07/08 - 17:38
Coluna Warm Up: Delicadeza
Entre os GPs da Espanha de 1990 e da Alemanha de 1994, a Ferrari não ganhou uma corrida sequer. Não me lembro, nessa época, de nenhuma indelicadeza semelhante por parte de Frank Williams
Flavio Gomes
A Ferrari escalou Michael Schumacher para correr em Valência, ganhou manchetes no mundo inteiro, garantiu o aumento das vendas de ingressos para o GP da Europa e saiu dizendo que o alemão iria fazer um treino com a F60, o carro deste ano, para poder se adaptar à nova F-1. Tal treino, no entanto, carecia da aprovação unânime das equipes, uma vez que os testes, é sabido, estão proibidos neste ano.
Três times vetaram: Red Bull, Toro Rosso e Williams. Irritados, os homens de Maranello fizeram publicar em seu site um comentário dos mais infelizes da história contemporânea da categoria. “Adivinhem quem se opôs? Uma equipe que não ganha nada faz tempo”, disparou a Ferrari, referindo-se claramente à Williams e esquecendo as outras duas.
O texto, curto e grosso, diz ainda que o tal time que não ganha nada mostrou mais uma vez sua “falta de espírito esportivo” e que vetou também um teste de Jaime Alguersuari porque “decidiu seguir à risca o que está escrito no regulamento”.
Ora, ora. Regulamento não é para ser seguido à risca? E é a Williams que não tem espírito esportivo? Foi ela que mandou seus pilotos trocarem de posição nos GPs da Áustria de 2001 e 2002 por mero capricho de seus dirigentes?
A Williams, de fato, não ganha nada faz tempo — desde que as montadoras tomaram de assalto a F-1 e ela recusou parcerias como a da McLaren com a Mercedes, por exemplo, que transformou a marca alemã em sócia do time inglês.
Mas já ganhou. E muito. No período em que a Ferrari amargou 21 anos de jejum de títulos, de 1979 a 2000, a equipe de Frank Williams faturou nove Mundiais de Construtores (1980/81/86/87/92/93/94/96/97) e sete de Pilotos (1980/82/87/92/93/96/97), com sete pilotos diferentes, diga-se (a saber: Alan Jones, Keke Rosberg, Nelson Piquet, Nigel Mansell, Alain Prost, Damon Hill e Jacques Villeneuve, pela ordem).
Entre os GPs da Espanha de 1990 e da Alemanha de 1994, a Ferrari não ganhou uma corrida sequer. Uma seca de 58 provas que transformou o time italiano em motivo de piada pelo paddock por quatro longos anos. Nesse mesmo período, a Williams faturou 29 troféus de primeiro lugar para colocar nas suas estantes.
Não me lembro, nessa época, de nenhuma indelicadeza semelhante por parte de Frank Williams em relação à Ferrari. Nem mesmo quando Maranello roubou o passe de Jean Alesi na mão grande, em 1991. O francês, grande revelação da temporada anterior, estava assinado com a Williams. Seria a melhor coisa que faria na vida. Se pudesse adivinhar o futuro, saberia que nos anos seguintes conquistaria mais de um título mundial. Mas a Ferrari atravessou a negociação e ficou com ele, apelando para suas origens italianas.
Frank, em vez de processar os rivais, fez um pedido insólito como compensação. Pediu à Ferrari que doasse a ele, para que pudesse colocar no museu particular da equipe, um carro de F-1. Ganhou um modelo vermelho de 1989. Um tapa de luva de pelica e uma reverência ao time adversário.
A Ferrari, vivo dizendo isso, acha que manda na F-1. Poderia ser honesta, neste caso, e dizer que o teste interessava muito mais a ela do que a Schumacher, em vez de atacar a Williams. Para entender por que fez um carro tão ruim neste ano. Seus pilotos ainda não conseguiram dar boas respostas. Schumacher talvez pudesse.
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