11/05 - 18:32
Turistas
Flavio Gomes
Certa vez, em Suzuka, um amigo radicado no Japão me garantiu: brasileiro, aqui, a gente percebe de longe. Claro, concordei, perspicaz. É só não ter olho puxado e pronto, é brasileiro. Não, estou falando dos nisseis, sanseis e não-seis (é um chiste, apenas). Só pelo jeito de andar se percebe que é do Brasil.
A mim pareciam todos iguais, japoneses e brasileiros de olhos puxados, mas foi só observar com mais atenção para dar razão ao amigo, os brasileiros, e especialmente as brasileiras, mesmo as que têm cara de japonesas, caminham com mais graça e ginga.
Ao longo dos anos aprendi a distinguir brasileiros em qualquer canto do mundo. Andam em bandos, normalmente, falando alto e rindo de tudo. Em geral carregam pochetes na cintura e/ou bolsas de agências de viagens, aquelas fosforescentes que nos dão na aquisição de algum pacote turístico, escrito CVC ou Agaxtur ou qualquer coisa que termine em "tur".
Todos da excursão usam as bolsas fosforecentes, que servem como uma espécie de identidade e mais, permitem que se inicie uma conversa no avião na hora de descer, se até ali a conversa não se tiver iniciado. Oh, esta é a minha, diz um, e o outro, puxa, é igual à minha, e daí nasce uma longa amizade que termina dali a duas semanas.
Muitos, também, usam acessórios que demonstram claramente sua nacionalidade, como bandeiras ou fitinhas verde-amarelas penduradas nas pochetes e/ou bolsas fosforescentes e/ou mochilas, ou ainda camisetas com inscrições que não deixam margem a dúvidas, como "Salvador", "Fortaleza", "Porto Seguro" ou "Floripa".
Há um orgulho tácito dos brasileiros de sua nacionalidade quando estão fora, que se transforma em vergonha assim que eles colocam os pés de volta no Brasil. Falo de quem viaja para o exterior de vez em quando, seja para fazer o caminho de Santiago de Compostela, seja para visitar o Vaticano, Fátima e Assis, seja para ir a Miami, que dispensa apresentações, uma classe média remediada ou razoavelmente endinheirada. Aqueles que, fora das fronteiras, acham chique se comportar como pagodeiros numa roda de samba, porque brasileiro é assim mesmo, e, dentro de território nacional, consideram o comportamento de pagodeiros em rodas de samba um horror.
Mas não somos os piores. Há os americanos, que sempre servem para mostrar ao mundo que dá para ser pior.
Os turistas americanos, ao menos aqueles cuja existência percebo, viajam em grupos bem menores. Um casal é o padrão. Aposentaram-se, os filhos estão na universidade, não têm mais porra nenhuma para fazer na vida, nem peru no dia de Ação de Graças. Como se sabe, não fazem amigos ao longo de sua existência recheada de futilidades. E, naturalmente, chegam ao final da vida solitários, fingindo que foram muito importantes para a humanidade e, por isso mesmo, certos de que merecem seus momentos para, digamos, aproveitar um pouco aquilo tudo que construíram. Aí compram uma passagem para a Europa, resolvem viajar. Conhecer aquilo que vagamente ouviram falar que se chama mundo. Portanto, uma grande aventura. E para ir a ela, nada melhor do que se armar no primeiro Wal Mart das redondezas.
O figurino não varia. Colete cáqui, cheio de bolsos, para caberem todas as merdas que lhes vendem no Wal Mart. Lanternas, canivetes, kits de sobrevivência, GPS, pastilhas para dor de garganta, pomadas para furúnculos e infecções cutâneas, dicionários, mapas, bússolas. Precisa de muito bolso. Afinal, esse mundo de que falam aí fora é perigoso.
E assim, estejam os americanos no centro de Barcelona ou em Berlim, diante do Coliseu ou subindo as escadas da Torre de Londres, estarão com seus coletes cáqui, o homem sempre de boné, possivelmente de seu time de beisebol, aquele toque informal e despojado, sabe como é, calça de brim ou bermuda, que eles gostam de bermudas, e tênis com meia esticada até as canelas.
O homem anda sempre na frente, com ar altivo. Estou no comando, guys, parece dizer. A velha que o acompanha tem o rosto repuxado, laquê no cabelo e voz de pato. Acredita firmemente que seu general de colete cáqui é capaz de salvá-la dos perigos do mundo. Aconteça o que acontecer, a solução estará naquele colete do Wal Mart, afinal gastamos hundred dollars, ainda bem que tinha o cupom e usamos nosso cartão blue diamond plus, se não formos salvos, pedimos de volta nossos hundred dollars, bastando para isso apresentar nosso cartão blue diamond plus no customer service.
