Após órgão divulgar ter comprovado irregularidades, ex-jogador contra-ataca e diz que colocou advogado para cuidar do caso no CFZ

Zico prepara o contra-ataque. Acusado pelo Conselho Fiscal do Flamengo de ser protagonista numa série de supostas irregularidades na parceria entre o clube carioca e o seu CFZ , o ídolo rebate e diz que é a gestão do Flamengo a verdadeira autora de vários equívocos na relação. “Eles (Conselho Fiscal) disseram, por escrito, que comprovaram irregularidades, então terão de provar. Já coloquei um advogado para o CFZ e veremos quais as medidas podem ser tomadas", afirmou o "Galinho" ao iG .

O iG revelou no último dia 13 que a comissão de inquérito encarregada pelo Conselho Fiscal de investigar a parceria com o CFZ - que durante a parceria se fundiu com o fundo de investimentos MFD -, havia concluído o trabalho e "comprovado irregularidades", conforme divulgado pelo órgão em "nota de esclarecimento" para conselheiros. Boa parte da documentação disponível para os conselheiros, que o iG teve acesso, ainda será analisada pelo Conselho de Administração e pelo Conselho Diretor.

Em junho de 2010, Zico foi apresentado no salão nobre da Gávea como diretor do futebol
Alexandre Vidal / Fla Imagem
Em junho de 2010, Zico foi apresentado no salão nobre da Gávea como diretor do futebol
“Eles estão acusando um clube que é filiado à mesma federação que eles. É como se estivessem acusando o Vasco, o Fluminense e o Botafogo. Além disso, estão acusando uma empresa que tem diversos investimentos no clube (MFD). Se há algum problema com a parceria, porque não questionam as pessoas do Flamengo que estavam lá na assinatura? O Rafael de Piro, vice jurídico, o Michel Levy, vice de finanças, o Marcos Braz, vice de futebol... Estavam todos lá, todos os poderes do clube. Ainda que o contrato fosse lesivo ao Flamengo, que houvesse algo de errado, eles assinaram. E eu que tenho de responder sozinho? Eu estou na outra ponta. Se acham que houve irregularidade, eles têm de cobrar de quem errou lá dentro”, atacou Zico.

O caso Sky

Comunicação interna do marketing detalha valores do contrato com a Sky e cláusulas incluídas no termo aditivo
Reprodução
Comunicação interna do marketing detalha valores do contrato com a Sky e cláusulas incluídas no termo aditivo
A maioria dos itens foi levantada pelo Conselho Fiscal em 201 0. Entre os fatos questionados estão os direitos sobre o jogador Rafinha, destaque dos juniores, e a remuneração de Zico, diretor geral de futebol naquele ano. O que o Conselho Fiscal reclama é o fato do contrato com a Sky, empresa que pagava Zico, exigia, em contrapartida pelo valor (R$ 1 milhão por um ano), espaços publicitários do Flamengo.

No termo aditivo do contrato da Sky de patrocínio ao basquete do Flamengo, o clube cede propriedades até do futebol para obter R$ 1 milhão (por um ano) de remuneração a Zico, que não quis ser pago pelo clube. São cedidas duas placas, na Gávea e no Ninho do Urubu, além de 5% do "back drop" (banner com os patrocinadores colocado como fundo nas entrevistas para televisão).

Como Zico foi nomeado oficialmente diretor geral do futebol, um cargo amador e sem remuneração, e não como diretor-executivo, como era colocado em 2010, ficou caracterizada, para o Conselho Fiscal, uma transgressão do estatuto do clube.

“No meu contrato com a Sky não há nada disso. Sobre esse contrato do clube com a empresa eu não sei e não posso falar. Aliás, não posso falar nem do meu, pois há cláusula de confidencialidade. O que posso dizer é que no meu acordo com a Sky não há nada de Flamengo. A Patrícia (Amorim, presidente do Flamengo) só fez a apresentação, depois a negociação foi entre eu e Sky, então não compreendo o que pode haver de errado”, rebateu Zico.

O caso Rafinha

Contrato da parceria entre Flamengo e CFZ
Reprodução
Contrato da parceria entre Flamengo e CFZ
A questão mais complicada é a formação e a dissolução da parceria com o CFZ, clube 95% de Zico e 5% de seu filho, Bruno Coimbra, que exerce o cargo de presidente executivo, enquanto o ex-jogador é presidente de honra. Na parceria entre os clubes, se um jogador fosse do CFZ para o Flamengo, ou vice-versa, cada um ficaria com 50% dos direitos econômicos sobre o atleta, ou seja: se o jogador fosse transferido posteriormente, o dinheiro seria dividido igualmente.

