26/09 - 23:21
1.264 nãos
Flavio Gomes
Há sempre um fato novo. Vim para cá com o texto na cabeça. O título seria "1.264 nãos". Uma idéia quase brilhante, embora muito trabalhosa, eu iria contar todas as placas que dizem "não faça alguma coisa" a partir do momento em que entrasse no avião, e anotar uma por uma. Não pare seu carro aqui, não coloque o saco de plástico na cabeça, não enfie o dedo na tomada, não seque o umbigo com o secador de cabelos, não segure a cafeteira se não for pela alça, não fume aqui, não fume ali, não ponha a torta na boca antes de assoprar o recheio, não ligue o motor sem afivelar o cinto de segurança, não espete ninguém com a faca de passar manteiga, não deixe cair xampu nos olhos, não tome o elevador em caso de incêndio, não entre no país com comida ou bebida, não minta para o agente da imigração, não suba no ônibus sem olhar os degraus, não passe o sinal vermelho, não faça o retorno aqui, não entre nesta rua, não buzine na frente do hospital, não durma sobre o ar-condicionado, não use o travesseiro para sufocar seu cônjugue, não coma este doce se tiver diabetes, não pise na grama, não encoste no muro, não dê este brinquedo a crianças menores de três anos, não use moeda estrangeira para pagar o pedágio, não coloque seus filhos no banco da frente, não enforque ninguém com a linha de pescar, não esqueça de apagar a luz, não carregue armas no avião, não converse com o motorista, não se enxugue dentro do box com o chuveiro ligado, não engula o tubo de pasta de dente, não use gasolina para lavar o vidro do carro, não tente nada, estamos de olho.
É claro que não anotei nada, nem contei os nãos, e sabia que seria assim, por isso inventei um número qualquer para o título e nele me fiei, ninguém saberia se ele era real ou não, embora por aqui seja provável a existência de algum dado estatístico sobre os nãos, quem sabe um site, www.dontdoit.com, ou um telefone gratuito, 1-800-DONTDOIT, para se saber a quantos nãos os cidadãos daqui são submetidos por dia, ou por hora, ou por minuto, ou por segundo.
Mas sempre há um fato novo, como eu dizia, e este foi o boletim lido em voz grave pelo cara que toma conta da sala de imprensa do autódromo, quando não havia quase mais ninguém aqui. Ele pediu nossa atenção e informou que um tornado estava chegando, alarme amarelo, disse, ou laranja, uma cor dessas, que deve significar perigo de alguma coisa. Estava, o tornado, a vinte milhas daqui, recomendou que fôssemos embora, ou ficássemos, também não entendi, eu nunca entendo o que essa cara diz com sua voz anasalada, exceto quando ele avisa que as transcrições de tais entrevistas estão disponíveis na parede oeste da sala. Parede oeste. Me perdoem, voltarei aos palavrões, mas puta que pariu, parede oeste é foda. Porque não esquerda e direita? Parede oeste? Para que lado é o oeste? Cadê minha bússola? Onde está minha bússola? Preciso chegar à parede oeste! Ajudem-me, por favor!
Eles adoram os pontos cardeais. Pergunto no hotel qual o melhor caminho para a pista (eu sei qual é, mas pergunto sempre) e ela diz pegue ali aquela rua para oeste, vire para leste e siga para o sul. Eu retruco, saindo à direita, é isso?, e ela, não, saindo a oeste. OK.
Há algumas coisas que me aborrecem nesta região, do planeta, quero dizer, que é a mania da intimidade, de me perguntarem sem me conhecer em cada loja, lanchonete, elevador ou posto de gasolina como você está hoje?, ou como está você esta manhã?, frase mais específica, que denota, ao menos, que o perguntador imagina saber a hora do dia em que a pergunta é feita, o que é um bom sinal, o perguntador sabe ver as horas. No meu caso, a vontade é de responder que não interessa, o que interessa a você, seu gordo escroto obeso cujo nome não sei, a quem nunca vi e com quem jamais conversaria, o que interessa a você saber como está minha manhã? Como está minha manhã é um problema que diz respeito apenas a mim, certamente está melhor que a sua, que encheu o rabo de ovos com bacon e desse café nojento com panquecas e melado, que se empanturrou de colesterol e mal consegue andar, que usa esse boné encardido e esse tênis de marca feito por trabalhadores escravizados na Tailândia, que tem uma bandeirinha ridícula colada no vidro do seu carro horroroso, gastador de combustível, feito com aço subsidiado porque aqui não se pode comprar aço lá de fora mais barato, ah, não vou esticar o assunto.
