Campeão mundial de surfe, Gabriel Medina, de apenas 21 anos, é apegado à família e adora passar o tempo livre ao lado da irmã Sophia, de nove. Ele agora se concentra para etapa do Rio

Em um pouco mais de quatro meses desde a conquista do campeonato mundial de surf, Gabriel Medina viu a vida dele virar de cabeça para baixo. O jovem de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, teve a vida exposta em programas de televisão, ganhou uma legião de fãs e foi considerado pela revista americana "Time" uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Tamanha ascensão poderia deslumbrar qualquer adolescente de 21 anos, mas não o filho de Simone Medina que, segundo ela, continuou "o mesmo menino no corpo de homem".

Gabriel Medina: em evento do patrocinador
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Gabriel Medina: em evento do patrocinador

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O homem que desafia os limites da física nas ondas ainda é o mesmo menino que brinca de videogame, anda de skate e se preocupa todos os dias com a família. Mesmo as viagens exaustivas por causa das competições e treinos rígidos - que duram cerca de cinco horas -, Gabriel tenta dedicar o máximo do tempo livre dele aos pais e irmãos. E é a irmãzinha Sophia, de apenas nove anos, a quem ele é mais apegado e sente mais falta quando está ausente.

Para compensar os dias que está longe de casa, Biel - como é carinhosamente chamado pela família - gosta de pegar o quadriciclo e dirigir até o Canto do Moreira, ao sul de Maresias, para surfar ao lado de Sophia. Faz questão de buscá-la no colégio, onde a pequena garota exibe para as amigas o irmão campeão. Já com o irmão Felipe, ele arrisca tocar bateria embora não tenha nenhuma habilidade para conduzir as baquetas.

E ainda é preciso ter tempo, é claro, de matar a saudade do prato predileto: o macarrão de forno preparado pela mãe. O prato é elaborado por Simone e consiste em uma massa coberta de muito queijo e molho de frango, o qual ele considera o "melhor prato do mundo". Aproveita a oportunidade para reunir os amigos, e a mãe "tem de fazer macarrão de bacia, porque surfista come pra caramba", diz ela aos risos. É dessa simplicidade que Gabriel Medina é feito.

O filho carinhoso e obediente em nada mudou desde o título mundial. Gabriel continua respeitando a hierarquia dos pais e sequer questiona o fato de só pode ir às baladas durante as férias. Apesar dos inúmeros convites para participar de festas e shows, ele dificilmente consegue comparecer por causa da agenda apertada e das regras impostas pelo pai e também treinador Charles. Não foi à toa que a primeira vez dele em uma casa noturna aconteceu apenas aos 19 anos. E nunca reclamou disso.

"Esse é o maior título: quando o seu filho não se corrompe com as coisas da vida. Ele não perde a essência. Ele sabe que é importante saber que a vida vai além da fama e do glamour", afirma Simone.

A verdade é que o WTC realizado em Pipeline, no Havaí, só fez Medina aumentar a sua dedicação pelo surfe. Os maus resultados obtidos nas etapas de Gold Coast e Margaret River, no início desta temporada, poderiam ser interpretados como uma pressão ou preciosismo do jovem garoto. Ele, por sua vez, preferiu aceitar os deslizes e aumentar a intensidade dos trabalhos para se recuperar na etapa do Rio de Janeiro, onde não tem um bom histórico.

"O Gabriel, em nenhum momento se sentiu pressionado. Em um circuito mundial existem perdas, e o Gabriel no ano passado as teve no meio do ano. E a diferença é que agora elas foram no começo. Isso é normal. Através das perdas, as pessoas ficaram com a impressão de que o Gabriel foi pressionado de alguma maneira, e ele me disse: 'Mãe, pressionado eu fui o ano passado. Eu não consigo ser pressionado porque começou o ano agora, e o ranking zera. Eu estaria na pressão se de repente eu tivesse um mar clássico e não estivesse conseguindo levar e tivesse alguma coisa no meu psicológico. Mas como eles conseguiriam ver isso se eu não consegui surfar?'", explica a mãe.

Austrália é página virada

"Vamos para a casa que eu quero ganhar no Rio", foi a primeira coisa que Gabriel falou para o pai em tom de reprovação após deixar o mar em Margaret River, na Austrália. Desde então, ele aumentou as horas dentro do mar. "Viemos antes para o Rio e vimos o que fizemos de errado em anos anteriores. O principal foco hoje é treinar numa onda parecida e colocar muita quilometragem. A onda que se tem no Rio é semelhante a que temos em frente à nossa casa, então estamos testando prancha, e o Gabriel se adaptando. Estou otimista para a próxima etapa", pontua Charles.

"Ele sempre se dedicou ao máximo. Acho que sem querer o título mundial tirou a atenção do Gabriel, mas não foi culpa de ninguém. Sem querer você acaba entrando em uma zona de conforto e, às vezes, você tira a atenção. Mas o Gabriel funciona sob pressão. Eu acredito agora que a pitadinha no Rio de Janeiro é as derrotas nas três primeiras etapas, que vão cutucar ele. A derrota é uma fonte de alimento para o Gabriel buscar a vitória", analisa o treinador.

Talvez Gabriel não se dê conta o quanto representa para o esporte brasileiro agora e o salto importante que ele deu para a modalidade no país. Mas alguém ousa em atrapalhar o sonho do garoto?

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