Crise da água afeta campos, clubes e ameaça competições náuticas no Sudeste

Por Thiago Rocha - iG São Paulo* | - Atualizada às

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Baseado na Guarapiranga, Yacht Club Santo Amaro pode abrir mão de receber um torneio em setembro por conta do baixo nível de água da represa. Clubes apostam na conscientização de atletas e frequentadores para diminuir o consumo

O Sudeste do Brasil está a conta gotas. A escassez de chuva, combinada com o desperdício de água e as parcas políticas de conscientização e reutilização do recurso, colocaram a região composta por São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais em sua pior crise hídrica dos últimos 84 anos, segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA) divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente em 23 de janeiro. O esporte não está imune ao impacto da estiagem. Do futebol às modalidades olímpicas, atletas e clubes precisaram mudar hábitos e buscar alternativas à nova realidade.

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Pier do Yacht Club Santo Amaro está inutilizado por causa da queda do nível de água na represa de Guarapiranga
Thiago Rocha/iG
Pier do Yacht Club Santo Amaro está inutilizado por causa da queda do nível de água na represa de Guarapiranga

Os esportes náuticos são, sem dúvida, os mais prejudicados com a crise hídrica. O Yacht Club Santo Amaro, que fica à margem da Guarapiranga, já cancelou torneios e regatas tradicionais entre sócios nos últimos quatro meses por conta do baixo nível de água. Além da seca, a represa passou a ser usada para socorrer do colapso o Sistema Cantareira no abastecimento da região metropolitana de São Paulo. E a tendência é piorar.

"A gente já estava acostumado a ter um primeiro semestre com represa cheia e o segundo com represa vazia, mas nunca chegou a esse ponto. Por que? Sempre que a represa baixava, o Cantareira ainda tinha água. O crítico deste ano é que o Cantareira não tem mais água, então estamos abastecendo uma parcela muito maior da população. Então, nossa maior preocupação é o segundo semestre deste ano. O começo de janeiro estava crítico, a gente não conseguia mais descer com os barcos para a água. Até fizemos uma gambiarra, mas não é o ideal. A represa reagiu um pouco, nossa rampa voltou a funcionar e a gente consegue descer os barcos, mas a perspectiva é que no fim de abril, começo de maio, volte a ficar bem ruim de novo e o segundo semestre vai ser crítico", descreveu Marcos Biekarck, gerente geral do YCSA. "Acho que todos os velejadores de todos os clubes estão sofrendo com isso. Os clubes da margem, com exceção de um ou dois, vivem da vela. É o que atrai novos sócios, o que faz alguém frequentar o clube é a possibilidade de pegar seu barco e ir para a água, seja uma velejada de lazer ou competitiva. A gente prevê um ano bem difícil, bem complicado."

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As chuvas recentes garantiram um nível de água satisfatório na Guarapiranga para que o YCSA organize neste fim de semana a Taça Geraldo Peixoto, para barcos das classes Optimist e 420. No carnaval, o local recebe o Campeonato Brasileiro de Lightning, em que a tripulação campeã se garantirá nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em julho. Como o temor maior é com a tradicional baixa do segundo semestre, Biekarck acredita que a represa não tenha condições de sediar em setembro a Copa da Juventude, que formará a equipe brasileira para o Mundial da categoria, em dezembro, na Malásia. "Setembro deve ser um mês crítico, em que não deve ter mais água na represa, e estamos cogitando transferir para o Rio de Janeiro. É um campeonato que traria muita exposição para a Guarapiranga, para São Paulo e para o YCSA, mas a gente vai ter de abrir mão disso. Até o fim de março vai ter de decidir se faz ou não. Sinceramente, me pesa dizer isso, mas tenho quase certeza de que a gente não vai conseguir fazer. Obviamente a esperança é a última que morre, mas provavelmente em setembro a gente não vai conseguir", lamentou.