O problema começou quando o CFZ, depois de firmada a parceria com o Flamengo, se fundiu ao fundo de investimentos MFD em 8 de agosto de 2010. A notícia foi publicada no site oficial de Zico. No dia 29 de setembro de 2010, após o fato ser questionado pelo Conselho Fiscal do Flamengo, Patrícia Amorim emitiu nota oficial comunicando que a parceria com o CFZ estava extinta a partir de 31 de julho de 2010.

Durante a parceria, o jogador Rafinha, que depois seria destaque do time do Flamengo campeão da Copa São Paulo de Juniores , rescindiu com o CFZ e foi para a Gávea. Mas o Conselho Fiscal questiona a cessão de direitos para a MFD. O atleta consta na lista do fundo de investimentos em seu site oficial.

Vinculado ao CFZ-Brasília, Rafinha tinha contrato de 1/4/2009 a 31/3/2012. Porém, em 17/4/2009 foi transferido por empréstimo para o CFZ-Rio, que rescindiu e o mandou de volta ao CFZ-Brasília em 22/6/2010. No dia 23/6/2010 ele rescindiu contrato com o CFZ-Brasília e, no dia seguinte, assinou em definitivo com o Flamengo até maio de 2013. A movimentação consta no registro da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

No contrato do atleta, o agente é o advogado Alan Victor Almeida Araruna, que seria representante da MFD. O questionamento do Conselho Fiscal sobre a cessão de direitos econômicos sobre o jogador é motivada pelo valor para transferência internacional que consta no contrato: R$ 30 milhões (para transferência nacional o valor é de R$ 1,44 milhão). Como o atleta assinou em definitivo com o Flamengo - não foi emprestado -, o Conselho considera que a cessão dos direitos é irregular por envolver também a MFD, apesar de a transferência ter sido feita enquanto a parceria com o CFZ estava vigente.

“É absurdo isso. Eles querem os 100% do Rafinha? Para começar, a MFD não tem 50% do atleta. Tem 25% ou 30% porque investiu no jogador. O restante é dividido entre CFZ-Rio e CFZ-Brasília. Eles (Flamengo) têm de estar preocupados com os 50% deles, não com os dos outros. O CFZ faz o que quiser com o seu percentual. O jogador era nosso e foi para o Flamengo dentro dessa parceria. A MFD gerencia a carreira do Rafinha e de outros jogadores que estão no Flamengo também. Ele assinou com o Flamengo, mas os direitos econômicos continuam sendo de quem investiu. Se queriam os outros 50%, por que não compraram?”, indagou Zico.

Ainda o CT do CFZ...

Valores cobrados pelo CFZ para uso do CT
Reprodução
Valores cobrados pelo CFZ para uso do CT
Outro ponto do contrato de parceria entre Flamengo e CFZ é questionado pelo Conselho Fiscal. A cláusula 1.1.5 diz: "O CFZ, sempre que viável em razão da agenda e desde que avisado previamente, poderá ceder seus espaços de treinamento para que as equipes de base do Flamengo realizem seus mandos de campo em campeonatos oficiais". O item seguinte determina que "de forma a viabilizar a execução econômica do presente contrato e custear as cessões de espaço que o CFZ poderá realizar ao Flamengo", o clube da Gávea deveria depositar R$ 180 mil por ano ao CFZ (R$ 20 mil de janeiro a julho e R$ 8 mil de agosto a dezembro), enquanto durasse a parceria.

“Eles usaram as instalações e tiveram de pagar um aluguel ao CFZ, que hoje é gerido pelo meu filho (Bruno). Juniores, juvenis, diversas categorias usaram os campos, vestiários, iluminação. As parcelas depois eram reduzidas para R$ 8 mil, isso mal paga a conta de luz. Tem limpeza, manutenção dos campos, dos vestiários, enfim, não sei o que estão contestando nesse aspecto”, disse Zico.

Além de Rafinha, a cessão de direitos de outro atleta da base, Romário Barbosa de Oliveira, também é questionada pelo Conselho Fiscal, mas o iG não teve acesso ao contrato do jogador ou qualquer documentação referente a essa questão. O Conselho Fiscal também comunicou possível transgressão estatutária de André Dumbrosk, filho do ex-vice-presidente Delair Dumbrosk, que fez as primeiras denúncias sobre a parceria em 2010 ao blog de Milton Neves, no iG . Ele pode até ser eliminado do quadro social por tratar publicamente de assunto interno do clube.

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