às

Os últimos 75 dias foram dedicados para descanso e, principalmente, muita reflexão para a saltadora brasileira Fabiana Murer. Neste período, além de curtir merecidas férias após uma temporada estafante, ela tentou descobrir, ou mesmo entender, os motivos que a levaram a não conseguir nem passar pelas eliminatórias do salto com vara nas Olimpíadas de Londres 2012 , no último dia 4 de agosto. Justamente ela, atual campeã mundial da prova e que estava cotada como uma das principais candidatas a brigar pela medalha de ouro.

Divulgação
Fabiana Murer voltou a treinar na última quarta-feira (17), mas ainda não esqueceu a eliminação em Londres

Eliminada após nem conseguir completar a última tentativa para pular 4,55 m (marca que a classificaria para a final), depois de enfrentar inúmeras dificuldades com um vento contrário muito forte no Estádio Olímpico de Londres, Fabiana acabou sendo alvo de uma enxurrada de críticas no Brasil, muitas delas através das redes sociais. "Amarelona", "Foi a Londres para passear", foram algumas das mensagens mais comuns que surgiram na época. "Dez dias depois da competição, eu ainda estava abalada. Foi difícil me reerguer novamente", diz a brasileira, que só agora começou a falar sobre o  episódio que a deixou marcada como um dos fiascos brasileiros nos Jogos de Londres.

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Passado o período de descanso, a atleta brasileira retomou os treinamentos no dia 8 de outubro, já visando a temporada de 2013, cujo principal objetivo é o Mundial de Moscou. Mas ao olhar para trás, Fabiana Murer mostra bastante segurança de que fez o possível. "Acho que eu fiz tudo certo, todas as escolhas que eu tive dentro da prova foram certas, porque não tinha como fazer o salto naquelas condições", afirma.

Veja abaixo os principais momentos da entrevista com Fabiana Murer:

O salto que não aconteceu

David Phillip/AP
A brasileiroa Fabiana Murer em um de seus saltos errados nos Jogos de Londres 2012

"Quando estava no 4,50 m, o vento começou a mudar muito e não estava constante. Algumas atletas começaram a não conseguir fazer o salto, atletas que a gente contava que estaria na final como a Feofanova [Svetlana, atleta da Rússia], terceira no Mundial, sempre tem medalhas em grandes competições. O Elson falou para eu começar um pouco mais baixo porque a gente achava que 4,50 m seria suficiente para classificar. Comecei com uma vara que achava que fosse dar certo, e no primeiro salto a vara ficou muito flexível. Eu tive que trocar para uma mais dura. Consegui passar na segunda tentativa, mas mesmo assim tive um desequilíbrio. Fui para o salto de 4,55 m. Usei a mesma vara dos 4,50 m, mas o vento não estava tão forte contra e a vara ficou muito flexível. Aí tive que pegar uma vara mais forte para conseguir fazer o 4,55 m."

"Na segunda tentativa do 4,55 m, derrubei o sarrafo e aí fui para a terceira tentativa. Tenho um minuto para saltar. Dentro desse um minuto, se eu sair correndo faltando um segundo, eu posso fazer o salto. Na hora que eu fui saltar, o vento começou a ficar muito forte contra. Então fui esperando até um momento ideal para fazer o salto. Comecei a correr, só que o vento estava muito forte, eu sentia que eu não conseguia me deslocar, e como vi que eu ainda tinha tempo, esperei mais um pouco, para ver se o vento diminuia e fazer a última tentativa. Eu parei, voltei para a minha marca novamente, e fiquei esperando. Faltavam uns quatro ou três segundos e comecei a correr. Só que eu senti que o vento estava muito forte, não conseguia me deslocar. Aí eu parei o salto porque eu não tinha a velocidade ideal para fazer o salto, para conseguir abaixar a vara, realmente não dava para fazer aquele salto."

"Até fui ver com o árbitro quantas atletas tinham passado, eu vi que já tinham passado 12, falei 'Bom, tô fora'. Mas eu não tinha entendido o que tinha acontecido. Saí em choque, anestesiada."

Medo de contusão

"Lógico que queria fazer esse salto. Tentei duas vezes, sai correndo duas vezes, mas senti que a distância de onde estava para o colchão era muito grande. Não tinha como continuar correndo e fazer o salto. Preciso me sentir segura para fazer o salto, se sentir que vou cair fora do colchão, eu aborto o salto. Às vezes até saio do chão, mas se sinto que vou para o lado errado, eu paro. Se eu sei que vou me machucar eu paro também. Mas, na Olimpíada, eu não fiquei com medo de me machucar. É que não tinha como ir lá e fazer o salto."

