04/05 - 16:40
Despedidas
Flavio Gomes
A moça era até bonitinha, não fosse banguela. Curiosos os padrões estéticos em voga na Europa, ou, ao menos, em cidades pequenas da Europa. Jamais se veria no Brasil uma garçonete com alguns dentes em falta.
Mas nas cidades pequenas da Europa, nos pequenos restaurantes familiares da Europa, ser banguela não tem tanta importância. E a moça, bonitinha, não se preocupava muito em esconder a ausência de alguns dentes, por estranho que seja uma moça tão jovem, em idade de arrumar namorado, andar por aí daquele jeito.
O restaurante familiar de Riolo Terme me é dos mais familiares. Jantei ali nos últimos anos mais, provavelmente, do que em qualquer restaurante de São Paulo.
Fecha tarde, o que é uma raridade na Europa. E a comida é boa, embora não excepcional. Nesses muitos anos nada mudou no salão: mesas iguais, os mesmos talheres e pratos, a toalha, o cardápio, o cozinheiro, o sabor de vinho, a moça do caixa, a escultura kitsch de madeira, uma mulher nua de peitos pontudos.
A moça banguela foi a única novidade, chegou neste ano, ou, quem sabe, apenas começou a trabalhar agora. Simpática e sorridente, apesar da falha visível. Se a féria for boa no verão, deve dar para consertar. Mas não saberei nunca.
Foi a última de Imola. Se tiver de voltar no ano que vem, será uma surpresa. Por isso, nos cinco dias do GP de San Marino, fui-me despedindo de gentes e coisas que nunca mais verei.
A começar do casal que dirige o velho Hotel Franca. Em 1992, quando fui a Imola pela primeira vez, lá me hospedei. Cheguei e na entrada havia uma lousa com o escudo da Portuguesa desenhado e uma mensagem qualquer de boas-vindas. O amigo que fez a reserva, e que ficava lá desde sempre, é que deu a dica.
Nasceu uma amizade, sem dúvida. Só não fiquei lá em 1994, mas nos outros anos, sempre. O dono adoeceu, depois melhorou, agora está mal, parece que é grave. Paolo, seu nome, adora futebol e tem emoldurados num quadro no bar ingressos de jogos históricos a que compareceu. Torcedor da Juve, estava em Bruxelas quando da tragédia que matou não se quantos numa final da Copa dos Campeões. Estava também no Sarriá em 1982.
Conversamos pouco desta vez, porque a doença o deixa muito cansado e de noite, quando eu chegava do restaurante, que fica próximo, ele já estava dormindo. Evitei despedidas dramáticas. Evito despedidas dramáticas. Chama-se a isso de defesa. Que seja. Por isso, despedi-me como se dissesse até o ano que vem, mesmo sabendo que não haverá ano que vem.
Despedi-me do restaurante da moça banguela dando uma última olhada para o aparelho público de telefone, vermelho, que fica na entrada, de onde passei tantos boletins para a rádio em que trabalhava, e através do qual escutei, em 1998, os últimos minutos de um jogo em que a Portuguesa foi roubada. Eu gostava muito de futebol, nem dormi naquela noite.
Despedi-me da estradinha pela montanha entre Riolo e Imola, um caminho quase secreto que sempre me levou ao autódromo sem trânsito, cujas curvas conheço de cor e salteado.
Despedi-me das curvas, dos boxes, da autoestrada, do pedágio onde soube que Senna tinha morrido, de Bolonha, da pizza em pedaços sempre no mesmo lugar, do céu mais azul que já vi, nesta época do ano o céu é de um azul doído por aquelas bandas, do aeroporto cafona de onde saiu um cargueiro da Força Aérea Italiana levando o corpo de Ayrton num tempo tão distante que parece irreal.
Despedi-me de coisas bobas que não têm importância senão para mim e por isso nem vou dizer o que são para não parecer biruta. Vira-se uma página com o fim do GP de San Marino, na história da F-1 e na minha, repleta de lembranças e significados.
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