Milionário e adepto da ostentação, americano conviveu com vícios na família, acusações de maus tratos do pai e agressão a ex-namoradas. Mais discreto, filipino passou fome e virou herói nacional graças ao boxe. "Luta do Século" será neste sábado

O boxe foi o caminho que o americano Floyd Mayweather Jr., de 38 anos, e o filipino Manny Pacquiao, de 36, encontraram para transformar as dificuldades da infância em combustível para derrubar adversários e atingir a consagração pelo esporte. Somados, conquistaram 20 títulos mundiais, em diversas categorias. O combate entre eles, na madrugada deste sábado para domingo, em Las Vegas (EUA), vai muito além das cifras nababescas (recorde de US$ 300 milhões em premiações, cerca de R$ 900 milhões). A chamada Luta do Século é o ponto alto das carreiras de dois ícones dos ringues, com trajetórias de vida similares, mas que desfrutam a fama de formas diferentes.

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Floyd Mayweather Jr. e Manny Pacquiao exibem cinturão com 3 mil esmeraldas, confeccionado especialmente para a luta deste sábado
John Locher/AP
Floyd Mayweather Jr. e Manny Pacquiao exibem cinturão com 3 mil esmeraldas, confeccionado especialmente para a luta deste sábado

Boxe ostentação

Com o incrível cartel de 47 vitórias em 47 lutas profissionais - a última derrota ocorreu ainda como amador, na semifinal dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996 -, Floyd é o atleta mais bem pago do mundo (faturou US$ 105 milhões, ou R$ 315 mi, em 2014, segundo a revista "Forbes"). O apelido Money (dinheiro, em inglês) não é à toa. Ostentar sua riqueza é, depois do boxe, o esporte favorito do americano. Nas redes sociais, Mayweather adora publicar fotos entre maços de notas de cem dólares. É um colecionador de carros de luxo, há dezenas deles em duas garagens, nas mansões que mantém em Las Vegas e Miami. Ele não usa cartão de crédito, paga tudo o que compra à vista. Cueca e tênis são itens descartáveis em seu armário, já que nunca repete uma peça. Usa e joga fora, ou deixa nos hotéis e nas ruas. Outro hábito excêntrico é comprar roupas para funcionários ou pessoas aleatórias que ele encontra em alguma loja.

Jatinho e carros de luxo: parte da frota particular de Floyd Mayweather Jr.
Reprodução
Jatinho e carros de luxo: parte da frota particular de Floyd Mayweather Jr.

Por preferir dinheiro em espécie, quando recebe alguma remuneração, seja após luta ou evento, ele dirige com o saco de dinheiro ao seu lado, no banco da frente destinado ao passageiro. Apenas para subir ao ringue neste sábado em Las Vegas, Floyd Mayweather Jr. vai embolsar cerca de US$ 200 milhões. "US$ 50 milhões para cada filho", justificou Money, em entrevista na semana que antecede o combate contra Manny Pacquiao.

Nascido na cidade de Grand Rapids, seu nome de batismo é Floyd Joy Sinclair. Desta forma era chamado quando se mudou para Nova Jersey, ainda criança, com a mãe Deborah, viciada em heroína. Sete pessoas dividiam o mesmo quarto, que muitas vezes não tinha nem luz elétrica. A cena de parentes e desconhecidos usando drogas em seu quintal virou frequente, uma tia contraiu Aids por conta do vício, e o garoto passou a ser criado pela avó. O pai, Floyd Mayweather Senior, e os tios, Jeff e Roger, fizeram carreira no boxe. Ele adotou o sobrenome paterno e passou a se dedicar aos ringues.

Mayweather é treinado até hoje pelo pai, com quem tem relação conflituosa, incluindo acusações de maus tratos. Floyd Senior já cumpriu pena por associação com o tráfico de drogas. O filho também não é santo: a ficha criminal contabiliza prisões, suspensões e horas de trabalhos comunitários. O motivo? Agressões, inclusive contra a ex-mulher.

Mayweather fez sucesso no boxe amador. Ganhou o apelido de Pretty Boy (Menino Lindo, em inglês), por terminar a maioria das lutas sem machucar o rosto, e ostentou cartel de 84 vitórias e seis derrotas, além da medalha de bronze nas Olimpíadas de Atlanta-1996. A longa invencibilidade como profissional o fez pendurar as luvas por falta de concorrentes à altura, em julho de 2007, após bater Ricky Hatton. Quase dois anos depois, retornou aos ringues, mas a aposentadoria ainda ronda o pensamento. Após encarar Pacquiao, o americano tem contrato para realizar mais uma luta, que pode ser a derradeira.

