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18/09 - 19:03

Escândalos e escândalos
Barrichello e Schumacher foram ladrões de galinha em Zeltweg. Senna e Prost, soldados numa guerra pessoal que valia o título. Briatore, Nelsinho e Symonds foram apenas idiotas egoístas

Flavio Gomes


Qual é o tamanho exato do escândalo da Renault em Cingapura? É justo que se crucifique Nelsinho Piquet, um garoto de 24 anos, “pressionado”, “encostado na parede”, “jogado aos leões”? É correto que de um dia para o outro se acabe com a reputação de Pat Symonds, mais de três décadas de automobilismo, com passagens por grandes equipes, parceiro de pilotos que fizeram história? É certo entregar à FIA numa bandeja de prata a cabeça cortada de Flavio Briatore, dirigente que chegou à F-1 sem experiência alguma e, de certa forma, descobriu Schumacher e Alonso, levou os dois a quatro títulos mundiais?

O que diferencia estes vilões e seus crimes de escândalos históricos na categoria, como as trocas de posições entre Schumacher e Barrichello na Ferrari, as batidas propositais entre Senna e Prost, os carros abaixo do peso da Brabham de Piquet, as incontáveis roubalheiras que sempre fizeram parte das corridas?

Muita coisa.

Tenho lido, nestes dias, defesas furiosas de Nelsinho e seu pai, com os interlocutores argumentando, quase sempre, que o que foi feito em Cingapura não é pior, por exemplo, do que a ordem da Ferrari a Barrichello no GP da Áustria de 2002 — gentileza que Schumacher devolveu nos EUA, meses depois. Ou do que o acidente na largada do GP do Japão de 1990, em que Senna deixou o carro bater de propósito no de Prost — e admitiu. Senna e Rubens, assim, seriam iguais a Nelsinho.

Que me desculpem os que pensam dessa maneira, mas não tem cabimento comparar o episódio noturno e soturno envolvendo Piquet-pimpolho, Briatore e Symonds com esses supracitados pelos nobres colegas.

O que aconteceu em Cingapura foi um crime premeditado. E há hierarquia nos crimes. Roubar uma galinha para matar a fome do filho não resulta para o gatuno famélico na mesma pena que se dá a um assassino, ou a um seqüestrador. Barrichello e Schumacher não prejudicaram ninguém naquele GP da Áustria, exceto eles mesmos, que ficaram com cara de tacho no pódio. Bobalhões, ridículos, sacripantas, mas se estreparam sozinhos e foram julgados e condenados pela opinião pública a entrarem para a história como atores de uma ópera bufa patética.

Senna e Prost se esfregaram em 1990 (e em 1989, na mesma pista de Suzuka) disputando um título e numa circunstância de corrida. Prost poderia não fechar a porta. Teria evitado a batida. Senna foi cafajeste, mas na sua cabeça estava dando o troco daquilo que havia acontecido um ano antes. Os dois deixaram as duas corridas (Ayrton, em 1989, acabou deslcassificado). De novo, prejudicaram um ao outro, e só.

Outro caso lembrado para os que defendem o perdão a Nelsinho é a batida de Schumacher em Damon Hill no GP da Austrália de 1994, e outra dele, em Villeneuve, no GP da Europa de 1997. Por este último, o alemão perdeu todos os pontos no campeonato e o título, já que na tentativa de tirar o canadense da corrida, acabou ele rodando. Em 1994, Hill foi ingênuo. Schumacher, canalha. Mas, de novo, era uma corrida rolando, dois pilotos disputando posição e taça. Um duelo particular, sem roteiro pré-determinado.

O caso de Cingapura é completamente diferente. Nelsinho queria salvar o emprego. Briatore e Symonds, idem. Os três traçaram planos. Previram a sacanagem. Não se importaram com os adversários, com a lisura daqueles que estavam disputando a mesma corrida. Não se preocuparam com conseqüências que poderiam ter sido graves, como Nelsinho se machucar, um carro vir atrás e pegar detritos, furar o pneu, bater, morrer alguém.

Não. Pensaram só neles e em suas vidinhas medíocres. Enquanto planejavam e levavam a cabo o ardil, outros 18 pilotos (excluo Alonso, sobre ele falo depois) e milhares, sim, milhares de funcionários de todos os times, os da Renault inclusive — porque, até onde se sabe, só os três participaram da tramóia —, se esforçavam para justificar seus salários e a atenção de milhões de fãs no mundo todo.

É isso que faz com que os três patetas da Renault sejam diferentes de Schumacher, Prost, Senna, Barrichello e seus escândalos menores: o tamanho do crime, o tamanho da causa. Barrichello e Schumacher foram ladrões de galinha em Zeltweg. Senna e Prost, soldados numa guerra pessoal que tinha como prêmio para o vencedor o título mundial.

Briatore, Nelsinho e Symonds foram apenas idiotas egoístas, sem o menor senso de esportividade e respeito por seus colegas.

Quanto a Alonso, que devolva o troféu que ganhou. E fale o mais rápido possível sobre o assunto. Defenda-se. Porque seu silêncio, a esta altura, dá o direito a qualquer um de achar que ele sabia de tudo.

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