Abalado com escândalo envolvendo Anderson Silva, Ultimate pode se espelhar em modalidades como atletismo e beisebol, que foram duras com figurões para recuperar credibilidade

A falta de regras mais claras para coibir o uso de substâncias proibidas por parte de seus lutadores deixou o UFC numa encruzilhada. Com dois astros das artes marciais mistas sendo flagrados em exames antidoping em um mês, o americano Jon Jones e o brasileiro Anderson Silva, a organização avaliada em mais de US$ 1 bilhão, segundo a revista "Forbes", vê manchada a credibilidade do espetáculo que vende para 150 países e é transmitido para a TV em 28 idiomas.

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Com Dana White à mesa, UFC anuncia mudança de postura com casos de doping de lutadores
Divulgação/UFC
Com Dana White à mesa, UFC anuncia mudança de postura com casos de doping de lutadores

Especialmente pelo doping de Silva, ex-campeão dos pesos-medios e flagrado em dois exames, antes e depois da luta contra o americano Nick Diaz , em 31 de janeiro, o UFC se viu obrigado a mudar a postura contra o desvio de conduta de seus atletas. Na quarta-feira, Dana White e Lorenzo Fertitta, presidente e diretor-executivo da organização, respectivamente, anunciaram novas medidas, a serem consolidadas em julho. Entre elas, aumentar o número de testes surpresas fora de competição e adotar a cartilha da Wada (Agência Mundial Antidoping) para as punições. "Se você for usar drogas para melhorar sua performance esportiva, você será pego", disse White, em tom de ameaça, no encontro com jornalistas em Las Vegas (EUA).

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A luta para combater o doping é constante, e às vezes inglória. Da mesma forma em que há diversas técnicas para descobrir substâncias proibidas examinando o sangue ou a urina de um competidor, a forma de usar as drogas para melhorar a performance evolui ainda mais rápido. Dar o exemplo e punir com rigor viraram regras nas modalidades olímpicas, independentemente do status que os atletas gozam. Aliás, aplicar penas pesadas a astros que trapaceiam no esporte foi fundamental para recuperar o respeito do público. É deste dilema que o UFC pode tirar proveito para não se desvalorizar.

Uma dos eventos mais milionários do mundo, a Major League Baseball (MLB), a liga profissional de beisebol dos Estados Unidos, esteve na mesma situação do UFC no início dos anos 2000. Sem uma política antidrogas em vigor e conivente com os abusos, a modalidade foi duramente afetada por um dos maiores escândalos da história do doping: o caso Balco. Era um laboratório de Burlingame, criado por Victor Conte, que montou entre 1988 e 2003 uma rede de clientes entre atletas de alto rendimento, que recebiam doses de esteroiodes e hormônios de crescimento e passavam até então ilesos pela fiscalização. O caso virou centro até de uma investigação federal. Entre os trapaceiros estavam dois mitos da MLB: Jason Giambi e Barry Bonds.

Relembre em fotos a luta entre Anderson Silva e Nick Diaz no UFC 183:

Em 2007, Jose Canseco, também envolvido com doping, fez denúncias em um livro, e um dos alvos era o jogador mais bem pago da MLB: Alex Rodriguez, que negou logo o uso de substâncias proibidas. Uma reportagem da revista "Sports Illustrated" de 2009 mostrou que Rodriguez já fora flagrado em exame por uso de testosterona e outros anabolizantes em 2003, o ano mais prolífero de sua carreira. A liga soube do resultado, mas decidiu não puni-lo.

Alvo de críticas e em queda de popularidade, a MLB resolveu reagir, implantando uma rígida política antidrogas, que prevê suspensão por 50 jogos, ou cerca de um terço da temporada regular, a quem é flagrado pela primeira vez. Um segundo antidoping positivo aumenta o gancho para 100 partidas - em ambos os casos o atleta não recebe salários no período de inatividade. Se houver nova reincidência, a medida é o banimento do beisebol. Já com o código em vigor, em 2013 a liga puniu 13 atletas, entre eles Alex Rodriguez, que pegou gancho de 211 partidas por recorrente uso de substâncias proibidas - a pena foi reduzida a 162 jogos posteriormente.

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O caso Balco também deixou cicatrizes no atletismo, já que uma das flagradas foi a velocista Marion Jones, vencedora de cinco medalhas nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. Ela conheceu o laboratório por intermédio do técnico C.J. Hunter, com quem se casou em 1998. Em depoimento, a americana negou o uso de drogas, mas em 2003 uma denúncia de seu ex-técnico Trevor Graham, feita anonimamente, entregou a investigadores da Usada, a agência antidoping dos Estados Unidos, seringas com amostras dela e de Tim Montgomery, outro atleta conceituado do país e marido de Jones na época.

Por perjúrio (juramento falso), Marion Jones pegou seis meses de prisão e teve seus resultados anulados, tendo que devolver as medalhas olímpicas que conquistou sob o efeito de doping. Montgomery levou quatro anos de gancho, apelou em vão na Corte Arbitral do Esporte para reverter a pena e depois se aposentou do atletismo.

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Já a Volta da França, competição mais conceituada do ciclismo, se viu em maus lençóis quando seu maior campeão, o americano Lance Armstrong, assumiu que usou doping em praticamente toda a sua carreira profissional. Em vez de exemplo, do atleta que superou um câncer nos testículos para brilhar pedalando, ele se mostrou uma das maiores farsas do esporte mundial. A modalidade é uma das que mais apertam o cerco contra substâncias proibidas, e também uma das que mais sofreram com a trapaça de atletas por falta de uma severa política antidrogas.

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As chamadas drogas recreativas, como maconha e cocaína, substância detectada no exame positivo de Jon Jones, também chamam a atenção do UFC, por ser ilegal e por manchar a imagem de que o atleta é saudável, embora devam receber um tratamento diferenciado por não render ganho de performance. A NFL, a liga profissional de futebol americano, pune por no mínimo quatro partidas de suspensão os jogadores com esse desvio de conduta ou que são detidos por embriaguez, brigas ou desrespeito a autoridades. Quem for condenado por algum crime é demitido e obrigado a devolver ao clube o dinheiro que já recebeu, como aconteceu com o quarterback Michael Vick, na época o mais bem pago da liga, condenado por organizar rinhas clandestinas de cães no estado da Geórgia.

Bem-sucedido como entretenimento após 20 anos de sua criação, o UFC tem agora o desafio de ganhar mais respeito, ou reerguê-lo, também como promotor de uma modalidade esportiva, o MMA. Para isso, vai precisar cortar na própria carne. Punições exemplares a seus principais astros, e aos próximos que tentarem burlar as regras, podem ser fundamentais para transformar o Ultimate, de fato, num exemplo a ser seguido. Resta saber se Anderson Silva, que será julgado pela Comissão Atlética de Nevada em data a ser definida, será o primeiro a sentir na pele os efeitos da prometida linha dura.

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