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20/10 - 14:01

Sem chance no atletismo, guias não querem deixar paraolimpícos

Responsáveis por não deixar os atletas saírem da raia de disputa, guias procuram novas chances no esporte

Gazeta Esportiva

RIO DE JANEIRO - Eles pouco aparecem, foram meros coadjuvantes. Mas as 11 medalhas conquistadas no atletismo das Paraolimpíadas de Pequim por brasileiros com algum tipo de deficiência na visão não seriam possíveis sem os guias.

Responsáveis por não deixar os atletas saírem da raia de disputa, eles geralmente são ex-competidores da chamada versão “convencional” do esporte que vislumbraram uma nova chance na carreira.

É o caso do guia mais famoso entre os paraolimpícos brasileiros, Jorge Luís Silva de Souza, o Chocolate, que acumula seis medalhas nas Paraolimpíadas. Ex-atleta do Botafogo, ele começou na nova profissão no final dos anos 90, quando foi chamado pelo técnico Paulo Ronald Paynchuk para fazer um trabalho voluntário.

“Eu corri os 400 e os 800m, mas abdiquei de tudinho. Chegou uma hora na qual as competições começaram e coincidir e eu tive que tomar uma decisão. Então, coloquei tudo na balança e vi que, me dedicando a uma pessoa, poderia viajar o mundo por causa dela. De lá para cá, só tenho conquistado vitórias”, comemora.

A primeira atleta que Chocolate acompanhou em uma Paraolimpíada foi Ádria dos Santos, ouro nos 100m e prata nos 200m e 400m de Atenas-2004. No ciclo olímpico seguinte, passou a auxiliar Lucas Prado e Terezinha Guilhermina. Para se concentrar somente na mineira, indicou Justino Barbosa dos Santos para guiar Lucas.

Os dois passaram a treinar seis meses antes do Parapan, ouro nos 100m, 200m e 400m em Pequim-2008. “O esporte convencional não me trouxe felicidade. Não tive estrutura para continuar. Com o paraolímpico, por exemplo, tive a chance de conhecer cinco países. Agora, no nível que eu estou com o Lucas, não tem nem como largá-lo e voltar para minha carreira individual”, acredita Santos, recordista brasileiro dos 400m com barreiras para menores.

Justino diz que não teve muitos problemas para se adaptar a Lucas, mas ressaltas as dificuldades de um guia. “É bem difícil, pois eu tenho que correr no ritmo dele, não no meu. Não posso ficar nem muito para frente nem para trás, além de manter o atleta alinhado na raia. Nos 100m, que é uma prova muito rápida, chega um bolo de gente e você tem que saber o que está fazendo para ele não ser eliminado nem derrubar ninguém”, explica.

Chocolate continua: “Tenho que ter energia suficiente para conduzir a Terezinha. Com ela, é mais fácil porque eu sou homem e possuo melhor resistência, mas isso não significa eu não tenha que fazer meu treino à parte para, na pista, ter toda a tranquilidade de guiá-la”, explica.

O único aspecto que deixa Justino triste é o fato de o guia não ganhar medalha. “Falta um pouco de reconhecimento para o guia, que tem toda a reponsabilidade durante a prova”, argumenta, magoado. Mais experiente, Chocolate diz não se importar com isso. “Quando passei a me dedicar aos paraolímpicos, já sabia que seria assim. Mais importante é saber que a Terezinha é a melhor do mundo porque tem o guia Chocolate ao lado”, comenta.

Como forma de compensação, Lucas deu uma de suas três medalhas em Pequim para Justino - a outra foi para o técnico Amauri Veríssimo.“Trabalhamos juntos, com o mesmo objetivo e ganhamos com isso. Se todos fizessem o mesmo, acho que o retorno seria melhor”, justifica o corredor. Terezinha, por sua vez, define a relação atleta-guia. “É como um bom piloto de Fórmula 1 e um bom carro. Um completa o outro”, finaliza.


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