Aos 37 anos, atleta do snowboard conta que enfrentou até terremoto quando descobriu sua paixão pela neve

Isabel Clark vai participar da terceira Olimpíada no snowboard
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Isabel Clark vai participar da terceira Olimpíada no snowboard

Isabel Clark é a dona da melhor marca do Brasil em Olimpíadas de Inverno, com o 9º lugar no boardercross do snowboard nos Jogos de Turim, em 2006. Chegou lá não sem sacrifício. Ela já encarou um terremoto para se manter perto da neve e deixou em segundo plano o diploma de arquitetura. Além disso, essa carioca de 37 anos aposta em esportes como beach tênis e slackline (andar ou fazer acrobacias em uma fita elástica presa a dois pontos fixos) para se divertir sem se afastar do epsorte.

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Na reta final da preparação para Sochi, sua terceira Olimpíada, a atleta conta ao iG as aventuras do começo no snowboard, lembra o melhor e o pior momentos nos Jogos Olímpicos e, com mais massa muscular, fala o que mudou para 2014.

Isabel carimbou o lugar na Olimpíada de Inverno deste ano com o 6º lugar na Copa do Mundo de Andorra . Foi o melhor resultado da carreira da snowboarder. “É um resultado que me orgulho muito porque a competição reúne as melhores do mundo e tem as pistas mais bem feitas e difíceis”, afirma Isabel. “Nas minhas descidas eu vejo que estou em um nível muito bom, de igual para igual com as melhores e que tudo possível”, completa.

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Se agora se sente confiante, a atleta pensou em parar depois da decepção dos Jogos de Vancouver 2010. “Em Turim (2006) foi meu melhor momento. Era muito nova, tudo novo, e teve o resultado. Em Vancouver eu senti muita pressão pelo que tinha feito antes e tive muita dificuldade em me adaptar à pista”, lembra a atleta, que em uma aterrissagem mal feita machucou o joelho ainda nos treinos. “Eu senti muita dor e não consegui uma boa performance. Ao invés de ir ganhando confiança, eu fui perdendo”, continua Isabel, eliminada ainda na fase de classificação. “Foram duas experiências bem opostas e acho que isso é uma boa lição para levar para Sochi”, comenta.

Isabel Clark diminuiu a carga de treinos depois de Vancouver até se encantar de novo com o esporte e decidir ficar. A preparação para as Olimpíadas 2014 teve diferenças, e ela diz que está fisicamente mais forte, com mais massa muscular para aguentar as provas. Nos últimos anos, fez treinos compartilhados com equipes do Canadá e da Itália, além de dividir treinador com o time da Eslovênia. Para completar, intensificou a parte física e diz que aprendeu a dar importância a isso com a idade.

“Preparação física nunca foi divertido, mas fui valorizando com o tempo. Eu dei mais gás ainda e estou mais forte do que nos outros Jogos. Os meus joelhos estão cada mais nas gastos, e estar forte ajuda a prevenir lesões. É muita queda, tenho que estar preparado. Além disso, estando mais forte, vou sair melhor na largada, empurrar mais com os braços e acelerar mais na pista”, analisa.

Vale tudo pela neve

A paixão de Isabel Clark pela neve e pelo snowboard começou ainda na adolescência, em uma viagem com a família aos Estados Unidos. Na segunda vez por lá, ela passou por um terremoto, mas não voltou para casa.

“Estávamos eu e as minhas irmãs na casa do meu irmão em Los Angeles e eram umas 4h da manhã quando a casa começou a balançar como um liquidificador. Eu fiquei desesperada e queria me atirar pela janela. O meu irmão, com cara de sono, estava super tranquilo, falando que logo iria passar. Passou, mas nos próximos dias veio aquele pós-terremoto e eu pensei em vir embora. Só fiquei e superei o medo para ter mais chance de andar de snowboard”, conta a atleta. Ela e a família frequentavam uma pista a pouco mais de duas horas de Los Angeles. “Sabia que se voltasse ao Brasil, não teria ideia de quando iria para neve de novo”, continua.

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Isabel Clark gosta de jogar beach tênis nas areias do Leblon, no Rio de Janeiro
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Isabel Clark gosta de jogar beach tênis nas areias do Leblon, no Rio de Janeiro

Anos depois, a carioca decidiu deixar a faculdade de arquitetura para seguir a vida no esporte. “De 1998 para 1999 teve greve e iria ter aula nas férias, e eu tinha programado uma viagem. Foi o momento que tive que decidir e tranquei a faculdade. Antes, tinha viajado com amigos da faculdade para analisar a arquitetura da Europa, mas lá eu achei tudo muito entediante. A única parte legal foi quando abandonei o pessoal e passei três dias em uma estação de esqui”, conta aos risos.

Arquitetura, apenas no futuro ou nas horas vagas. “Eu me formei em 2007 e fiquei feliz por ter terminado. Tenho o diploma e posso trabalhar no futuro ou fazer um mestrado”, afirma. “Hoje eu não tenho muita experiência, mas tenho boa noção espacial. Faço desenho em 3D de alguma mudança que quero fazer aqui em casa. Já fiz até desenho da pista de boardercross. Estava no Chile e iam fazer o Campeonato Brasileiro. Fiz o desenho e mostrei para eles até para motivar a fazer uma pista diferente, porque todo ano era igual e muito fácil”, revela.

Além de desenhar, Isabel tem outros esportes nas horas de folga. Ela chegou a competir no hipismo e gosta de montar quando está no Rio de Janeiro (a atleta passa boa parte do ano no Chile, treinando no Vale Nevado). A praia também atrai, mas sempre com alguma referência à paixão snowboard. “Gosto de coisas ao ar livre, que me deixam feliz. Tem o beach tênis, o slack line, surfe... Até me ajudam com equilíbrio e a ter um melhor tempo de reação”, fala.

No momento, Isabel está bem distante das areias e focada na neve. Ela compete em Sochi a partir de 16 de fevereiro. Até lá, ainda participa de uma prova na Itália. Alguma dúvida se fez a escolha correta ao seguir no esporte? “Seguir foi a decisão certa porque eu em sinto em um ótimo momento e muito motivada e feliz por ter melhorado nesses anos”.

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