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16/10 - 16:59

Bob e os preletores
 

Flavio Gomes

Em véspera de viagem tenho o hábito de ir dormir bem tarde, para acordar arrebentado no dia seguinte e desmaiar no avião, seja qual for o destino. Cumpri o ritual antes de seguir para o Japão, liguei a TV e fiquei zapeando pelos duzentos canais que hoje temos à disposição. Antigamente eram apenas o 2, o 4, o 5, o 7, o 9, o 11 e o 13. Cultura, Tupi, Globo, Record, Excelsior, Gazeta e Bandeirantes. Aliás, quando me mudei para o Rio, pequeno, ainda, um dos maiores mistérios da cidade para mim foi o fato de a Globo lá estar alojada no canal 4 e a Tupi no 6. Será que ainda é assim?

Bem, não importa. Hoje temos o 3, um portal que vale para tudo, vídeo, DVD, games, fotos digitais e TV a cabo. A partir dele os ramais vão-se espalhando. Vemos hienas e gnus num canal, documentários sobre Pearl Harbor em outro, jogos de handebol e basquete, leilões de tapetes e bois, desenhos antigos e novos, seriados americanos, musicais egípcios, noticiários em alemão, espanhol, inglês, filmes, pastores e preletores.

Interessei-me por esses últimos em minha noite de insônia forçada antes de embarcar para Suzuka. Não lembro exatamente em qual ramal do canal 3, e é provável que jamais o encontre de novo, mas o termo preletor me chamou a atenção, na verdade fiquei curioso ao ouvir do apresentador do programa o anúncio de que a preletora fulana de tal iria trazer a cura definitiva da enxaqueca.

Não tenho enxaqueca, sei apenas que é uma dor de cabeça da peste e muita gente sofre disso e deve ser bem ruim. Mas tenho uma atração mórbida pela palavra, enxaqueca, gosto de outras, também, como paralelepípedo, mesóclise, seriema e lhama. Todos temos nossas palavras favoritas. Pernóstico, sacripanta, trôpego, e alguns nomes próprios, também, como Telêmaco Borba ou Dermeval Lobão, que devem ter sido figuras ilustres pois que viraram nome de cidades, ou viadutos.

E eis que surge a preletora que iria curar todas as enxaquecas do mundo e ela diz que basta cultivar um sentimento de gratidão por seus antepassados para que a enxaqueca vá para o diabo que a carregue. Ótimo, saberei o que dizer a quem um dia a mim se queixar de enxaqueca, não sei se funciona, mas considerei pertinente a sugestão. Seja grato aos seus antepassados que a dor passa. Na sequência, satisfeito com a proposição incontestável, o apresentador lê a carta de um telespectador que pede à preletora para que ela lhe arrume um emprego, e de novo a solução é curta e grossa, tiro rápido, é só comprar o livro "A Verdade da Vida", pelo telefone tal. Deve, de fato, ser um excelente livro, este que arruma empregos e, de lambuja, ainda nos traz a verdade da vida, mistério secular, ao que parece já desvendado, tudo é uma questão de procurar nas fontes certas.

Ao voltar para o apresentador, que com ar triunfante e cônscio de ter naquela noite resolvido os problemas de enxaqueca e desemprego do país se preparava para encerrar o programa, descobri que a emissão era de responsabilidade da Seicho-No-Ie, uma doutrina, vim a pesquisar depois, pois só a conhecia de folhinhas nas paredes com pensamentos diferentes para cada dia do mês, uma doutrina criada pelo mestre Masaharu Taniguchi em 1930 que mudou a vida de milhares de pessoas.

Pareceu-me bastante adequado receber ensinamentos de mestre Taniguchi às vésperas de uma viagem ao Japão e foi reconfortante saber que seus preletores e preletoras curam enxaqueca e arrumam empregos, ainda que o programa tenha terminado sem que eu compreendesse exatamente o significado da palavra preletor, que não consta de meu surrado dicionário, mas deve ser culpa dele, do dicionário, de bolso, já que a versão eletrônica, consultada a posteriori, me ensina ser um preletor aquele que preleciona, um professor, em resumo.