Veja fotos da Guarapiranga na margem do Yacht Club Santo Amaro:

Trecho da represa de Guarapiranga onde fica o Yacht Club Santo Amaro. Foto: Thiago Rocha/iGBancos de areia e áreas com mato no meio da água são visíveis com o nível baixo da represa de Guarapiranga. Foto: Thiago Rocha/iGPier do Yacht Club Santo Amaro está inutilizado por conta do baixo nível da Guarapiranga. Foto: Thiago Rocha/iGMargem da Guarapiranga está coberta de vegetação e virou caminho para os barcos tentarem chegar à água. Foto: Thiago Rocha/iGGuarapiranga tem abastecido outros pontos da cidade de São Paulo por conta da crise hídrica. Foto: Thiago Rocha/iG

Sem poder proporcionar sua principal atividade, o clube náutico precisou implantar novas atrações para manter os sócios ativos. "A gente está fazendo cursos de mergulho na piscina, aulas de stand up paddle, ginástica, dança de salão, workshops de maquiagem, degustação de vinhos... Coisas que não estavam no dia a dia do clube e a gente precisou desenvolver para manter o sócio interessado em vir", explicou Biekarck, ressaltando que, num primeiro momento, a aceitação dos frequentadores foi positiva.

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Os velejadores que usam a Guarapiranga também foram afetados e tiveram de transferir seus treinos para o litoral de São Paulo, em cidades como São Sebastião e Ilhabela. A impossibilidade de ir à água traz outro problema: a falta de estímulo para seguir nos esportes náuticos. "Temos uma equipe, a Audi YCSA Sailing Team, focada na vela para os jovens, mas eles moram em São Paulo, estudam, os pais trabalham e não têm disponibilidade para ir qualquer fim de semana. Apesar de o clube dar todo o apoio aos velejadores, fica difícil. A gente sente que em alguns casos o cara acaba até desistindo de ser velejador por causa dessa dificuldade, principalmente os mais novos, que dependem muito dos pais para irem e virem, não têm tanta autonomia para se locomover. A gente vê que os pais, mediante essa dificuldade, acabam preferindo colocar os filhos em outro esporte do que continuar na vela, que já é um esporte difícil de praticar em alto nível", concluiu o administrador do Yacht Club Santo Amaro.

Vale até caminhão-pipa para o campo ficar menos seco

Estádio Mamudão, em Governador Valadares, recebe Democrata x Cruzeiro pela primeira rodada do Campeonato Mineiro: gramado está prejudicado por conta da seca
Sergio Roberto/Light Press/Cruzeiro
Estádio Mamudão, em Governador Valadares, recebe Democrata x Cruzeiro pela primeira rodada do Campeonato Mineiro: gramado está prejudicado por conta da seca

No futebol, o principal reflexo da falta de chuva é a qualidade dos gramados. A melhor forma de deixar o campo em condições ideiais é a ação da natureza, com a irrigação servindo como alternativa. Mas chove pouco e ainda falta água na torneira. O que fazer? A Associação Atlética Flamengo, de Guarulhos, cidade da Grande São Paulo que convive com cortes no fornecimento há mais de um ano, precisou fazer gastos extras em seu orçamento para a manutenção da estrutura que usa para jogos e treinos.

"A água chega um dia e some por dois dias. Quando vem, chega sem pressão para subir e encher um dos nossos reservatórios, que é bem grande, então a gente tem que comprar água. Imagine comprar água para molhar o campo... Além do preço, que está muito caro hoje, nem sempre tem disponibilidade para o dia que você precisa. O problema acentuou bastante em janeiro e da segunda quinzena para cá vem (água) um dia e três, não. Por enquanto a gente precisa só para o campo, mas se continuar nesse ritmo vamos ter que comprar água também para outras necessidades", disse Joaquim José Mangueira Leite, presidente do Flamengo de Guarulhos, que disputa a Série A3 do Campeonato Paulista. O clube tem uma parceria administrativa com o Corinthians, que paga cerca de R$ 3 mil por semana em caminhões-pipa para amenizar o corte no abastecimento.

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O início dos estaduais mostrou gramados bem prejudicados pelo Sudeste. A Federação de Futebol do Espírito Santo alterou horários de jogos, das 16h para as 20h, por conta do tempo seco. O Estrela do Norte, da elite capixaba, se encontra em alerta porque a cidade onde está situado, Cachoeiro do Itapemirim, decretou estado de emergência - o Rio Itapemirim, que abastece a região, apresenta seu volume mais baixo em 80 anos. "Temos uma mina que serve para apenas abastecer o campo, porque a água não é potável, mas a fonte já está ficando escassa. Chegou ao limite, mas ainda não secou. Estamos muito preocupados", confessou Adilson Conti, presidente do Estrela do Norte.