"Meu pai está certo. Em setembro, acho que será minha última luta. Não vou para 50 (vitórias)", disse Mayweather na última quarta-feira, revelando um conselho de Floyd Senior para se aposentar. Triunfos sobre Pacquiao e nessa luta de setembro o levariam a 49 vitórias em 49 combates, igualando o cartel profissional de Rocky Marciano, campeão na década de 1950 e considerado o melhor peso-pesado de todos os tempos.

Até o crime dá trégua quando o herói filipino luta

Manny Pacquiao não aparece nadando em dinheiro nem pilotando carros luxuosos, mas se engana quem pensa que o filipino foge dos holofotes da fama. Em vez de bon vivant, ele prefere ser o bom moço. Tenente-coronel da reserva do exército de seu país, já se arriscou como ator, cantor e jogador/técnico de basquete, mas seu próximo objetivo é a política. O lutador já ocupa uma cadeira no Congresso, e concorrer à presidência será um passo quase automático quando largar o boxe. "Eu quero, mas ainda falta um tempo. É a vontade de Deus", disse na última quarta-feira, em Las Vegas.

Manny Pacquiao faz juramento após ser eleito para o Congresso das Filipinas
Reprodução
Manny Pacquiao faz juramento após ser eleito para o Congresso das Filipinas

Com cartel profissional de 57 vitórias, cinco derrotas e dois empates, títulos mundiais em oito categorias diferentes, um recorde no boxe, e a honraria de Lutador da Década nos anos 2000, Pacquiao é um herói nacional, o Pelé das Filipinas. Sua história de vida chancela ainda mais a idolatria que atingiu. Nascido em Kibawe, Emmanuel Dapidran Pacquiao vivia em condições de miséria com mais cinco irmãos e costumava presenciar cenas horríveis na infância, pois as Filipinas estavam em guerra civil, como a decapitação de pessoas em vias públicas. Ao descobrir que estava sendo traída pelo marido, a mãe do futuro boxeador, Rosalio, se mudou com os filhos para a cidade de General Santos.

Aos 14 anos e sem completar o ensino médio, Manny saiu de casa e se mudou para a capital Manilla porque a mãe não tinha condições financeiras de sustentar todos os filhos. Extremamente religioso, pensou em ser padre, mas a dura realidade da vida o fez mudar de ideia. Ele trabalhou como jardineiro e vendedor ambulante. Nas ruas, onde chegou a dormir muitas vezes, teve seus primeiros contatos com o boxe. Ganhou abrigo no alojamento da seleção nacional da modalidade e passou a treinar. Com 16, estreou no amadorismo e, com 44 quilos, não tinha o peso mínimo exigido para a categoria mais leve, a mosca-ligeiro (49kg). A solução encontrada foi colocar objetos pesados nos bolsos para driblar a balança. Venceu 60 dos 64 combates que realizou e se profissionalizou em 1995.

No período mais fenomenal da carreira, entre 2005 e 2011, Pacquiao emplacou uma sequência de 15 vitórias, com nomes como Oscar de la Hoya, Ricky Hatton, Miguel Cotto e Shane Mosley entre as vítimas. Atualmente, é o campeão dos pesos-médios pela Organização Mundial de Boxe. O status de ídolo lhe dá regalias: existe uma lei nas Filipinas que garante proteção do exército quando um herói nacional está em perigo. Há também uma estatística curiosa: a taxa de ocorrências policiais despenca nas principais cidades do país quando uma luta de Pacquiao dura 12 assaltos. O evento deste sábado já está gerando um temor local: o risco de falta de energia por conta da grande quantidade de aparelhos eletrônicos que podem estar ligados ao mesmo tempo. 

Para encarar Mayweather, o filipino embolsará US$ 100 milhões. Envolvido em projetos humanitários, Pacquiao chegou a sugerir que parte da premiação da luta fosse doada para caridade, mas o adversário, movido por seu hábito de esbanjar dinheiro, se calou sobre o assunto. O evento deste sábado, em Las Vegas, também será um embate de ideiais.

A Luta do Século

Mayweather x Pacquiao está previsto para começar às 22h deste sábado em Las Vegas - 1h de domingo, pelo horário de Brasília. A luta é válida pela unificação dos cinturões dos pesos-meio-médios (até 66,7kg) e terá transmissão no Brasil pelo canal pago Combate.

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