Ia alta a madrugada, não mudei de canal, já que em seguida à preletora das enxaquecas surgiu na tela Robert Abraham, apresentado como o maior especialista em negócios do mundo, ou um dos maiores, certamente um dos maiores, não há dúvidas quanto a isso, uma vez que com sotaque americano, que julguei caricato e forçado, mas pode ser autêntico, por que não?, vendia pela TV seu curso "Vamos Ganhar Dinheiro", uma louvável iniciativa de dividir com pessoas insones sua experiência em acumular divisas. De fato, um produto muito sedutor, dirigido a quem está desempregado ou insatisfeito com seu emprego e salário atual. "Está na hora de tomar um atitude e sair dessa sufoco", intimou-me o especialista em negócios tropeçando nos artigos e pronomes, o que é compreensível, tratando-se de um estrangeiro.

Sem meias palavras, Robert, ou Bob, afinal tornamo-nos íntimos de certas figuras de imediato, com Robert foi assim, Bob prometia dobrar ou triplicar meus lucros usando conceitos e regras "quase bíblicas", através de pequenos anúncios classificados, sem sair de casa. O curso é intensivo e consta de seis manuais, 14 apostilas e alguns CDs, e num desses há 81 maneiras de transformar meu computador "numa máquina de dinheiro". É um trabalho claramente criterioso, pois fosse Bob um picareta brindar-nos-ia com 50 ou 100 ou 200 modos de fabricar dinheiro com computadores, números mais fáceis de registrar e guardar no subconsciente, mas não, são 81, exatos 81, ele deve ter testado outros tantos que não deram certo, daí chegar a 81, as 81 maneiras são um atestado de idoneidade e credibilidade. "Com a dinheiro de um ou dois pizzas você pode começar a ficar rica", garantiu-me Bob, que não é nada paternalista, porque já avisou de antemão que se eu não tiver disposição de trocar um ou dois pizzas por suas apostilas, é porque o curso não é para mim, caramba, como ele sabia que eu gosto tanto de pizzas e que relutaria em trocá-las por seu curso? Esse Bob é fogo, um grande especialista, é evidente que sabe das coisas. Em todo caso, "Vamos Ganhar Dinheiro" sai por seis parcelas de 29,90 e Bob aceita todos os cartões.

Viajei mais tranquilo na tarde seguinte, é claro, sabedor de que na volta não teria mais dificuldades com enxaquecas, emprego ou dinheiro, graças aos preletores de mestre Taniguchi e ao curso do generoso Bob, que se guardasse seus segredos para si seria seguramente mais rico do que é, mas, altruísta, decidiu dividi-los conosco, os insones. No avião, folheando os pequenos classificados de uma revista, quem sabe encontraria ali um seguidor de Bob?, deparo com algo que me encheu de esperança e curiosidade. "Resolvo qualquer tipo de Problemas, por mais difíceis que sejam!", garantia o minúsculo anúncio seguido de um telefone, e tive ganas de ligar imediatamente pois problemas tenho alguns, e encontrar alguém capaz de resolvê-los, todos, por telefone foi uma excelente novidade para minha pessoa enquanto consumidora de produtos e serviços.

O resolvedor de Problemas, assim mesmo, com P maiúsculo, não deixou nome, apenas o número, e como estava no avião não liguei, recortei o reclame e guardei, mas ao voltar fiquei com vergonha de telefonar, é provável que outras pessoas tenham problemas bem maiores que os meus e não seria justo tomar o tempo de quem quer que seja obviamente envolvido com questões mais importantes que minhas modestas querelas, eu me viro. Mesmo assim, confesso não sem um certo constrangimento que decolei para minhas não-sei-quantas horas de avião, trem e carro até Suzuka muito mais seguro e grato aos preletores, especialistas em negócios e solucionadores de problemas, que zelam por mim.

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