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Modalidades excluídas do programa olímpico relatam ao iG as dificuldades financeiras e falta de apoio oficial para prepararem suas equipes aos chamados "Jogos Olímpicos das Américas"

Competição importante na preparação da equipe brasileira que disputará as Olimpíadas do Rio 2016, os Jogos Pan-Americanos de Toronto (CAN), marcados para julho de 2015, terão um sentimento diferente para seis modalidades. Atletas do beisebol/softbol, boliche, caratê, esqui aquático, patinação artística e squash - todos excluídos do programa esportivo olímpico - encaram o Pan como sua Olimpíada "particular". Para conseguirem chegar ao Canadá em condições de brigar por medalhas, contudo, estes "primos pobres" do esporte brasileiro sofrem dificuldades financeiras e falta de apoio que beiram o surreal.

Confira as modalidades não-olímpicas que estarão no Pan de Toronto, em 2015, e alguns brasileiros já classificados para a competição


"O COB só dá recurso para os esportes olímpicos. Vivemos com o pires na mão, literalmente", admite Moacyr Neunschwander Filho, que é o presidente da CBHP (Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação). Ele aponta justamente para o maior problema que atrapalha a vida dos não-olímpicos na preparação do Pan: o fato de não estarem no programa dos Jogos, deixa estas modalidades fora da distribuição das verbas da Lei Agnelo/Piva, que destina 2% da arrecadação bruta das loterias federais para as confederações olímpicas. Este repasse, que ocorre desde 2001, é feito anualmente pelo COB (Comitê Olímpico do Brasil).

"Tem sido muito duro manter a entidade sem estas verbas e os atletas acabam tendo que bancar suas próprias despesas. O COB não nos dá ajuda nem para disputarmos torneios classificatórios para o Pan-Americano, por mais que a gente faça uma solicitação oficial", explica Jorge Otsuka, que preside a CBBS (Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol). Algumas entidades até mantém o otimismo e enviam projetos ao COB, sonhando com uma verba extra na preparação.

Acompanhe a preparação dos Jogos do Rio 2016 no blog Espírito Olímpico

"Sempre em ano de Pan o COB dá algum apoio para intercâmbio ou treinamento. Já encaminhamos um projeto para 2015, que contempla quatro intercâmbios internacionais e cinco encontros nacionais com toda a delegação. Vamos ver se eles nos atendem", afirma William Cardoso, diretor-técnico da CBK (Confederação Brasileira de Caratê). A maioria, porém, está longe de mostrar esse otimismo.

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"O que o COB nos dá é quase nada. O ciclo pan-americano tem quatro anos: no primeiro ano, eles não deram nada; no segundo e terceiro anos, me deram ao menos as passagens para o pan de squash. No ano que vem, só teremos apoio total quando os atletas forem para Toronto", explica Daniel Penna, presidente da CBS (Confederação Brasileira de Squash).

Desorganização interna aumenta penúria

A falta de recursos recorrente nestes esportes não ocorre somente pelo fato deles não integrarem o programa de modalidades olímpicas. Muitas modalidades sofrem por sua própria falta de estrutura, como disputas políticas internas e até mesmo falta de candidatos a comandar a confederação. Esse foi o caso do esqui aquático, cujo cargo acabou caindo no colo de um atleta, Fernando Neves, porque ninguém mais queria assumir a função. Agora, ele tenta marcar novas eleições para tentar se classificar para Pan de Toronto.

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Toda essa situação acaba refletindo até mesmo em repasses de recursos federais aos atletas. No caso do beisebol/softbol e patinação artística, todos os que tinha sido contemplados pelo programa Bolsa-Atleta, que é pago pelo Ministério do Esporte, tiveram os benefícios suspensos neste ano.

"Nós temos sete federações estaduais, mas por causa da distância e custos, apenas três [São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul] disputam a fase final dos torneios nacionais. O problema é que o Ministério pede que os campeonatos nacionais contem com equipes de cinco estados, do contrário o Bolsa-Atleta não poderá ser pago", conta Jorge Otsuka. 

Procurado pelo iG , o secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Ricardo Leyser, explicou que mesmo os competidores de modalidades não-olímpicas têm direito ao Bolsa-Atleta, mas admitiu que problemas internos na organização de alguns esportes podem mesmo ter interferido no pagamento dos benefícios.

Mesmo diante de tantas dificuldades, ao perguntar para alguns destes "primos pobres" do esporte brasileiro se vale a pena participar dos Jogos Pan-Americanos, todos eles não terão a menor dúvida em afirmar que sim. "A gente faz isso porque a gente ama. Eu já disputei três Pan-Americanos e a única coisa que eu ganhei foram tapinhas nas costas e três hérnias de disco. Mas quero competir em Toronto", disse Fernando Neves, do esqui aquático. "Participar do Pan é fabuloso. É bom demais poder conviver com o Cielo, Thiago Pereira, as meninas do vôlei, curtir a Vila Pan-Americana", afirma Daniel Penna, do squash. "O Pan é a nossa Olimpíada", completa Guy Igliori, presidente da CBBOL (Confederação Brasileira de Boliche).