Futuro da ex-ginasta, que segue sem movimentar braços e pernas após acidente de esqui, desperta na categoria a discussão da profissionalização das modalidades olímpicas

A ex-ginasta e esquiadora Laís Souza está, mesmo sem saber, inspirando outros atletas a lutarem por uma melhor condição de trabalho no esporte olímpico do Brasil. Enquanto segue internada no hospital Jackson Memorial, da Universidade de Miami, em busca de recuperação da gravíssima lesão na terceira vértebra cervical - que lhe trouxe paralisia total dos membros superiores e inferiores desde o acidente de esqui sofrido no final de janeiro -, Laís já tem em andamento uma campanha para arrecadação de fundos, iniciada pelo COB (Comitê Olímpico Brasileiro) para ajudá-la a reiniciar sua vida, segundo explicou nota oficial emitida pelo próprio COB no último dia 17. No meio esportivo, porém, seu drama serve de alerta na busca por mais segurança ao atleta brasileiro.

Lais Souza ao lado da equipe médica no Jackson Memorial, em Miami, onde se recupera do acidente ocorrido em janeiro
Jackson Memorial Hospital/Divulgação
Lais Souza ao lado da equipe médica no Jackson Memorial, em Miami, onde se recupera do acidente ocorrido em janeiro


“O nosso esporte passa por um momento novo, no qual estão inseridos grandes eventos internacionais no país, como as Olimpíadas, e, ao mesmo tempo, atletas, técnicos e integrantes de comissões técnicas estão engajados e preocupados em deixar um legado melhor para futuras gerações. Temos que lutar por uma melhor estrutura para atletas de todas as modalidades”, afirma Emanuel Rego, campeão olímpico pelo vôlei de praia em Atenas 2004 e atual presidente da comissão de atletas do COB.

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Criada em 2009 e inspirada em entidade semelhante que há anos existe no COI (Comitê Olímpico Internacional), a comissão brasileira, composta por 19 atletas e ex-atletas olímpicos, tem como função servir de canal de comunição entre os atletas brasileiros e o COB. Mas já há dentro do órgão quem defenda a necessidade de usar a força de seus integrantes para brigar por metas mais ousadas e que poderiam, caso já estivessem em vigor, auxiliar Laís Souza em seu futuro ainda incerto.

Presidente da comissão de atletas do COB, Emanuel acha que o momento é de mudança no esporte brasileiro
Divulgação/CBV
Presidente da comissão de atletas do COB, Emanuel acha que o momento é de mudança no esporte brasileiro


“Acredito que já passou da hora de termos a profissão de atleta olímpico regulamentada. Aliás, esta é uma bandeira que eu defendo desde os tempos em que jogava”, afirmou a ex-ala da seleção brasileira feminina de basquete Hortência Marcari, prata nos Jogos de Atlanta 1996 e vice-presidente da comissão de atletas. A Lei Pelé, aprovada em março de 1998 e que passou por sua última regulamentação em abril de 2013, prevê que, no Brasil, podem ser considerados profissionais apenas os atletas de futebol.

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E foi justamente Hortência quem lançou a ideia de se colocar em discussão a real situação do atleta olímpico brasileiro, em uma troca de emails entre o grupo da comissão, após Emanuel perguntar a todos qual seria a pauta da primeira das duas reuniões anuais que o órgão é obrigado a fazer. Por unanimidade, o acidente envolvendo Laís Souza e a falta de amparo ao atleta foram escolhidos como tema central.

Hortência pede a regulamentação da profissão de atleta olímpico no Brasil
Divulgação/CBB
Hortência pede a regulamentação da profissão de atleta olímpico no Brasil

“Tudo isso [regulamentação da profissão do atleta olímpico] ainda é muito novo para todos nós, pois envolve questões com as quais não estamos acostumados a lidar, além de outros interessados, como patrocinadores, dirigentes, entidades e os próprios atletas”, pondera Emanuel.

