04/11 - 17:57
Coluna Apex: Sonhos que vêm à luz
O autódromo de Abu Dhabi é sem dúvida mais uma obra faraônica. Que me desculpem os chineses, que há pouco impressionavam o mundo com o Ninho do Pássaro e o Cubo D’Água, o complexo árabe é mais surpreendente
Andre Jung
| Marta Oliveira |
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“Obra faraônica”. Depois de ter tido meu primeiro contato com essa expressão nos livros de história, me acostumei a ela com as campanhas políticas. De fato, aqui em São Paulo, ela servia de argumentação, sempre a serviço da oposição, para questionar as obras faraônicas da gestão em curso.
Eu, jovem, metido a ativista, militando no movimento estudantil em luta pelas liberdades democráticas, me apropriava do argumento para criticar os governos de tutela militar que promoviam as ditas obras Brasil afora.
Hoje não tenho mais as mesmas convicções, não consigo ver profundas diferenças entre as forças políticas que disputam o poder e termino por rever o sentido do conceito de obra faraônica.
Quando saio do país, sempre visito museus, tanto os de arte, matéria que mais me apaixona, quanto os de história. Nunca estive no Egito, mas foram em museus que pude ver de perto fragmentos da imensa obra que os faraós e seus liderados deixaram, e diante de tanta beleza, de tanto trabalho para erguer maravilhas, acabei por tirar do meu vocabulário a expressão que sempre usei em tom pejorativo.
O que seria de Barcelona sem a loucura faraônica de Gaudí? Os catalães até hoje debatem os custos altíssimos e intermináveis da construção da Sagrada Família. Eu, que não sou catalão e não vivo em Barça, agradeço. Que eles jamais parem de investir nesse sonho esplêndido.
O autódromo de Abu Dhabi é sem dúvida mais uma obra faraônica. Que me desculpem os chineses, que há pouco impressionavam o mundo com o Ninho do Pássaro e o Cubo D’Água, o complexo árabe é mais surpreendente. Se o negócio é “faraônico”, quem nasceu nas areias do deserto tem mais afinidade com o assunto.
A ousadia de começar uma prova de dia e terminar à noite foi muito bem-vinda, por-do-sol e lua cheia, mil e uma noites. O traçado não é nenhuma maravilha, mas não é caso de polícia. A beleza artificial criada em meio ao nada, do sonho de um punhado de xeques, foi de tal grandeza que, desculpe, não me ponho a criticar.
Da corrida não sobrou muito a dizer. Como seu resultado pouco importava, restou admirar a tocada firme de Kamui Kobayashi, esse jovem japonês que voltou a dar show em sua segunda prova no Olimpo das corridas.
As notícias que importam começam a vir agora, depois que os motores foram desligados: Barrichello e Hülkenberg na Williams, ok; Senna dentro, ok; Bridgestone fora em 2011, surpresa; motores Renault na Red Bull, Cosworth na Williams, Toyota foi, e a Renault?
O paradigma que a F1 escancara nesse final de temporada é esse: a cada ano surge um novo autódromo na Ásia, com arquitetura moderna, asfalto perfeito, iluminação, etc. ...
Localizados em países sem tradição, penam para conseguir levar público para suas arquibancadas. Entretanto sinalizam a vigorosa adesão política e econômica do enorme contingente emergente ao “circo”.
A categoria passa por uma forte crise: problemas morais de toda ordem, equipes enforcadas, deserções, dirigentes banidos, e ao mesmo tempo é recebida de braços abertos em palácios cada vez mais suntuosos.
Assim, a F1 vai se tornando um gigantesco Big Brother, onde os mortais podem assistir à vida dos multimilionários. Novela que resulta numa espécie de Discreto Charme da Burguesia. Canto do Cisne? Sinal dos tempos? Onde isso vai parar?
O encantador de serpentes em forma de Abu Dhabilândia não consegue esconder a crise que se impõe.
2010 vem aí com novas equipes. Não acredito em nenhuma delas. Não se aprende a construir um carro de F1 da noite pro dia. Todas, sem exceção, nunca construíram um carro de qualquer categoria que fosse.
A Campos encomendou seu carro para a Dallara, construtor de grande sucesso, com domínio na F3 e na F-Indy, mas que enquanto esteve na F1 só andou atrás. Não deve mudar muito.
Seria um absurdo deixarem a Sauber de fora para alinhar um Manor ou um Lotus pirata.
Enquanto isso...
...Mateschitz e Vettel desancaram a Renault no meio da temporada...
...afirmavam que as quebras de motor do meio do ano seriam a razão de uma eventual derrota para a Brawn...
...Vettel venceu a última corrida, Webber a penúltima, e a Red Bull não teve de usar nenhum motor além dos oito permitidos...
...a confirmação dos motores Renault em seus carros para 2010 merecia ser acompanhada de um pedido de desculpas.
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