Mesmo com dinheiro, esporte brasileiro esbarra em falta de planejamento

Apesar de contar com um pesado investimento de verbas do governo, Brasil viu Grã-Bretanha triunfar nos Jogos de Londres gastando menos

Bruno Fávero - iG São Paulo | - Atualizada às

Em 1996, Brasil e Grã-Bretanha conquistaram 15 medalhas cada um nos Jogos Olímpicos de Atlanta e, desde então, os dois países aumentaram consideravelmente o financiamento ao esporte. No último ciclo olímpico, o Brasil investiu cerca de R$ 1,4 bilhão na preparação da delegação que competiu nos Jogos de Londres 2012 e conquistou 17 medalhas. Já os britânicos gastaram menos, cerca de R$ 1 bilhão, para chegar a 65 medalhas. Se o problema do esporte olímpico brasileiro não parece ser dinheiro, por que o país não consegue um desempenho melhor nos Jogos?

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Para a professora Maria Tereza Bohme, da EEFE (Escola de Educação Física e Esportes) da USP, apesar do investimento crescente, o esporte brasileiro ainda tem sérios problemas de gestão. “No aspecto financeiro, foi feito alguma coisa, mas sem ser bem pensado, sem ser planejado. Além disso, falta comunicação entre as esferas pública (Ministério do Esporte e Secretaria) e privada (COB e confederações)", afirmou.

Desde o “desastre” de 1996 em Atlanta, quando ficaram em 36º lugar no quadro de medalhas, os britânicos decidiram mudar a gestão esportiva do país. Aumentaram o financiamento estatal e criaram a UK Sport, uma agência governamental dedicada exclusivamente ao esporte de alto rendimento e responsável por decidir como todo o dinheiro público é investido para melhorar o desempenho dos atletas.

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A corredora Sally Gunnell integrou a delegação da Grã-Bretanha que fracassou nos Jogos de Atlanta 1996

Concentraram esforços nos esportes com mais chances de medalhas, criaram uma rede de apoio aos atletas e profissionalizaram a gestão. A estratégia deu certo e em quatro anos, nos Jogos de Sydney 2000, a Grã-Bretanha estava de volta ao top 10. Em 2012, nos Jogos de Londres, chegou à terceira colocação no quadro de medalhas.

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No mesmo período, o Brasil também viu um aumento no volume de dinheiro investido no alto rendimento, mas pecou no planejamento estratégico. Segundo Maria Tereza, a falta de comunicação entre as diferentes níveis da gestão esportiva como COB (Comitê Olímpico Brasileiro), confederações ou secretarias municipais e federais faz com que, ao invés de trabalharem juntas, as diferentes organizações acabem investindo em ações desencontradas. “Cada um faz o que quer, o conceito de autonomia é plenamente utilizado” ironiza.

Na Grã-Bretanha, a proximidade entre a UK Sport e as confederações foi um dos pontos mais importantes para o sucesso do modelo. “Determinamos que cada confederação fizesse uma avaliação de desempenho três vezes por ano. Nós os instruímos sobre como fazer os relatórios e assim tínhamos uma ideia muito boa sobre como estava cada esporte e do que precisava” conta Liz Nicholl, CEO da UK Sport.

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Luke Campbell comemora o ouro no boxe (categoria 56 kg): sucesso britânico em várias modalidades

No Brasil, a falta de planejamento e de comunicação de que fala a professora da USP se reflete no financiamento confuso do esporte de alto rendimento no país. As principais fontes são as loterias federais, através da Lei Agnello / Piva, a Lei de Incentivo Fiscal e o patrocínio de estatais. No caso da Agnello / Piva, o dinheiro vai para o COB e para o CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), que são responsáveis por distribui-lo entre as confederações esportivas; na Lei do Incentivo, as próprias confederações elaboram projetos e tentam captar dinheiro de impostos de empresas; já as estatais, como o Banco do Brasil e a Caixa, têm relativa independência para decidir onde investir.

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Em resumo, os recursos ficam fragmentados e se torna mais difícil elaborar um plano central de desenvolvimento do esporte, cobrar os resultados esperados ou controlar como o dinheiro é usado. Consequentemente, muitas vezes o dinheiro acaba não chegando a uma das partes mais importantes, o atleta. 

Uma evidência disso é que em pesquisa realizada pela EEFE, 87% dos atletas entrevistados afirmaram ser necessário recorrer à sua renda pessoal para gastos com treinamento e competições e 69,5% disseram não receber reembolso das confederações. Já entre os técnicos, 35,9% apontaram que não recebem salários.

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Vôlei brasileiro foi uma das exceções em eficiência nas Olimpíadas de Londres

No modelo britânico, em contraste, quase 80% do dinheiro recebido pela UK Sport é usado para apoiar diretamente as confederações e dar suporte aos competidores, de modo que tanto atletas quanto técnicos de ponta possam se dedicar exclusivamente ao esporte. Criaram, nas palavras de Nicholl, “uma rede de suporte de primeiro mundo” para ajudar os esportistas.

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O Plano Brasil Medalhas, lançado recentemente pela presidente Dilma Roussef , pode ser um sinal de que o governo federal quer lidar com os problemas de gestão do esporte brasileiro e tomar para si a responsabilidade de planejar seu desenvolvimento. Nos próximos quatro anos, cerca de R$ 1 bilhão serão investidos no esporte de alto rendimento na tentativa de levar o Brasil ao top 10 do ranking de medalhas nos Jogos do Rio 2016. Desse montante, R$ 690 milhões irão direto para os atletas, sem passar pelo COB ou pelas confederações.

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