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11/08 - 15:43

Diário de piloto: Salvador
Desde que sentei pela primeira vez em um carro de corrida, nunca imaginei que a minha cabeça fosse trabalhar mais do que meu pé direito. Foi um turbilhão de sensações

Adriano Griecco


Fabio Oliveira

Desde que sentei pela primeira vez em um carro de corrida, nunca imaginei que a minha cabeça fosse trabalhar mais do que meu pé direito. Foi um turbilhão de sensações. O ineditismo em tudo, o treino extra na sexta-feira e as mudanças que a organização promoveu no traçado durante o evento foram coisas com as quais eu nunca havia lidado.

O treino extra até que foi legal. Afinal, andar em uma pista, livre, sem a pressão de ter os tempos cronometrados, traz uma sensação de tranquilidade, que nos permite experimentar marchas e traçados diferentes. Para mim, foi muito proveitoso. Ao final da sessão, eu já havia descoberto todas as marchas de todas as curvas e estabelecido alguns pontos de frenagem. E estava rápido. Pelo menos foi o que pilotos como o Navarrinho e o Leonardo Medrado conversaram comigo após o treino.

Fui para o primeiro treino livre da sexta, cronometrado, confiante. Saí, dei algumas voltas a parti para o ataque. Na segunda tentativa, freando para a primeira chicane, o carro puxou bruscamente para a esquerda e dei com as duas rodas no muro. Pronto, foi o suficiente para desalinhar tudo e me deixar mais cauteloso, ao menos naquela parte da pista. Terminei com o 11º tempo.

No segundo treino, completei algumas voltas, mas as bandeiras vermelhas - também presentes no primeiro treino - me impediram. E uma punição - dada porque a direção de prova achou que eu havia derrubado uma barreira de pneus - me fez perder cinco minutos no box e esquentar a cabeça. Saí e, nervosinho como sou, logo na primeira volta acertei a barreira de pneus. Fim de treino.

Para quem não sabe, ao final de cada sessão, nós preenchemos uma folha, descrevendo o comportamento do carro e solicitando qualquer modificação - dentro das permitidas pela organização: calibragem, calços nas molas da suspensão e ângulo do aerofólio traseiro. Na minha, eu pedi que, para o treino do dia seguinte, o meu carro fosse realinhado e que as rodas dianteiras também fossem balanceadas. Além disso, pedi para que colocassem cinco graus na asa traseira.

No sábado, no terceiro treino livre, o carro estava muito difícil de guiar. Ah, já ia me esquecendo. A organização tirou uma das chicanes da pista, tornando-a mais rápida. A que eu bati e estava inseguro? Não, a outra. Além disso, o carro saía muito de traseira, até nas curvas de baixa. Eu tinha que esperar para acelerar o Jr. e perdia tempo em relação aos meus rivais. Terminei na 14ª posição, de 19 pilotos, sem entender absolutamente nada.

Conversei com os mecânicos e descobri que além de balancear as rodas dianteiras, eles inverteram as mesmas, jogando as que estavam atrás, para frente, alegando que havia uma roda meio torta, que levou muito chumbo no balanceamento. Eu não gostei. E pedi que voltassem como estava antes. Prefiro guiar um carro rápido, que vibre, do que um lento.
A esse ponto eu estava bem chateado. E só faltava a classificação.

Saí, fiz uma boa primeira volta e vim rápido para a segunda. Estava baixando todos os meus trechos, até tentar fazer o curvão - ou curva do Dendê - com o pé cravado, como os pilotos diziam que estavam fazendo. Quase perdi a traseira do carro. Ele apontou para dentro da curva, para fora - e vi o fiscal já se preparar para pegar a bandeira amarela - e de novo para dentro. Dei motor e ele terminou a curva, quase raspando no muro. Entrei direto para o box, para largar da 11ª posição. Mal consegui dormir, como de praxe.

Domingo, levantei cedo e fui para a pista. Muito calor. O termômetro no box da equipe marcava 35 graus - na sombra. Comecei a ficar preocupado com a resistência dos carros da Jr. A gente sempre guia de manhã, quando o tempo está mais fresco. Naquela temperatura, os freios certamente poderiam apresentar problemas.

Larguei e mantive minha posição. Andei embutido no décimo lugar, até quase errar a freada para a bendita chicane. Perdi uma posição. Dois abandonos por quebras mecânicas me promoveram para décimo. Aí, o freio do Wagner Pagotto aplicou uma peça nele. Pagotto errou a freada da curva da Vitória. Outro que errou na Vitória foi o André Rosário. Passei os dois e lá estava eu em oitavo.

O povo que vinha atrás de mim batia e causava bandeiras amarelas. Dentro do carro, eu bombava o freio nas voltas atrás do safety-car para jogar pra fora qualquer bolha de ar no sistema. E saía da fila indiana, pra refrigerar motor e freio.

Nas relargadas, sempre cauteloso, tomava cuidado porque sabia que poderia estar com pneus frios e sujos. Não dividia freada com ninguém. Mas numa delas, o Patrick Gonçalves foi tentar passar o Diego Freitas. Os dois se tocaram e ainda levaram o Alexandre Rosário na batida. Pronto, eu estava em quinto. Na última volta, o Fabinho Fogaça errou e bateu no muro na curva do Acarajé, feita em terceira marcha. Consegui passa-lo, mas o pelotão se agrupou e o André Rosário colou na minha traseira. Eu era quarto. Na bendita chicane, quase perdi o ponto de frenagem. Saí com pouca tração e vi o André abrir pra me passar por fora. Sabia que ele tentaria por dentro na freada da Vitória e preferi não arriscar. Ele me passou e cruzei a linha na quinta posição, na classificação geral, e em segundo na categoria Master.

Como eu disse, minha cabeça trabalhou muito mais que meu pé direito. Por conta disso, consegui meu melhor resultado na Jr. Não é o ideal, eu sei. Acho que um piloto de corrida deve sempre pensar na vitória e em andar na frente. Qualquer coisa abaixo disso não serve. Mas pelo cenário que estava se formando no final de semana, até que eu não fui mal.

Adriano Griecco é jornalista, escreve para a revista "Car & Driver" e já fez as vezes de mecânico na extinta Spyker e na Force India na F1. Neste ano, Griecco vai competir na Stock Jr. e vai compartilhar a experiência aqui no Grande Prêmio, sempre após as etapas da categoria.

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