A experiência da aprovação da MP 620, que entre outras coisas limitou a quatro anos e uma reeleição o mandato dos presidentes de entidades esportivas que recebem recursos públicos, deixa Hortência motivada. “Temos que estudar muito bem a questão, encontrar um político disposto a comprar esta briga no congresso e lutar para tornar nossa profissão reconhecida. É ridículo acontecer ainda hoje o que ocorreu comigo no passado, quando ficava o dia inteiro numa quadra, treinando e jogando, mas tinha que assinar um contrato de prestação de serviço com meu clube para receber o salário e recolher meu INSS por minha conta”, relembra a ex-cestinha.

Solução paliativa

Se a regulamentação da profissão do atleta olímpico brasileiro ainda é algo que se encontra em um universo distante, uma discussão que a comissão de atletas pretende levar à direção do COB é a de buscar formas alternativas de ampliar os seguros de vida e invalidez que já existem, pagos pelas confederações e o próprio Comitê Olímpico Brasileiro durante as competições internacionais.

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“Acho fundamental questionarmos as confederações e federações sobre a aplicação destes seguros, mas também precisamos entender direito como tudo isso funciona antes de apresentar uma proposta. Como se dá a contratação deste seguro, qual sua vigência, quem seriam os responsáveis pelo pagamento das apólices etc”, explica Emanuel.

Ana Moser acha que o acidente de Laís abrirá os olhos de outros atletas para lutar por uma melhor estrutura no esporte brasileiro
DJALMA VASSÃO / Gazeta Press
Ana Moser acha que o acidente de Laís abrirá os olhos de outros atletas para lutar por uma melhor estrutura no esporte brasileiro

A posição do presidente da comissão de atletas do COB em relação ao seguro para os atletas, porém, é vista com ressalvas por outras lideranças do esporte brasileiro. “A questão do seguro é importante, porém o discurso precisa ser mais amplo. O atleta precisa lutar pela regulamentação de sua profissão, pois o que existe hoje é uma informalidade disfarçada. O atleta é um ser solitário e o sistema só se preocupa em usá-lo, sem dar qualquer tipo de suporte”, afirma a ex-jogadora de vôlei Ana Moser, medalha de bronze nos Jogos de Atlanta 1996 e presidente da ONG “Atletas pelo Brasil”, a grande articuladora da já citada MP 620.

Ana Moser acredita que o acidente de Laís Souza servirá sim para abrir os olhos de muitos atletas para outras questões que vão além das competições. “Infelizmente, o caso dela é o extremo, mas vem na sequência de outros aspectos importantes do esporte do Brasil que não podem ser ignorados, como o movimento Bom Senso no futebol, a crise na CBV, os problemas na confederação de basquete. É muita coisa indo na mesma direção”, diz a ex-atleta. Mas a ex-capitã da seleção feminina de vôlei não tem a ilusão de que as coisas mudarão rapidamente no cenário brasileiro.

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“Vejo muita vontade nos integrantes da comissão de atletas para colocar estes temas em discussão, mas ainda não temos uma cultura de envolvimento político no esporte. Muitos dos integrantes são indicados pelo COB, o que pode causar um questionamento sobre a legitimidade desta comissão. O fato é que os dirigentes não darão nada de mão beijada para mudar o que está aí. Acho que o caminho está aberto para os atletas ocuparem este espaço e promover as mudanças”, afirma Ana Moser.

Procurado pelo iG , o COB sinalizou que está disposto a pelo menos ouvir o que a sua comissão de atletas tem a propor. "O COB está sempre aberto a dialogar com a sua Comissão de Atletas e o Ministério do Esporte em relação a temas de interesse do esporte olímpico brasileiro. É importante notar que os atletas são cobertos por varias apólices conforme o período de treinos ou competições. Essas responsabilidades e consequentes apólices podem ser de clubes, federações, prefeituras, Confederações, COB, CPB etc", afirmou Marcus Vinícius Freire, superintendente executivo do COB, através da assessoria de imprensa da entidade.

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