E se minha manhã não estiver boa, se eu estiver com azia, se eu estiver com fome e com vontade de comer mamão, se eu estiver louco para ler um jornal na minha língua, se eu quiser dar um beijo na boca de café da minha mulher, se eu quiser levar o leite com nescau para meus meninos que estão na frente da TV vendo o pica-pau, em quê o senhor, seu gordo escroto, poderá me ajudar?
Por isso, nem venha com essa de perguntar como está minha manhã, nem minha tarde, nem minha noite, nem meu dia como um todo, porque se eu tiver de responder, você, seu gordo escroto, 1) não vai entender porra nenhuma; e 2) se entender, não poderá me ajudar. Portanto, fique com suas perguntas cretinas para você.
O fato novo, eu dizia, o tornado. Decidi aguardá-lo para conferir de perto como são mentirosos esses filmes, com vacas voando dentro de um furacão, casas girando com carros em volta. O cara da voz anasalada, claro, achava que sairíamos todos correndo, acho que queria voltar para casa mais cedo, foda-se ele, fiquei aqui para ver o furacão, e era um furacão de merda.
(Desculpem os palavrões; existem alguns termos em português insubstituíveis, como "de merda", "do caralho", "pra caralho", "nem fodendo", há estudos sobre isso, não se choquem, de fato são expressões incrivelmente precisas, quase um sistema métrico, "longe pra caralho" é muito mais preciso do que "muito longe" ou "longe demais". Recebi um texto do Millôr Fernandes pela internet, nem sei se é dele, mas por bom deve ser, ele diz que "pra caralho" é também uma expressão matemática, "a Via Láctea tem estrelas pra caralho", "o sol é quente pra caralho" e "eu gosto de cerveja pra caralho". De fato, há vários usos para uma mesma expressão, é algo que só o português permite. Se alguém quiser esse texto do Millôr, peça que eu mando. É a melhor coisa que li nos últimos anos, do caralho.)
O furacão passou longe, ou nem passou, foi uma fraude, tirando alguns raios e trovões, nada de muito emocionante, minha vida está condenada à falta de emoções, como foi o terremoto em Suzuka (balançou menos do que a Imigrantes em volta de feriado) ou o alarme de bomba em Silverstone (eu queria ficar na sala de imprensa para colocar uma nota no ar, o segurança quase me arrastou à força, não havia bomba nenhuma), ou ainda o de incêndio em Montreal, outro fiasco.
Tornado de merda, para mim tornado bom é o Tony, que veio à minha mente assim que o gordo anasalado disse que vinha um para cá, e me lembrei de Tony Tornado cantando que a gente morre na BR3 num festival em 1970, acho, a TV era preto-e-branco, disso tenho certeza, era ele e duas moças que dançavam e repetiam que a gente morre na BR3, Tornado com seu cabelão black power, grandes tempos, eu era bem pequeno, mas lembro da música e lembro dos Secos & Molhados cantando o gato preto cruzou a estrada/passou por debaixo da escada/e lá no fundo azul/da noite da floresta/a lua iluminou/a dança, a roda, a festa. Eu sabia essa letra de cor e imitava o Ney Matogrosso e os amigos do meu pai achavam que eu ia virar viado, mas não virei.
Tony é que é tornado de verdade, é o que sempre digo.
Chove lá fora, isso é tudo, não há motivos para pânico. No panic! No panic!, sairei daqui gritando, No panic!, é apenas uma chuva. Mas ninguém vai ouvir porque estão todos em suas casas pregando as janelas. Por que pregam as janelas se a casa vai sair voando no meio do tornado junto com as vacas e os automóveis? Jamais compreenderei certas coisas nesta parte do mundo.
Vejo raios pela janela, ouço trovões. No panic. Na verdade, está chovendo pra caralho. Vou me molhar pra caralho para chegar ao estacionamento. Mas não saberei como dizer isso ao segurança que me espera para fechar os portões, embora saiba que ele vai perguntar, como perguntará também como está sua noite hoje, eu direi, ruim pra caralho, e ele perguntará, olhando para os raios e trovões, e agora?, e eu usarei todo meu poder de síntese: fodeu.
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