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28/08 - 17:49

A Rubens, o que é de Rubens
Barrichello fez, sim, uma grande corrida e conquistou uma vitória em estilo muito semelhante àquele que Schumacher eternizou. Foi muito bonito de ver, mesmo que sua disputa fosse contra o cronômetro

Flavio Gomes


Quando Michael Schumacher se cansava de ganhar corridas no auge da Ferrari sem ter de fazer ultrapassagens, apenas acelerando feito um alucinado nas voltas anteriores aos seus pit stops quando precisava ganhar posições, era muito comum, aqui no Brasil, ouvir dos mais exaltados “pachecos”, aqueles para quem só atletas brasileiros são bons — os outros roubam, se dopam, trapaceiam —, que o alemão era um banana, não tinha adversários e só vencia “sem passar ninguém”.

Eu sempre vi uma certa beleza naquelas vitórias, no ritmo de classificação que ele impunha em corrida, beirando o limite extremo do carro, disputando a prova toda a um milímetro do erro fatal, sua precisão cirúrgica para cumprir uma estratégia. Mas era o Schumacher, aquele não passava ninguém, então a F1 era chata.

Domingo passado, Barrichello ganhou o GP da Europa em Valência sem passar ninguém. A “pachecada”, termo que nem sei se deveria vir acompanhado de aspas e é meio antigo (refere-se a um personagem de comercial de TV de uma Copa dos anos 80, não lembro qual, exatamente, mas o comercial era da Gillette), elevou Rubens a deus das pistas, herói nacional, essas coisas bobas que impedem as pessoas de enxergarem o esporte como ele é — qualquer esporte, não só a F1.

Pois, patriotadas à parte, Barrichello fez, sim, uma grande corrida e conquistou uma vitória em estilo muito semelhante àquele que Schumacher eternizou em seus melhores anos. Um estilo que passou a ser necessário na medida em que os carros foram se tornando cada vez mais dependentes da aerodinâmica, reduzindo drasticamente a quantidade de ultrapassagens em corridas.

As sequências de voltas impecáveis que Rubens executou foram dignas das melhores atuações dos melhores pilotos. Uma beleza. Assim que recebeu a orientação do engenheiro pelo rádio, acelerou sem dó. Foi muito bonito de ver, mesmo que sua disputa fosse contra o cronômetro, um adversário quase virtual, e não enfrentando algum outro carro na pista.

O brasileiro não vencia havia cinco anos, desde o GP da China de 2004 — que teve Schumacher largando em último no grid, é bom lembrar. E, para ser franco, ele não fazia uma prova exuberante desde então, exceção feita, talvez, ao pódio em Silverstone no ano passado, no molhado, com a Honda — em corrida atípica, disputada no chove-não-molha que costuma derrubar favoritos.

É por isso que qualquer euforia verde-amarela sobre suas chances de título devem ser ponderadas, apesar dos 18 pontos não impossíveis de tirar para Button até o fim do ano. Em seus mais de 270 GPs, Rubens nunca encaixou uma série de três ou quatro apresentações maravilhosas, algo que precisaria agora para ser campeão.

É seu grande desafio, nas provas que faltam para o fim deste Mundial muito doido, cheio de altos e baixos das equipes que brigam na frente: ser o que nunca foi em quase 17 anos de F1.

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