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22/10 - 10:37

Coluna Apex: Interlagos ontem, hoje e sempre
Ultrapassado em instalações, acessos, alegorias e adereços pelos novos circuitos nababescos de Tilke & Cia, Interlagos, nosso coroa, continua a dar espetáculo.

Andre Jung


Marta Oliveira

Quando Luiza Erundina apresentou o projeto de reforma de Interlagos, lembro que senti um gosto amargo. Com as memórias da minha adolescência ainda nítidas, eu não podia aceitar que aquele sagrado traçado que tantas vezes eu desenhei em cadernos escolares seria destruído.

Quem conheceu Interlagos antigo sabe que jamais houve pista tão especial: uma combinação incrível de curvas de alta, média e baixa velocidades fazia da pista um desafio sensacional à capacidade dos carros e pilotos.

Inúmeros pontos de ultrapassagem proporcionavam, não raros, duelos com várias trocas de posições numa mesma volta; um carro bom de reta sofria no miolo e vice-versa (quem viu Emerson com a pequenina Lola T210 bater carros bem mais potentes sabe do que estou falando).

O autódromo, muito antes de Fittipaldi embarcar para os Estados Unidos e nos acostumar aos ovais, já possuía um anel externo velocíssimo, usado em diversas provas de motos e carros.

Era um sacrilégio mexer em um metro que fosse daquele desenho especial: Reta dos Boxes; Curvas 1 e 2, que com uma só tangência, constituíam a curva mais veloz da Fórmula 1 de então; Retão com quase 2 mil metros; Curvas 3 e 4; a descida que levava até a Ferradura; daí para a Subida do Lago; Reta Oposta; e terminando na veloz Curva do Sol, que desembocava no Sargento e antecedia o miolo, de baixa velocidade.

Difícil aceitar que isso tudo não existe mais. Os carros mudaram, ficaram muito mais velozes, as exigências de segurança aumentaram muito. Os custos de manutenção de um traçado de quase 8 km também eram muito altos, e aquele maravilhoso circuito não tinha mais lugar nos anos 90.

Olhei com certo desdém o traçado que foi proposto com o aval e a participação de Ayrton Senna, que, em minha memória afetiva, vinha usurpar o lugar do templo sagrado.

Hoje reconheço que, perto de completar 70 anos, Interlagos seja talvez o melhor circuito da F1 atual. Perdeu seu carisma, é verdade, mas o público continua capaz de ver uma grande trecho da pista de quase todas as arquibancadas e ele é o único circuito atual que proporciona ultrapassagens como nos velhos tempos.

O GP do Brasil foi de longe a prova onde mais se viu disputas por posições na pista. Kobayashi foi um caso à parte, lutando com bravura contra os badalados e experientes pilotos do Olimpo das corridas. Ele ultrapassou, foi ultrapassado e chegou ao extremo de dar um xis no campeão mundial.

Hamilton, Vettel e Button, todos largando de trás, tiveram de escalar o pelotão superando adversários na pista, coisa praticamente impossível na grande maioria dos traçados atuais.

Hoje o automobilismo brasileiro agoniza. Com raras exceções, nossos poucos autódromos definham; Jacarepaguá, outro excelente traçado, foi completamente destruído, e nos resta esse bastião da nossa tradição nas corridas de automóvel. Ultrapassado em instalações, acessos, alegorias e adereços pelos novos circuitos nababescos de Tilke & Cia, nosso coroa continua a dar espetáculo. Que venham mais 70 anos, pois.

Enquanto isso...

...vingativa, a Williams não dá colher de chá para a BMW passar a Sauber adiante...

...há anos disputando posições secundárias, não engolem terem sido deixados pelos alemães quando ainda andavam na frente...

...uma estréia como a de Kamui Kobayashi acende muitas dúvidas sobre a capacidade de Grosjean e companhia...

...Barrichello, assegurado em 2010, ruma impávido para bater a incrível marca de 300 GPs disputados...

...Button venceu e convenceu, um campeão com todo mérito.

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