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26/06 - 19:11

Coluna Warm Up: As cartas
A gente achou que tudo tinha terminado quarta-feira. Que nada. Max Mosley sentou-se ao computador ontem e hoje. Redigiu três cartas. A primeira, irada, a Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari e da FOTA, a associação das equipes. As outras duas, aos seus pares na FIA: os 26 membros do Conselho Mundial e os automóveis clubes que formam o eleitorado da entidade

Flavio Gomes


A gente achou que tudo tinha terminado quarta-feira. Que nada. Max Mosley sentou-se ao computador ontem e hoje. Redigiu três cartas. A primeira, irada, a Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari e da FOTA, a associação das equipes. As outras duas, aos seus pares na FIA: os 26 membros do Conselho Mundial e os automóveis clubes que formam o eleitorado da entidade.

Mosley declara-se vitorioso na contenda que terminou no acordo de quarta-feira, cujo resultado foi a decisão das equipes de não realizarem um campeonato paralelo, aceitando a FIA como órgão regulador da categoria e comprometendo-se a cumprir os contratos comerciais em vigor e a permanecer na F-1 até 2012, pelo menos.

Diz Max que seus dois principais objetivos, a redução dos custos e a entrada de novos times, foram alcançados. E que o anúncio de que não vai concorrer à reeleição para a presidência da FIA, em outubro, era algo que ele já tinha decidido no ano passado.

Acontece que a FOTA, através de seus membros, saiu cantando de galo da reunião do Conselho Mundial, alardeando que a saída de Mosley era uma vitória dos times e fazendo chegar à imprensa a informação de que Michel Boeri, presidente do Automóvel Clube de Mônaco e presidente do Senado da FIA, cuidará dos assuntos relativos à F-1 até outubro, quando Max se retirar.

Em outras palavras: Mosley deixaria de mandar. Até outubro, quando um novo presidente será eleito, seria figura decorativa na entidade.

Isso fez com que o presidente da FIA subisse nas tamancas. A Montezemolo, na quinta, escreveu que tal assertiva "é uma mentira completa". Queixou-se também de ser chamado de "ditador" pela FOTA, "algo que insulta os 26 membros do Conselho Mundial da FIA, que têm discutido e votado todas as regras e procedimentos da F-1 desde os anos 80, para não mencionar os representantes dos 122 países filiados à FIA que democraticamente apoiaram todas as decisões que eu e meus colegas do Conselho Mundial tomamos nos últimos 18 anos".

Mosley segue exigindo que Montezemolo e a FOTA se retratem "se vocês desejam que nosso acordo tenha alguma chance de sobreviver". "Eu tinha um plano antigo de não concorrer à reeleição em outubro. (...) Diante da tentativa deliberada da FOTA de confundir a imprensa, eu agora considero minhas opções abertas. São os clubes membros da FIA, e não você ou a FOTA, que vão decidir o futuro da liderança da FIA", conclui. Ou seja: pode voltar atrás, e se candidatar.

A FOTA não se pronunciou. A esta altura, analisa os termos da carta e também das outras duas missivas enviadas ao Conselho Mundial e aos clubes. Na primeira, Mosley garante que os clubes "jamais permitirão que a indústria automobilística decida quem será ou quem não será o presidente da FIA". Ele alega que a entidade, além de cuidar do esporte, também defende os interesses dos motoristas do mundo inteiro em áreas como a segurança nas estradas e o meio-ambiente. "A FIA tem de ser livre e independente para confrontar a indústria automobilística quando isso se mostrar necessário."

Continua Mosley, batendo forte. "Quando a FOTA alardeia que estou fora e que impôs suas vontades à FIA, a situação se torna intolerável. (...) É possível que a FOTA faça um campeonato independente. É direito deles. Mas a F-1 continuará sendo governada pela FIA, como tem sido nos últimos 60 anos. Não há nenhuma razão para que passemos o controle para algum órgão externo, menos ainda para quem não tem a menor compreensão da ética no esporte e esteja sob o controle de uma indústria que temos de monitorar constantemente." Ele não dá nome aos bois, mas eu dou. Refere-se à Ferrari.

Aos clubes, Mosley garante na terceira carta que continuará exercendo suas funções na presidência e que está "muito preocupado" com os comentários que partem da FOTA sobre o próximo mandatário da FIA. "Essa questão diz respeito exclusivamente a vocês, dos clubes, e não às fábricas de automóveis que formam a FOTA. (...) A tentativa de dizer a vocês quem deve ou não ser eleito demonstra por que a FIA precisa de um presidente forte, que tenha experiência no automobilismo, em particular na F-1, assim como nas questões ligadas aos automóveis em geral. (...) Devemos seguir defendendo a independência da FIA, mesmo se isso nos trouxer dificuldades no esporte."

É artilharia pesada. Que, em resumo, mostra que o racha ainda é possível. Mosley quer enquadrar os times, que se sentem vitoriosos e capazes, agora, de colocar quem quiserem na presidência da entidade que vai governar sua categoria. Um fantoche.

É briga que ainda não tem data para terminar.

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