09/08 - 20:44
Três horas e meia em Roma
Flavio Gomes
Roma não se fez em três horas e meia, embora o mundo tenha sido feito em sete dias e proporcionalmente três horas e meia deveriam ser suficientes para fazer uma cidade como Roma. Mas era o que eu tinha, três horas e meia, entre um avião que chegava da Alemanha e outro que partia para o Brasil.
Assim, que se veja Roma em três horas e meia, foi o que pensei, e pelos corredores de Fiumicino saí em busca do trem que me levaria ao centro da cidade eterna, torcendo para, no caminho, encontrar onde deixar minha mochila, um daqueles depósitos de bagagem nos quais à uma moeda abre-se uma porta e lá se fecham suas coisas, só que por motivos de segurança tais depósitos estão em extinção e é preciso pegar uma longa fila de cidadãos que pretendem ver Roma entre um avião e outro para deixar suas bagagens com outros cidadãos que vivem em Roma, deixando nome, endereço, telefone e cartão de crédito, a vida dos terroristas está terrivelmente dificultada nos dias de hoje. Rapidamente calculei que se enfrentasse a fila minhas três horas e meia seriam reduzidas demais, e quando não há tempo, arque-se com o peso.
A mochila ficou nas costas e com ela fui ver Roma, a alça esquerda maculando meu ombro avariado e poucos dias antes radiografado e ultra-sonografado, sem que eu soubesse o resultado, que só ficou pronto na volta, e ei-lo: textura e morfologia óssea normais, espaços articulares conservados, partes moles sem alterações e sem evidências de calcificações periarticulares, com o quê folguei, mas ainda havia o ultra-som, e este: pele e tecido subcutâneo com aspecto ecográfico habitual, planos musculares íntegros, tendões do infra e supra-espinhal e do subescapular com espessura e ecogenicidade preservadas, bolsa subdeltoídea sub-acromial com aspecto ecográfico preservado, tendão da cabeça longa do bíceps tópica com espessura e ecogenicidade normais, ausência de derrame articular. Impressionante.
Então por que meu ombro dói pra cacete?, me pergunto, e a resposta está na última linha do resultado do exame, nota-se distensão da cápsula articular acrômio-clavicular, sugerindo sinovite.
A alça esquerda da mochila, é claro, deve ter agravado a sugerida sinovite, ainda mais tendo a cápsula acrômio-clavicular distendida, por isso as três horas e meia de peregrinação por Roma resultaram em outras tantas no doutor chinês que me espetou com suas agulhas para curar a sinovite. Nunca tinha feito acupuntura. Não dói. Se fossem chineses, e não romanos, a açoitar Jesus Cristo, Mel Gibson não faria seu filme. Espetam-te, nada se sente, depois colam uma semente de mostarda na orelha com esparadrapo e te mandam para casa. Minha sinovite está melhorando, com as agulhadas, mas espero que o plano de saúde cubra.
Conheci Roma em 1989, em viagem que nos meus alfarrábios tornou-se já um clássico, uma odisséia de dois jovens pelo Velho Mundo, eu e ela, nossos Eurailpasses e as experiências sendo acumuladas em trens e pensões de quinta categoria carregando muito peso nas costas e um salame, lembro muito bem do salame deveras criticado e muito útil em algumas circunstâncias. No nosso primeiro dia de Roma, chegando à noite à estação Termini, creio que é a maior, fui a um telefone público mandar notícias para casa e fiquei louco por achar que todos estavam quebrados, porque na Itália o som de linha não é contínuo, assemelha-se mais ao nosso tom de ocupado, e salvou-me um solícito brasileiro, advogado, cujo nome me esqueci, mas outro dia vi no jornal, e esqueci de novo, de Santo André, acho, numa reportagem qualquer sobre um jogador que queria sair do time em que jogava, e o advogado era ele.
Cara engraçado, esse. Viajava com a esposa, temos fotos juntos, e não falava uma palavra que não fosse em português, mas se virava soberbamente em qualquer canto do planeta. Vamos ver o Colosseu, intimou, na manhã seguinte, não sei por que ele não conseguia dizer Coliseu, como todo mundo, e alguns dias depois nos esbarramos de novo numa estação em Zurique, eu e ela em cima da hora para pegar o trem para Frankfurt, perdidos no meio daquelas plataformas todas, e olha o cara lá, oi, estamos atrasados, precisamos pegar o trem para Frankfurt, e ele não teve dúvida, perguntou a um agente suíço, em português mesmo, de onde sai o trem para Frankfurt, e o cara respondeu e não perdemos o trem.
Voltei a Roma outra vez, há uns três anos, e agora, para minhas três horas e meia em companhia da sinovite e da mochila, e Roma continua bagunçada, suja e barulhenta. Desembarquei na Piazza del Popolo com a firme intenção de rever a Fontana di Trevi, tinha algumas indicações rabiscadas de como chegar sem perder muito tempo, ainda que caminhando um pouco por aquelas ruas cheias de lambretas e Fiats buzinando e soltando fumaça.
