iG - Internet Group

iBest

brTurbo

30/09 - 19:43

Lágrimas
 

Flavio Gomes

E o homem despencou num choro convulsivo. Eu dizia a ele, em inglês, mas ele só falava francês, para esquecer, desencanar, deixar pra lá. Não foi nada, está tudo bem. Mas ele continuava chorando, soluçava, sentado numa cadeira, a mão direita escondendo seus olhos, vergonha de chorar, um homem daquele tamanho, cabelos e bigodes brancos.

Não me comovo por pouco. Mas fiquei desorientado, mais ainda. Foi o seguinte: domingo, chego ao autódromo, a enorme mala de equipamentos sumiu. Sempre deixo debaixo da mesa, ninguém vai querer um traste daquele. Mas sumiu, e avisei a quem de direito, uma moça magra que também tinha lá seus problemas, o pai tinha acabado de ser hospitalizado, nem sei por que ela me contou isso.

Não esquenta, falei, eu mesmo não esquento com muita coisa ultimamente, sumiu, sumiu. Escreve num papel aí para eu explicar na firma. E a magrela telefona para um, fala no rádio com outro, e eu nem tinha notado o homem de cabelos e bigodes brancos, olhar perdido, as mãos cruzadas entre os joelhos, corpulento, maior que a cadeira.

Aí volto ao meu lugar, me dá um estalo, resolvo olhar debaixo de outras mesas e lá está a mala, fora do lugar dela, a algumas fileiras de distância do ponto de origem, aos pés de um inglês idiota que, segundo consta, nunca vai ao Brasil porque nos acha selvagens.

Intimo-o a explicar o que minha mala fazia aos seus pés e ele não sabia. Volto à sala da magrela com a boa notícia. Achei, digo, estava debaixo da mesa de um inglês idiota. E o homem que eu nem tinha notado despencou num choro convulsivo e só então entendi que ele era o responsável pela segurança.

Puta que pariu, eu dizia a ele em português mesmo, agachado diante de sua cadeira com o braço sobre seus ombros, pára de chorar, isso não tem importância nenhuma, é só uma mala com um monte de cabos e equipamentos e microfones, se sumisse eu comprava tudo de novo, e o homem soluçava que pensei que teria uma síncope. Fui buscar um café e um copo d'água e acho que jamais vou me esquecer daquele homem chorando, sem dizer uma palavra, frágil e indefeso.

Alguém passou a mão mesmo na mala, abriu, pegou o que estava mais fácil, fechou e largou debaixo da mesa do cretino do inglês. Isso eu nem contei ao homem, mas relatei à magrela sob a condição de que ela jamais dissesse a ele, é lágrima demais para uma semana só, e ela não entendeu, mas ficou aliviada. Ele não pode acreditar que alguém da equipe dele possa ter feito isso, me disse, e eu falei para ela esquecer o assunto, chega de choro, que se foda a mala.

Aquele pobre homem viveu por algumas horas um drama maior que o naufrágio do Titanic, a mala que sumiu sob seus domínios, e não consegui mostrar a ele que eu não me importava minimamente com aquilo, há dramas maiores na vida de cada um, sei bem o que digo. Como é difícil se fazer entender.

Aquela semana, faz um mês dela agora, vai-se evaporando aos poucos como tudo e parece cada vez mais remota. As noites em claro, a solidão, o telefone tocando, os sons da madrugada, eu fechado em copas, não me dêem conselhos, sei errar por mim. O avião, o carro, a casa, a adorável Bélgica, o frio do amanhecer em Robertville, ali do lado de Spa, lembranças que vão se perdendo no tempo porque já faz muitos anos que frequento esse pedaço perdido da Europa, dele gosto e sentia falta.

Tenho uma fotografia dos primórdios, 1990, 1991, não sei bem. Apareço na frente de todos, com uma horrenda pochete na cintura. Sim, também já fui usuário de pochete, mas me curei. (Achei o retrato, menos mal: estou sem a pochete. Mas eu usava, sim, e era vermelha.) Ficávamos em chalés em Malmedy, se não me engano alguém pagava para todo mundo. Éramos mais de 20, todos os jornais importantes, várias emissoras de rádio, o pessoal da TV, os portugueses, e jantávamos no restaurante do hotel, bebíamos até cair daquelas cervejas belgas fabricadas por monges, sempre alguém desfiava erudição sobre sua produção artesanal e ficávamos todos embasbacados. "Morte Súbita" era o nome de uma delas, a única de que me lembro.

Olho para essa foto e fico me perguntando se naquele tempo eu me comoveria com as lágrimas daquele homem, acho que não. Creio que melhorei, pois.

> Você tem mais informações? Envie para Minha Notícia, o site de jornalismo colaborativo do iG

Comente



Leia mais sobre

Multimídia

null406815.jpg


Malmedy, 1991: Mair, Celso, Castilho, Fernando, Flavio e Wagner

Topo

Enviar notícia por e-mail

Corrigir notícia

Se encontrou algum erro nessa notícia, por favor preencha os campos abaixo:

Contador de notícias