Certa vez, em Frankfurt, estava a esperar o elevador no estacionamento do aeroporto quando chegou um casal desses. Sem a menor cerimônia, já que não demonstrei nenhuma intenção de conversar com ninguém, estava sim a procurar meu passaporte, o velho de boné, aliviado porque a aventura por aquelas bandas selvagens da Alemanha chegava ao fim e ele estava prestes a voltar em segurança para seu jardim e seu cortador de grama, mandou um "hi, man" em minha direção.
Odeio algumas coisas na vida, e entre elas está me chamarem de "bacana", "grande" e "man" ou, coletivamente, "guys". Não sou bacana, não sou grande, e esse "man" americano me irrita profundamente, assim como o "how are you today", expressão à qual me referi dia desses em texto desses. Ninguém chama ninguém de "homem" no Brasil, nem em lugar nenhum, exceto no México, "hombre", mas o México é um anexo do Texas. "Oi, homem" é algo que não se diz, seria ridículo. Sempre tenho a impressão de que determinadas expressões em inglês são uma afirmação de conhecimento, apenas. O sujeito diz "hi, man" para mostrar seu preparo intelectual a outrem. Algo como "olha aqui, eu sei que você é homem, viu como sou esperto, já sei distinguir os sexos, e quando não sei, digo 'hi, guys', e me saio bem mesmo assim".
Bem, o velho de cara vermelha e boné, ao lado de sua velha enrugada de laquê, me disse "hi, man", e eu não iria responder nada, mas mesmo assim ele emendou, "sou de Wiscroft, Sunny County, e você?". Não sei se os locais eram esses, criei os nomes neste exato instante. Digamos que existam Wiscroft e Sunny Count, para efeitos práticos. Fiquei chocado com a informação, de qualquer forma, porque a convicção com que Wiscroft e Sunny County foram pronunciados me levaram a crer que deveriam ser sítios quase universais, notáveis, como é que eu não os conhecia?
Fiz cara de "que porra é essa?", e o velho de boné percebeu que, apesar de sua indicação clara e precisa, a menção ordenada e crescente de cidade e condado, eu continuava sem saber de onde ele era. Foi até onde sua percepção o levou, porque se fosse mais atento notaria que, ao mesmo tempo em que eu não fazia idéia de onde ficavam Wiscroft e Sunny County, demonstrava também que não tinha o mais remoto interesse em saber de qual subúrbio ele e sua velha de laquê vieram, e sendo assim o colete cáqui continuou, incontinenti, à guisa de ajuda: "Illinois, man!".
Illinois. Não lembro se ele disse Illinois, ou Ohio, ou Dakota, ou Tenessee. Mas disse "man" ao final da frase, disso me lembro. A partir dali não havia mais desculpas. Aos olhos do velho de boné e bermudas do Wal Mart, eu poderia até não conhecer Wiscroft, embora tenha sido lá que em 1942 Martin Bilmore fez sete home-runs pela primeira vez numa partida de beisebol entre a seleção local e os vizinhos de Dennisville. Claro que todo americano médio sabe disso, qualquer cidade dos Estados Unidos se orgulha de alguma merda dessas. Eu poderia, até, não estar identificando Sunny County, vá lá, os estrangeiros são muito ignorantes, mas Illinois, ou Massachusets, não lembro qual Estado ele disse, aí pára tudo, pensou o velho de boné, esse cara é um extraterrestre.
Quando ele disse Illinois, ou Mississipi, fiz um "oh", de verdadeiro espanto pela informação. "United States, right?", perguntei, só para confirmar e para valorizar meus conhecimentos geográficos, e o velho retrucou, "yeah, man, America, and you?". Vila Clementino, respondi, district of Vila Mariana, south zone, especifiquei, sendo o mais claro possível para aquele pateta de colete, e o elevador não chegava para acabar com aquele inferno.
Foi a vez dele e da velha de laquê ficarem com cara de quem estava se defrontando com algo absolutamente desconhecido, uma estrutura organizacional até então despida de qualquer parâmetro, eu disse "Vila Clementino" e "Vila Mariana" sem agregar nenhum condado ou Estado, portanto era algo de difícil compreensão para ambos, a boca da velha de lábios finos quase rasgou. "São Paulo", continuei. Os dois ficaram na mesma.