Vestiários do CT do Corinthians ganharam placas pedindo economia no consumo
Divulgação
Vestiários do CT do Corinthians ganharam placas pedindo economia no consumo

Os times mais populares do Sudeste, por enquanto, não passam sufoco com a crise da água. A maioria conta com minas e poços para cuidar de gramados e fazer a higiene dos centros de treinamento e estádios. O papel, por enquanto, é de conscientização. No centro de treinamento do Corinthians, por exemplo, avisos pedindo o consumo moderado de água foram colocados nos vestiários. Há até quem desfrute de abundância: a Ponte Preta precisa utilizar bombas que ficam ligadas 24 horas para drenar as três minas subterrâneas que passam por seu estádio, o Moisés Lucarelli. Se o procedimento não for feito, corre o risco de os vestiários e os acessos ao campo ficarem completamente alagados.

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Clubes sociais tradicionais, como Minas Tênis e Pinheiros, além de campanhas por economia, instalaram redutores de vazão em torneiras para diminuir o desperdício e passaram a usar menos água na manutenção das quadras de tênis de saibro - o ideal é regar o barro duas vezes ao dia para que não endureça, agora o piso é umedecido duas vezes por semana. No Pacaembu, que conta com um complexo poliesportivo anexo ao estádio, um vigia orienta os usuários a gastarem pouca água nos vestiários. Clubes de golfe de São Paulo e do Rio também reduziram a irrigação dos gramados. 

Água coletiva

Andre Heller, coordenador do Vôlei Brasil Kirin, utiliza o galão coletivo de água: alternativa para evitar o desperdício
Cinara Piccolo/Vôlei Brasil Kirin
Andre Heller, coordenador do Vôlei Brasil Kirin, utiliza o galão coletivo de água: alternativa para evitar o desperdício

Equipe baseada em Campinas, no interior de São Paulo, o Vôlei Brasil Kirin cortou algumas regalias dos jogadores com a intenção de consumir água de forma mais consciente. O mergulho em balde de gelo, técnica de recuperação física conhecida como crioterapia, só é feito em casos extremos. Do contrário, massagens e uma bolsa fria na região dão conta do recado. Quando algum tipo de tratamento aos jogadores requer o uso de água, o que sobra é reaproveitado para limpeza de vestiários e da quadra. Para a manutenção do ginásio, apenas pás e vassouras. As garrafas de água mineral, antes individuais e que muitas vezes eram largadas pelos atletas ainda com líquido dentro quando esquentavam, deram lugar a um galão coletivo. Quem tiver sede se serve com um copo plástico na dose que precisa para se satisfazer.

"Como cidadão, todos nós lamentamos muito. Essa situação despertou em nós um sentimento de limitação, porque a gente passou a reparar em coisas que fazia e nem se dava conta. Espero que não seja tarde para que isso seja despertado, é uma oportunidade de colocar em prática a cidadania, ver onde estava errando, no trabalho e em casa. É um momento de bastante reflexão. Tenho esperança de que seja possível reverter, mas tudo indica que vamos passar por momentos piores ainda. Não é falta de água só para consumo, pode impactar nas empresas, nos empregos, e fica até difícil pensar nas consequências. E nós do esporte, como em outras situações, temos de dar o exemplo e sermos referências", diagnosticou André Heller, coordenador técnico do Vôlei Brasil Kirin e ex-meio de rede da seleção brasileira, com a qual se sagrou campeão olímpico e mundial.

Em São Paulo, o Sistema Cantareira já usou duas reservas técnicas, o chamado volume morto, para manter o abastecimento de 6,5 milhões de pessoas na região metropolitana
Futura Press
Em São Paulo, o Sistema Cantareira já usou duas reservas técnicas, o chamado volume morto, para manter o abastecimento de 6,5 milhões de pessoas na região metropolitana


* Colaborou Bruno Winckler.

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