Sugestão do COI para tirar a modalidade do programa olímpico a partir dos Jogos de 2020 preocupa o Irã, que tem a modalidade como parte da cultura nacional

NYT

O iraniamo Hamid Soryan comemora a medalha de ouro conquistada na modalidade greco-roma da luta olímpica, categoria 55 kg, em Londres
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O iraniamo Hamid Soryan comemora a medalha de ouro conquistada na modalidade greco-roma da luta olímpica, categoria 55 kg, em Londres

O clube de luta greco-romana de Marqoobkar, no Sul de Teerã, permaneceu o mesmo por décadas. Em uma tarde recente, meninos uniformizados corriam em círculos em um tatame amarelo, como fazem todos os dias, liderados pelo garoto mais alto, seguido por duas dezenas de outros, entre eles o caçula de 9 anos de idade.

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O passar do tempo foi marcado apenas por uma série de fotos de seu treinador, Esrafil Dodangeh, 67 penduradas na parede do fundo do ginásio. Fotografias antigas de sua época como lutador e recortes de jornais com muitos dos campeões cujas carreiras ele ajudou alavancar ao longo dos anos.

Ser um atleta de luta greco-romana, disse Dodangeh, é tornar-se um "pahlavan," um homem respeitável, que sabe perdoar, cuidar dos oprimidos e defender a justiça. "Ser um bom lutador é ser uma pessoa boa", disse.

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Lutadores de países com grande tradição no esporte, como a Rússia, Túrquia e até mesmo os Estados Unidos, se reuniram em Teerã para a Copa Mundial de luta greco-romana, há uma semana, e ficaram indignados com a recente decisão do COI (Comitê Olímpico Internacional) em tirar o esporte dos jogos a partir de 2020.

Mas, provavelmente, nenhum país sofreu o choque da decisão tão bruscamente quanto o Irã, onde a luta greco-romana está profundamente enraizada na narrativa cultural nacional, com um histórico de milhares de anos de tradição. Durante as Olimpíadas de Londres de 2012, os lutadores iranianos ganharam a metade das medalhas de sua categoria, incluindo três medalhas de ouro.

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Acima de tudo, a luta é vista como um esporte viril no Irã e ainda está bastante presente na cultura masculina tradicional. As autoridades iranianas prepararam seminários durante a Copa do Mundo, para discutir com autoridades de luta greco-romana de outros países, incluindo os Estados Unidos, planos para manter a luta como um esporte olímpico.

"Esta decisão realmente nos chocou", disse Mansour Asqari, um membro oficial da federação de luta greco-romana do Irã. "Nós temos ganhado medalhas de luta greco-romana desde 1948", contou.

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Em 2002, o COI concluiu que a luta não possuía "popularidade global" e que tinha "cobertura e baixo índice de transmissão por parte da imprensa". Mas os iranianos dizem que uma nova leva de mudanças nas regras e um novo sistema de pontos destruiu a beleza do esporte. Asqari estima que há cerca de 300.000 lutadores ativos no Irã.

Embora o interesse em declínio tenha fechado muitos dos ginásios de luta greco-romana no Irã, seus valores ainda são considerados por muitos. Um dos problemas observado por oficiais iranianos do esporte, é que o país não permite que as mulheres lutem, uma decisão que poderia atualizar o esporte e possivelmente torná-lo comercialmente mais atraente.

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No ginásio de Marqoobkar, no bairro de Nasiabad, Dodangeh prestava atenção em seus meninos. "Não conversem", ele gritou para dois rapazes gordinhos ["pesos pesados", disse Dodangeh]. "Já chega por hoje", concluiu. "Eles estão cansados."

Dodangeh sentou-se atrás de uma mesa de aço em seu escritório e tomou um gole de chá. Na parede pendurou uma pintura do primeiro imã xiita, Ali, ao lado de uma pintura colorida de si mesmo. Um por um, os meninos passaram em sua mesa. "Adeus, chefe", disseram eles respeitosamente.

Todos eles assistiram às disputas da Copa do Mundo no Complexo Esportivo de Azadi do Teerã. A entrada foi gratuita, uma agradável surpresa para os meninos e seu treinador, nenhum dos quais teria dinheiro para pagar pelos ingressos.

* Texto de Thomas Erdbrink

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