19/09 - 19:18
Alá seja louvado
Flavio Gomes
Na Itália, entrego o regime a Deus. Ou a Alá, visto que sou um recém-convertido ao islamismo, decisão tomada na noite de sexta-feira passada durante uma festança promovida pelos organizadores do GP do Bahrein. Tendas, tapetes persas, odaliscas, música árabe, charutos, comida e bebida à vontade. Nada de quibes ou esfihas, tinha era lagosta e batatas gratinadas. Vinho do bom, conhaque na faixa para encerrar a noite. Esperamos vocês, disse um recém-amigo, o Bahrein é um país livre e pode beber à vontade. E cada homem pode ter sete mulheres.
Sem dúvida o islamismo, quando interpretado da forma correta, dispensando barbas, turbantes e fuzis, é das doutrinas mais interessantes, especialmente nessa parte das sete mulheres. Aspecto que não poderei colocar em prática no ano que vem em minha rápida passagem por terras barenitas, já que a cota reservada a nós, de países de tradição cristã, é bem mais modesta, e minha cota já se escalou para ir junto ao Golfo Pérsico.
Mas é perigoso, tentei dissuadir minha cota única, que não se impressionou com citações da Al Qaeda, nem mesmo quando mencionei a possibilidade de algum califa querer trocá-la por alguns camelos, mesmo que com corcovas rendidas, proposta que dependendo das circunstâncias poderia ser aceita por este que se considera proprietário da cota. Foi uma tentativa desesperada, lembrei-me de certa novela com personagens árabes, Latifa, Jade, moças muito jeitosas, eventualmente trocadas por camelos, mas nada disso funcionou e terei de levar minha cota única ao país onde a cota é de sete per capita. Oh, Alá, por que tamanha injustiça divina com seu servo?
Pois entreguei o regime a Alá na Itália, ainda mais num fim de semana em que jantares foram oferecidos em profusão. Após o barenita, houve o da Ferrari no sábado, e no domingo um amigo pagou o derradeiro num restaurante chique de Milão. Na Ferrari tem todo ano, sempre chego quando os pilotos estão indo embora, eles dormem muito cedo. O brinde este ano foi um cinzeiro em forma de pistão, imediatamente colocado sob suspeita por um jornalista português que me perguntou, para testar meus conhecimentos técnicos, o que provava que aquele pistão não era uma autêntica peça de Fórmula 1.
Expert em pistões, ofereci quatro alternativas. Primeiro, o peso. Segundo, a ausência do encaixe para a biela. Terceiro, a falta das janelas de lubrificação nas ranhuras dos anéis. Por fim, e o que me pareceu mais convincente, o apoio para o cigarro, que transformava a peça indubitavelmente num cinzeiro, e não num pistão.
Resposta rechaçada. Este aqui tem três segmentos para anéis, e todos sabem que pistão de Fórmula 1 tem no máximo dois segmentos, esclareceu o luso periodista. Eu não sabia. Na verdade nunca entendi direito a função dos anéis nos pistões, por isso não me detive nos três segmentos. Perdi.
Segunda-feira fui comprar peças de lambreta. O vocábulo é aceito em português. O termo lambreta é descrito pelos dicionários como nome comercial de pequena motocicleta, originalmente fabricada na Itália. Como gilete, virou sinônimo de alguma coisa, embora seja uma marca, Lambretta, com dois tês. Tenho uma, com sidecar, amarela e cinza. Um amigo que restaura lambretas sempre me pede algumas peças, fica perto de Milão, vou lá. Comprei manoplas, borrachas, pedaleiras, adesivos, para mim um chaveiro. Despachei tudo de Milão, mas a caixa de papelão não chegou a São Paulo.
No balcão da companhia aérea informei a funcionária sobre a falta da caixa com peças de Lambretta e tive de assinar alguns formulários. Tinha ficado em Milão, chegaria no dia seguinte, enviariam para minha casa. O que havia na caixa, perguntou a funcionária, e respondi que eram peças de Lambretta, e ela não se deu por satisfeita, mas o que escrevo aqui no campo de conteúdo da bagagem no formulário?, perguntou de novo, e eu disse: peças de Lambretta, com dois tês. Assim foi feito, a caixa chegou no dia seguinte, com todas as peças.
Por fim, mais uma guinada radical em minha vida processou-se nesta semana, num ano de grandes mudanças, como a da mala, do computador e da nécessaire. Troquei de celular. Arrumei um plano mais barato, me deram o aparelho de graça, agora não sei como cancelar a outra linha. Vou dizer à operadora que estou saindo país, como fiz quando cancelei as assinaturas da Veja, da Playboy, da Quatro Rodas e do Estadão. Eles fazem muitas perguntas e eu não sou de dar muitas explicações. Além disso, não gosto de magoar ninguém.
Direi que vou me mudar para o Bahrein.
> Você tem mais informações? Envie para Minha Notícia, o site de jornalismo colaborativo do iG
Comente
Leia mais sobre
Multimídia
No Bahrein, dizem, são sete dessas per capita