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14/08 - 17:56

A brochada
O alemão está pagando pelas estripulias sobre duas rodas que o encantaram no ano passado, até levar um tombo cinematográfico em fevereiro deste ano e se machucar seriamente. O cara parou de correr de carro e foi se apaixonar justo por motociclismo, dez vezes mais perigoso. Deu no que deu

Flavio Gomes


OK, admito o mau-gosto no uso da palavra aí no título, mas tem outro nome para definir a desistência de Schumacher de voltar a correr? O anúncio de que o alemão iria disputar pela Ferrari o GP da Europa e, talvez, outras corridas enquanto Massa não se recupera tinha aumentado as vendas de ingressos em Valência e Spa, levou muita gente a prever um estouro na audiência da TV, deu uma chacoalhada nas férias da F-1.

Mas se dói o pescoço, dói o pescoço. O alemão está pagando pelas estripulias sobre duas rodas que o encantaram no ano passado, até levar um tombo cinematográfico em fevereiro deste ano e se machucar seriamente. O cara parou de correr de carro e foi se apaixonar justo por motociclismo, dez vezes mais perigoso. Deu no que deu.

É bobagem achar que sua possível participação foi uma jogada de marketing da Ferrari. Marketing seria se ele corresse. Mas inventar tudo para alguns dias depois dizer que não vai mais correr seria a pior jogada de marketing de todos os tempos. Não faz o menor sentido. O que ganhou a Ferrari com o anúncio? Vendeu mais carros? Claro que não. Apareceu na mídia. Como reapareceu dias depois, de forma totalmente negativa, suscitando inclusive as especulações de que era tudo mentira.

Michael não amarelou, não desistiu porque proibiram o teste com o carro novo, nada disso. Simplesmente percebeu que do jeito que o pescoço está doendo, talvez não agüentasse uma corrida inteira. E, aí sim, a possível volta seria um fiasco. Chegar atrás, não vencer, não pontuar, isso tudo poderia acontecer. Afinal, o cara não corre há quase três anos e o carro da Ferrari não é propriamente a oitava maravilha do mundo. Mas correr o risco de abandonar uma prova por falta de condições físicas é algo que pegaria mal para sua imagem. E, principalmente, faria mal à sua autoestima.

Luca Badoer, o escolhido para a vaga, não é muito mais novo que Schumacher. Mas como não anda de moto, seu pescoço parece estar em dia — embora ele também esteja afastado das pistas há um bom tempo, visto que os treinos privados estão proibidos na F-1. Aos 38 anos, recebeu um presente da Ferrari por mais de uma década de serviços prestados como piloto de testes. Ele é o sujeito que talvez mais tenha andado num F-1 em todos os tempos, tantas foram as horas que passou rodando com os carros vermelhos em Fiorano e outros circuitos desde 1999.

O Forix, site de estatísticas baseado em Portugal, contabiliza nada menos do que 469 sessões de treinos para o italiano desde que foi contratado pelo time de Maranello. Foram 31.374 voltas em várias pistas e exatos 131.943 km percorridos sem disputar uma posição sequer. Um saco, para qualquer piloto.

Largar em um GP usando o macacão que vestiu tantas vezes em jornadas solitárias será um prêmio merecido para este piloto que ostenta um recorde incômodo na carreira. É o que mais participou de corridas (48) sem ter conseguido um pontinho sequer. Terá a chance, agora, de sentir o sabor de terminar uma corrida entre os que levam pontos para casa. Algo que quase conseguiu no GP da Europa de 1999 pela Minardi, em seu último ano como titular de uma equipe. Estava em quarto quando seu carro quebrou no finalzinho. Ficou chorando ao lado do carro, numa das imagens mais marcantes daqueles já distantes tempos.

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