Ao longo da construção da "Enciclopédia Olímpica Brasileira", Katia Rubio encontrou dificuldades, mas sentiu a recompensa com a gratidão de atletas do passado e histórias curiosas

Katia Rubio: psicóloga ministrou palestras sobre educação e valores olímpicos
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Katia Rubio: psicóloga ministrou palestras sobre educação e valores olímpicos

Demorou, mas o mais completo levantamento de dados sobre a história do esporte olímpico brasileiro finalmente foi concluído. A responsável por isso atende pelo nome de Katia Rubio, psicóloga paulistana de 52 anos que coordenou a pesquisa.

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A "Enciclopédia Olímpica Brasileira" é resultado de um projeto iniciado em 2001, durante a tese de doutorado na qual estudou a relação entre a identidade do atleta e o mito do herói. As entrevistas que precisou fazer nesta etapa acabaram motivando a busca pela história de todos os outros nomes que também já representaram o país nas Olimpíadas. Uma trajetória que levou 15 anos para ser percorrida.

"Se soubesse que fosse levar tanto tempo, talvez nem teria começado", brincou Katia, em entrevista ao iG Esporte . "Foi um projeto que nasceu pequeno e que foi ficando grande na medida do entendimento da importância do material que tinha para buscar. Cada atleta pra mim é um universo de pesquisa único. É curioso entender o que leva aquelas pessoas a abrirem mão dos melhores momentos da sua vida, em um país que não tem estrutura para dar aos atletas olímpicos, e que mesmo assim vão atrás do sonho, dessa voz que fala mais alto dentro deles. São histórias que me motivam muito para trazer ao público e dar a visibilidade que esses caras merecem."

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"Enciclopédia Olímpica Brasileira", resultado de 15 anos de pesquisas

Não foram poucas as dificuldades ao longo do caminho. A começar pela conclusão do número exato de atletas, já que haviam alguns erros de registro nos dados dos documentos do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), que incluiam gente que havia participado apenas de competições pré-olímpicas, mas que depois tinha sido cortada. Feitas as correções, chegou-se ao resultado final de 1.797 nomes. 

Houve ainda problemas nas entrevistas. Além de todos os esforços para se rodar o Brasil atrás dos atletas, alguns deles não estavam dispostos a conceder entrevista para o projeto. Outros, como o cavaleiro Rodrigo Pessoa, medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

"Pessoalmente, ele foi um doce depois quando me recebeu, mas não consegui passar da assessoria dele durante muito tempo", lembrou Katia. "O pessoal não entendia que tipo de entrevista eu gostaria de fazer, mas muitos outros casos foram diferentes. Chegar na casa de um determinado atleta e ouví-lo perguntar como você o descobriu talvez tenha sido a parte mais gostosa."

A pesquisa ainda ajudou muitos esportistas do passado a refazerem contatos depois de muito tempo, além de servir para encher de orgulho os parentes. "Muitos sentiram gratidão com o reconhecimento aos antepassados. Foi emocionante porque tem família que não sabia que havia um atleta olímpico nela. Alguns netos e sobrinhos não sabiam, e nós que levamos essa informação a eles", contou. 

Não foi essa a única parte curiosa do projeto. Longe disso, aliás. Histórias que chamaram a atenção foram ouvidas com frequência, ao ponto de a psicóloga sentir que seria injusto destacar uma ou outra. Preferiu, então, relembrar duas que pertencem a quem não foi considerado atleta olímpico. 

Katia Rubio ao lado de jovens do handebol
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Katia Rubio ao lado de jovens do handebol

"Teve um que competiu no atletismo em 1900 que tinha nacionalidade dupla, filho de um fracês e uma brasileira. Naquela época, os atletas ainda não eram identificados por estados nacionais. Iam aos Jogos e competiam por conta própria. Então esse tipo de participação era possível. Isso foi antes do nascimento do COB (1914). Porque naquele momento não havia necessidade de um comitê nacional, bastava os atletas irem que estava tudo certo", recordou Katia. 

"Outra curiosidade que computamos foi um brasileiro que competiu em 1924 na Olimpíada Cultural. Ele não foi para praticar esporte. Havia concurso de poesia e obras literárias que tinham a mesma importância que as competições esportivas. Um brasileiro participou do projeto arquitetônico. Há um registro do COI da participação dele, que competiu com um pseudônimo. Buscamos elementos para descobrir quem foi ele e o registro da relação dele com o Brasil, mas não se sabe a história dele. A inscrição diz J.L., que provavelmente era um homem. As mulheres quase não participavam do processo naquela época. Nós continuamos atrás desta história", completou. 

Pruduzida via recursos da Lei Rouanet, a "Enciclopédia Olímpica Brasileira" está prestes a se tornar realidade. "Se der tudo certo, sai em abril", afirmou a coordenadora do projeto. A primeira edição será distribuída gratuitamente e terá 3 mil exemplares, mas mais da metade já tem dono. 

"Uma coisa que quis fazer é doar os livros para os 1.797 atletas. Ouvi muito deles que eles já foram fonte de pesquisas anteriores, mas nunca receberam o resultado. Então assumi esse compromisso", explicou Katia.

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