Sem arrependimento

"Acho que eu fiz tudo certo, todas as escolhas que eu tive dentro da prova foram certas, porque não tinha como fazer o salto. Algumas atletas iam correndo e passavam direto, nem saiam do chão. Eu teria feito a mesma coisa se eu tivesse continuado correndo, porque o atleta tem essa noção de espaço entre o último passo e onde vai encaixar a vara. Desde o meio da corrida, eu sei quando tenho que começar a abaixar a vara, tenho essa noção do espaço porque eu treino muito isso. Sabia que não ia chegar na minha marca, eu não tinha velocidade, não tinha como eu sair do chão, porque eu não estava no lugar para fazer isso."

Ressaca pós-olímpica

"Foi realmente muito difícil. esperava que não fosse classificar para final, apesar de as condições estarem bem ruins. Eu treinei muito para que qualquer condição que estivesse na competição não me atrapalhasse. Mas estava realmente um vento contra muito forte, eu não conseguia me deslocar para saltar. Eu fiz tudo o que eu podia na hora da competição, foi tudo muito bem planejado. Todas as escolhas que eu, o Elson [Miranda, seu técnico] e o Vitaly [Petrov, ucraniano que é o coordenador técnico do salto com vara da confederação] fizemos foram certas. Mas foi difícil me reerguer novamente."

"Eu fiquei na Vila acho que uma semana e, depois da competição, não conseguia falar com ninguém. As pessoas vinham falar comigo e eu chorava. Eu tentava me recuperar, mas tudo o que eu lia ou quando as pessoas falavam comigo, eu chorava, porque fiquei muito chateada, mas eu sabia que tinha que continuar treinando. Dez dias depois eu tive uma competição em Estocolmo e ainda estava abalada."

Repercussão do resultado nas redes sociais

"Entendo a reação das pessoas, as pessoas têm o direito de falar o que elas quiserem, a Internet é para isso, as redes sociais são para isso, e talvez eu não tenha conseguido me expressar muito bem assim que eu saí da pista. Eu estava em choque, anestesiada, eu não estava conseguindo entender realmente o que tinha acontecido. Eu só tentava explicar para as pessoas o que tinha acontecido realmente, sempre tentei ser sincera, não arrumei nenhuma desculpa. Mas não fiquei chateada por isso, fiquei mais chateada mesmo é por não conseguir fazer o que eu queria."

Qual foi a maior frustração, 2008 ou 2012?

"Acho que as duas são bem parecidas. Uma coisa é diferente da outra. As expectativas são sempre grandes e entrei em Pequim confiante que disputaria uma medalha e senti que eles me tiraram essa oportunidade de disputar a medalha, por estar faltando uma das minhas varas. Em Londres, também estava superconfiante, mas não fui para a final. Fiquei muito abalada nas duas, não dá para escolher uma."

Getty Images
Fabiana Murer não escondeu a frustração em Pequim, após algumas das suas varas terem sumido. Ela terminou a competição em 10º lugar

Mudanças no treinamento neste ano

"Foi um ano diferente, porque não fiz a temporada em pista coberta para poder treinar mais tempo para ficar mais constante na técnica, no salto. As primeiras competições foram difíceis e acho que faltava um pouco de ritmo de competição. Mas depois comecei a pegar esse ritmo, tanto que saltei 4,77 m em Nova York. E lá gostei muito do meu salto e passei mais um período treinando. Eu gostei, e os técnicos também. Não acho que fiz nada de errado neste ano, foi bom não ter feito a temporada em pista fechada. A minha motivação estava maior, no ano passado estava cansada de competir."

Planos para o futuro

"Antes eu falava que talvez fosse parar um ano para dar uma descansada mas decidi competir todos os anos deste ciclo olímpico, temporada em pista coberta, em pista aberta, como eu sempre fiz, até 2016. Acho que tem muita coisa pela frente até lá. Agora que eu voltei a treinar, quero colocar uma pedra em cima disso tudo e pensar para frente. Não adianta ficar parada no passado. Meu ano de 2013 já começou e estou super animada para continuar desenvolvendo a minha técnica, tenho condição de saltar mais do que 4,85 m, que é a minha melhor marca, e pensar nos 5 metros, ainda penso nisso. Ano que vem tem Mundial, vai ser em Moscou, vai ser bem forte e vou começar a competir em janeiro, fazer a temporada em pista coberta, tem bastante coisa pela frente e para continuar no mesmo ano."

Veja fotos da carreira da saltadora Fabiana Murer:

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