Sim, eu era um estúpido ignorante por não saber onde ficavam Wiscroft, Sunny County e Illinois, ou North Caroline, não lembro, era uma obrigação de qualquer animal bípede, na cabeça daqueles cretinos, saber que aquele monte de merda ficava na América. Afinal, só existe a América. Felizmente o elevador chegou, eu entrei e deixei o casal sem saber onde ficam a Vila Mariana, a Vila Clementino e São Paulo. É um mistério que eles levarão para o túmulo, se já não levaram.
Observo muito os turistas do mundo inteiro. Na ida para Barcelona (estou voltando, neste momento escrevo do aeroporto de Roma), havia alguns personagens interessantes no meu avião. Uma moça baixinha com uma boina de Che Guevara e a estrela do PT no meio, que passei a chamar de Militante, a mulher do lado dela, me parecia libanesa, acabara de parir, estava com o bebê, a quem chamarei de Mãe, o cara do corredor, vulgo Fedido, a aeromoça bonita, Francesca, esse é o nome dela mesmo, vi no crachá, e o casal boliviano do meu lado.
Casal é maneira de dizer. A menininha tinha sete anos, o menino devia ter uns 12, estavam indo de La Paz para Bilbao, onde vivem os pais. Que coragem, enfiar duas crianças num avião sozinhas de La Paz a Bilbao. Gosto de crianças e ajudei os dois com o controle remoto, hoje os aviões têm até joguinhos eletrônicos nas minúsculas TVs nas poltronas, e fiquei preocupado porque a menina não comeu quase nada no jantar e nem no café da manhã, aí me ofereci para ajudar a passar geléia no pão ou para abrir o potinho de iogurte, e o irmãozinho me desaconselhou, "acho que ela vai vomitar", e pegou o saco de vômito, e aquilo seria uma tragédia, ainda bem que ela não vomitou.
Duas fileiras à frente, Militante ajudava, solidária, Mãe, com seu bebê e um moleque infernal que não parava de atazaná-la. Fedido levantava-se de quando em quando, deixando todos em volta em pânico. Francesca sorria mesmo assim, são raras as aeromoças simpáticas hoje em dia, isso deve ser dito, ainda mais na Alitalia, coitados. Entrei no avião e a manchete do jornal italiano era: "Alitalia: hoje é o dia da bancarrota". A Alitalia está em crise, como a Varig, Francesca teria todos os motivos do mundo para estar de mau-humor, mas tratou seus passageiros, Mãe, Militante, Fedido, o casal boliviano e os demais com solicitude, cortesia e desvelo.
Estou em Roma esperando meu vôo de volta. No cartão de embarque está escrito que o embarque será feito a partir das 21h10, o avião sai às 21h50. Pontualmente às 21h10 quase todos se levantam e formam enorme fila, embora ninguém tenha chamado o vôo, estava atrasado. Brasileiros gostam muito de filas e são muito organizados para entrar em aviões. É mais um pretexto para fazer longas amizades que duram onze horas e meia, para ter com quem ensaiar os comentários sobre as peripécias da viagem que está terminando, ao chegar tudo será recontado aos mais próximos com tintas carregadas, a fila é um bom campo de testes para saber o que agrada ou não, e então, na fila, descobrem que passaram pelos mesmos lugares, amei as relíquias de Roma, diz uma, não eram ruínas?, pergunta outra, isso, as ruínas, amei, e voltam todos cheios de histórias para contar, com suas bolsas fosforescentes e seu orgulho verde-amarelo, porque podem dizer o que quiserem, mas o Brasil é o melhor país do mundo, pontuam, para começar a reclamar assim que desembarcam, isso aqui está insuportável, a mala demora, só no Brasil, mesmo. E falam, falam pelos cotovelos, em poucos minutos são todos mais ou menos conhecidos, encontram coincidências incríveis, você é de BH?, nossa, eu sou de Juiz de Fora, e a fila começa a andar, ninguém reclama, do Bradesco e do INPS reclamam, mas da fila do avião em Fiumicino, não, e a mulher ao meu lado, levantando-se para participar também daquela procissão cheia de gente igual a ela, comenta com as amigas recém-adquiridas que adorou a torre de Pizza e o Colosseu, mas não gostou muito de um trecho de seu pacote, porque queria conhecer Florença e a mandaram para Firenze.
Acho melhor parar por aqui.
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