Não se assuste: até 2026, a CBDN pretende colocar atletas brasileiros brigando por um lugar no pódio nas Olimpíadas de inverno, com base em um complexo planejamento estratégico

A ideia de colocar um país predominantemente tropical como o Brasil brigando por medalhas nos Jogos Olímpicos de inverno pode soar como brincadeira. Mas no que depender dos dirigentes da CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve), a meta está longe de ser considerada uma galhofa. Um ousado planejamento de marketing criado pela entidade pretende, até 2026, colocar atletas brasileiros brigando por um lugar no pódio e, quem sabe, até por medalhas em cinco modalidades esportivas dos Jogos Olímpicos de inverno.

Josi Santos é considerada a inspiração para o surgimento de novos atletas nos esqui aerials
Divulgação/CBDN
Josi Santos é considerada a inspiração para o surgimento de novos atletas nos esqui aerials


“Este plano foi fruto de um trabalho de 15 meses, portanto não é algo feito de qualquer maneira. Prometer medalha seria uma irresponsabilidade, mas acredito que poderemos sim alcançar finais olímpicas e brigar pelo pódio”, explica o superintendente técnico da CBDN, Pedro Cavazzoni. “Todas as metas que traçamos são difíceis de serem alcançadas, mas factíveis dentro do nosso projeto”, completou.

O estudo da confederação tomou como base aspectos de competitividade e viabilidade de desenvolvimento. Para isso, foram analisados mais de 96 mil atletas de sete modalidades de neve em todo o mundo. Com base nestes dados, os dirigentes brasileiros identificaram um potencial para atingir os resultados pretendidos em quatro esportes: esqui aerials feminino e masculino; snowboard feminino, cross country e biathlon, ambos masculino e feminino.

Pedro Cavazzoni, diretor da CBDN, aposta que o planejamento de longo prazo trará novos talentos para os esportes de inverno
Divulgação
Pedro Cavazzoni, diretor da CBDN, aposta que o planejamento de longo prazo trará novos talentos para os esportes de inverno

Chamado pela CBDN de “business plans”, o projeto da entidade pretende traçar um longo caminho, de 2015 até 2026 como ponto final, em busca de resultados de alto nível nos esportes de neve. Para isso, foram determinados vários planos de ação envolvendo estratégia de treinamento, no Brasil e  no exterior; lista de eventos que cada modalidade teria que realizar neste período; planos de carreira e pós-carreira para os atletas; plano mercadológico e análise de riscos.

O planejamento também estabelece quais as metas que são esperadas. No ski aerials, por exemplo, é chegar nos Jogos de 2026 em uma final olímpica no feminino (com chance de brigar por medalha) e ficar no top 10 no masculino. No cross country e no biathlon a meta é ficar no top 15 dos Jogos Olímpicos da Juventude de inverno, em 2024, enquanto que o snowboard tem como principal objetivo alcançar o top 20 da classificação olímpica até 2026.

“A gente conseguia identificar os talentos e percebia que o caminho para que eles pudesse evoluir seria através de um planejamento sistemático”, disse Cavazzoni, citando uma parceria com a CBG (Confederação Brasileira de Ginástica) para captação de futuros atletas no aerials, sem entrar em conflito por estes potenciais talentos. “Vamos trazer apenas aqueles que não tiverem condição de evoluir no alto rendimento na ginástica artística, mas que podem conquistar bons resultados no aerials”, afirmou o superintendente da CBDN.

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A motivação para trazer novos atletas será o exemplo de Josi Santos, a ex-ginasta que substituiu Laís Souza nas Olimpíadas de Sochi, em 2014, após o acidente que a deixou tetraplégica durante um treino. A entidade pretende transformar o que a princípio poderia ser um marketing negativo em um exemplo de superação. “Meu caso é um exemplo para abrir novos caminhos. Fiquei 25 anos sem conseguir um grande resultado na ginástica e depois consegui chegar às Olimpíadas pelo aerials”, disse Josi, que também atua como treinadora no centro de treinamento da confederação, em São Roque, onde já vem atuando no descobrimento de novos atletas.

Treinos no Brasil

A grande aposta da CBDN no esqui aerials está no fato de que o processo de descobrimento de novos atletas, tendo como base a ginástica artística, é feito em outros lugares. “Esta transição vem sendo seguida por países como a Austrália, que tem um clima parecido com o nosso e possuí uma ex-ginasta com duas medalhas olímpicas”, disse Pedro Cavazzoni, referindo-se à Lydia Lasslia, medalha de ouro em Vancouver 2010 e bronze em Sochi 2014.

O rollerski é usado como forma de descoberta de novos talentos para o cross country
Divulgação/CBDN
O rollerski é usado como forma de descoberta de novos talentos para o cross country


A própria estrutura da modalidade facilita o otimismo da CBDN em relação ao potencial do Brasil, pois 70% da nota da prova é baseada nos movimentos aéreos - ou seja, cujos treinamentos podem ser feitos no país, sem a necessidade de estar o tempo todo treinando em um local com neve.

O “jeitinho brasileiro” também aparece em outra modalidade, o cross country. No caso, a estratégia da CBDN é apostar no descobrimento de novos talentos pelo projeto social do esquiador Leandro Ribela, chamado “Ski na rua”. Com dois Jogos de Inverno no currículo (Vancouver 2010 e Sochi 2014), Ribela utiliza o rollerski, onde o atleta simula os movimentos da modalidade, só que esquiando no asfalto.

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“Os equipamentos são um pouco menores, porém dá para praticar todos os movimentos no asfalto”, disse Ribela, cujo projeto contempla crianças de uma comunidade carente chamada São Remo, localizada atrás da USP. Embora o objetivo proposto no plano da CBDN para sua modalidade seja o de ficar no top 15 dos Jogos da Juventude até 2026, Ribella já vê bom potencial para um futuro próximo em sua modalidade. “Participamos de um torneio na Patagônia e um garoto do sub 14, que jamais havia visto neve na vida, treinou dois dias e foi campeão em sua categoria”, disse o esquiador.

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