Com alguma boa vontade e imaginação, quando se vai a Roma, mesmo que só por três horas e meia, é possível viajar no tempo, à época em que aquilo era a capital do maior império de que se tem notícia, uma cidade que atraía gente de toda a Europa, África e Oriente Médio. Gente de toda espécie que ainda se vê em Roma, mendigos, aleijados, quasímodos, imigrantes, viajantes longínquos, peregrinos, ladrões, religiosos, esteticamente um pouco diferentes, é verdade, alguns menos sombrios, outros mais ameaçadores, mas todos querendo o mesmo: uma moeda, uma caridade, uma penitência, uma indulgência.
Havia um, na grande praça, parecia marroquino, ou tunisiano, é difícil determinar certas etnias, que colocou uma lata no chão, subiu num pequeno banquinho de alumínio, vestiu uma fantasia fajuta de faraó, parecia uma camisa de força dourada, dessas que se compram em qualquer lugar, e debaixo daquele sol inclemente prostrou-se imóvel para que os passantes atirassem uma moeda na lata e ele fizesse uma deferência, tal qual uma estátua que se move, é algo até comum em praças européias, embora aquele faraó fosse mambembe demais, e fiquei observando se alguém seria otário o bastante para dar uma moeda àquele fantoche grotesco, e tudo que ele conseguiu foi que um turista obeso apoiasse o pé na lata para tirar uma fotografia, o que o deixou indignado com o sacrilégio de enxovalhar sua arca do tesouro. Aí o tempo fechou, as nuvens ficaram carregadas de repente e o marroquino embalsamado desfez-se da fantasia de faraó antes que o toró lavasse sua honra e enchesse sua lata.
Segui meu caminho para a Fontana de Trevi, em cujas águas atiraria a moeda que jamais daria ao faraó, agora decidido a direcionar minhas três horas e meia a uma observação mais atenta da faina dos desgraçados de Roma, tarefa prejudicada pelo toró que veio, efetivamente, fazendo com que me refugiasse em igrejas, que há em profusão em Roma. Dei para entrar em igrejas em minhas andanças recentemente, fiz isso no Líbano, na França e na Alemanha nos últimos meses, sem grandes objetivos sacros que não olhar para as cúpulas, os quadros, as imagens, os crucifixos e as arquiteturas, e ficar um pouco em silêncio, o que é bom.
Foram três entre a praça e a fonte, e numa delas acabei ficando absolutamente só, o que muito me espantou em se tratando de uma cidade onde os fiéis deveriam comparecer com mais assiduidade aos templos, em especial debaixo daquela chuva. Perdoem-me os curiosos, mas não anotei direito os nomes, só sei que a primeira, onde fiquei só, se chamava igreja de Jesus e Maria da via tal, o nome da rua, a mais antiga. Entrei também numa maior, alçada à condição da basílica por determinado papa, e numa outra onde, segundo consta, está mantido e conservado o coração de certo santo. Gostaria de conhecer e entender melhor as religiões, porque apesar de meu agnosticismo convicto e militante, guardo enorme respeito pela contrição das pessoas que se lançam de joelhos a pedir algo, em geral o perdão.
Jamais percorrerei o caminho de Santiago de Compostela, algo que minha sinovite não perdoaria, nem meus pés, mas admiro quem o faz, aliás admiro todo mundo, até os malucos que sobem montanhas e fazem safáris, mas receio que o máximo que minha pressa e disposição permitem é peregrinar entre a estação metrô no centro de Roma e a Fontana di Trevi, onde japoneses extasiados clicam suas máquinas digitais, para atirar uma moeda na água e voltar ao metrô, e por ele chegar à estação de trem, e dela seguir ao aeroporto, e dele rumar para casa.
As três horas e meia se esvaíram, a chuva se foi, mas antes de largar Roma para trás, ao pé da escada rolante do metrô encardido, não pude deixar de notar a garota de cabelos vermelhos, até bonita e saudável, uma lituana, ou ucraniana, ou bósnia, ou sei lá o quê, uma refugiada, enfim, com um pequeno cartaz no qual se lia, em italiano, que ela tinha fome e queria, de novo como todos, uma moeda. A julgar por seu aspecto geral, vem sendo bem-sucedida em seu ofício, as moedas devem estar dando, entre outras coisas, para comprar um bom par de tênis e colocar um piercing no nariz, além da tintura para os cabelos lisos e bem cortados e aparentemente limpos.
A menina estava no pé da escada, já disse isso, de frente para quem descia às entranhas da estação de metrô, mas não olhava ninguém nos olhos, a cabeça baixa, não sei se de vergonha de estar pedindo, e a escada era alta o bastante para que desse tempo de pegar uma moeda no bolso e ajudá-la a comprar outro tênis, ou um piercing novo. Foi o que fiz, acho-me no direito de escolher os miseráveis do mundo a quem vou ajudar, e deixei uma moeda diante de sua cabeça baixa, e a infausta sequer obrigado disse, em língua nenhuma.
Bem, poderia ter dado a moeda a outro desventurado qualquer, mas não se pode acertar sempre, ela que faça bom proveito.
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