Lenda do vale-tudo alfineta os Gracie, elogia evolução do esporte, mas, decepcionado, não quer agenciar ou treinar profissionais

O nome de Marco Ruas, hoje com 50 anos, impõe respeito qualquer que seja o ringue ou octógono. Lenda do esporte que já se chamou vale-tudo sem o menor exagero, ele comemora a evolução das regras, vê Anderson Silva como o maior de todos os tempos (mesmo em sua época sem luvas ou cronômetro), mas atualmente prefere manter uma distância segura do meio que transformou lutadores em celebridades e a troca de equipe se assemelhou a uma troca de time no futebol contemporâneo.

Apesar de admitir que as regras beneficiaram o esporte e o tornaram vendável, além de rasgar elogios ao responsável pelo crescimento do UFC , Dana White , Ruas prefere manter distância do "jogo" profissional, como contou ao participar da inauguração de um centro de treinamento na refinaria de Manguinhos , zona norte do Rio.

No evento, Marco Ruas foi homenageado por seu ex-aluno, Pedro Rizzo
Vicente Seda
No evento, Marco Ruas foi homenageado por seu ex-aluno, Pedro Rizzo
"No meu tempo não era um esporte. Não tinha regra, não tinha peso, não tinha luva. Olhavam a gente como malucos, brigões de rua, hoje o lutador é uma celebridade. Temos de ficar agradecidos pelo patamar que o vale-tudo chegou. Antigamente queriam ver David contra Golias. A minha luta contra o Paul Varelans me deu fama por muitos anos. Achava bacana, me sentia bem por bater num cara bem maior. Mas não dá para comparar. Naquela época era por amor, não tinha muita grana. Esse estigma foi vencido por causa das regras, das categorias. Antes era bom para o lutador, agora é bom para o esporte", disse Ruas.

Indagado sobre o presidente do UFC, Dana White, ele foi só elogios e, em meio a eles, acabou alfinetando a linhagem mais vencedora de lutadores brasileiros nos primórdios vale-tudo, os Gracie. "Tem de respeitar o Dana, ele evoluiu o esporte. Antigamente era só a panela do Royce e do Rorion. Hoje, se o cara é bom, entra. Deve até ter alguma panela, mas se o cara provar que é bom, entra", disse.

No evento, Marco Ruas foi homenageado por seu ex-aluno, Pedro Rizzo
Vicente Seda
No evento, Marco Ruas foi homenageado por seu ex-aluno, Pedro Rizzo
Ruas não se acanhou em falar sobre a sua vida atual. Disse ter se decepcionado com a formação de uma equipe, a "Ruas Vale Tudo", e se recusa a agenciar atletas ou treinar profissionais. "Agora não é a minha praia. Formei um time e me decepcionei bastante. O negócio cresceu, perdeu um pouco da lealdade. Aconteceu isso com vários caras no meu time. Nem me ligaram, talvez por medo da minha reação, não sei. Agora só dou aulas particulares para executivos e madames, que me dão muito mais valor", afirmou.

O "Rei das ruas" ou "King of the streets", como era chamado obviamente em alusão ao seu nome, foi ironizado pelo "trator" de meio século de idade. "Só pode ser porque eu treinava lutadores de graça ou então porque briguei na rua uma vez ou outra. Nos Estados Unidos não, mas aqui no Rio é praticamente impossível nunca ter brigado na rua", disse, sorrindo, antes de completar respondendo se ainda pratica o esporte: "Eu treino todo dia, preciso treinar, é a minha droga".

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