O comandante do Bope, René Alonso, no ringue de MMA, com o símbolo da unidade ao fundo
“Caveiraaa!!!”, gritou o comandante do Bope, tenente-coronel Wilman René Alonso, do alto do ringue, dando início às atividades. “Caveiraaa!!! Uh-uh-uh-uh-uh!”, responderam os cerca de 400 policiais militares de preto da unidade de operações especiais, punhos cerrados erguidos. Vieram as explosões, sons de tiros e o hino da unidade de elite da PM fluminense entoado a plenos pulmões. Podia parecer uma cena do Tropa de Elite, mas o evento, nesta quinta-feira, era o Shooto Brasil – “Lutando pelo Bope”, primeiro MMA em um quartel no Brasil.
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Grupo de resgate do Bope escolta lutadores saídos do Caveirão (ao fundo) no MMA
“Os Caveiras estão presentes! Bem-vindos a este lar de guerreiros!”, recebeu o relações-públicas da unidade, capitão Ivan Blaz. Ao fundo do ringue, um bandeirão preto com a faca transfixada por um punhal, símbolo do Bope e das unidades de operações especiais, deixava claro quem deve mandar por aqui.
No mis-en-scène armado para o Shooto, mesclando luta e operações especiais, os lutadores saíam de dentro de um esfumaçado Caveirão para o ringue, escoltados por PMs mascarados do Grupo de Resgate e Retomada (GRR) de reféns da unidade.
“Nada é impossível ao soldado do Bope”, está pintado em uma das paredes do quartel, em Laranjeiras, zona sul do Rio. Nem a engenhosa ideia de montar um ringue e fazer evento de MMA com oito lutas no pátio da unidade.
Evidentemente, os dois representantes da unidade, soldado Gonçalves e o cabo Félix, o Mau-Mau, além do policial federal Haroldo Cabelinho – que fez curso no Bope – foram os mais festejados e tinham preferência absoluta da torcida, recebidos aos gritos guturais de “Uh-uh-uh-uh-uh-uh!” Os dois argentinos adversários dos PMs e os americanos contratados pareciam não entender muito bem tudo aquilo.
Caveiras vibram com entrada de Cabelinho, cursado no Bope, que perdeu a luta
“Tem que arrancar a cabeça deles”, diz soldado lutador do Bope
“Tem que meter a porrada nesses gringos, arrancar a cabeça deles!”, disse soldado Fernando Dias, um dos oito PMs do Bope que treinaram para o desafio – apenas dois participaram do evento.
“Energia boa, energia boa!”, gritou o major Rodrigo, da unidade. O pessoal do Bope gosta de confronto. “Esse esporte tem a ver com a nossa atividade”, disse o ex-judoca e comandante da tropa, René, que vê o evento, “uma luta pela paz”, como oportunidade de um reconhecimento aos seus soldados.
Os homens de preto eram os convidados especiais e tinham os melhores assentos, mas entre os cerca de 700 presentes ao evento estavam o lendário e pioneiro tricampeão do UFC Royce Gracie, comentarista de uma emissora norte-americana, o ex-lutador Pedro Rizzo e o ex-pugilista Acelino Popó de Freitas, além de um grupo de fuzileiros navais dos EUA.
“Saúde, disciplina e resistência não faltam aqui (no Bope). Já lutei em ginásio, teatro, cassino, só não lutei em quartel. Aqui só não pode ter briga de torcida”, brincou Popó.
O primeiro Caveira a subir ao ringue foi Gonçalves, que entrou com a bandeira do Bope nas mãos e a beijou, para o delírio dos “camaradas” de farda. Dominou a luta com facilidade sobre um adversário, aparentemente menos experiente. Montou por trás do argentino, que lhe deu as costas, socou-o no chão e o finalizou com um mata-leão – “Vai dormir, vai dormir, vai dormir! –, aos 2 minutos e 11 segundos. O público urrou! “23, 23, 23, 23!”, gritavam seu número no curso de operações especiais.
A animação diminuiu um pouco com a derrota, por nocaute técnico, de Cabelinho para Johil de Oliveira, mas a audiência se empolgou novamente com a outra luta do instrutor de defesa pessoal da unidade, Mau-Mau.
Quando Mau-Mau “montou” o argentino Juan Pablo Córdoba, só se ouvia: “Vai morrer, vai morrer, vai morrer!” Algo parecido com a canção que os soldados entoam durante marchas e corridas pelo bairro: “Homem de preto, qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão!”. Em 1 minuto e 56 segundos de luta, ele deixou o rival no chão, derrotado por uma finalização.
O ringue foi invadido por homens de preto, aos pulos. “Caveiraaa!!!”, gritou Mau-Mau, no meio da entrevista para a repórter de canal de luta. “A agressividade controlada e o controle emocional fazem a diferença”, resumiu o cabo PM. Agressividade controlada!?
No Bope, missão Dada é missão cumprida.
Outras lutas
Nas outras lutas, vitória de Felipe Olivieri sobre César Gondim, nocaute técnico com 1min35 do segundo round; Rodolfo Marques venceu o americano Jesse Brock por decisão dos jurados; Hacran Dias aplicou um mata-leão decisivo no norte-americano Eddie Hoch, Ronys Torres venceu por decisão unânime o americano Akbarh Arreola.
Na luta principal da noite, na categoria 93.3kg, o brasileiro Glover Teixeira - principal nome em atividade em lutas no país, derrotou Marvin Eastman por nocaute aos 4 minutos do primeiro round.
Royce Gracie pede para ver armas e dá dica sobre força mental
Para Royce Gracie, o Shooto foi "um bom começo" para os lutadores iniciantes no profissionalismo. "É bom para ver que os caras do Bope também sabem sair na porrada."
Na saída do batalhão, fez questão de conversar com um grupo de sentinelas/fãs, ver suas armas e posar para fotos. Após mostrar no celular fotos de um grandalhão que derrotara, disse a um grupo de PMs do Bope, em tom solene: "A força está aqui (aponta para a cabeça), não nas mãos."
Perguntado pelo iG se é importante aprender a apanhar em uma luta, Royce respondeu: "Aprender a apanhar nada, tem que aprender a bater, a dar porrada!"