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Zagallo: "Chegam a mim na rua e dizem: 'vai ter de me engolir'!"

Técnico faz 80 anos e fala ao iG sobre assédio. Ele diz ainda que não é contra Ronaldinho para a seleção

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

Gazeta Press
No comando da Portuguesa, em 1999, sua única passagem no futebol paulista
A vida de Zagallo, nos últimos dias antes dos seus 80 anos, foi tão atribulada quando a idade permitiu, e o sucesso de um dos maiores vencedores do futebol mundial exigiu. Nada que tirasse o ânimo de Mário Jorge, o “Velho Lobo”, campeão do mundo como jogador, como técnico, como coordenador e que, em 2014, se não for chamado para algum cargo pela CBF, quem sabe também como torcedor.

Essa é a maior esperança do senhor que completa 80 anos nesta terça-feira e, apesar dos cabelos totalmente brancos, ainda tem disposição, e simpatia de sobra, para atender à demanda avassaladora por detalhes da sua trajetória no mundo da bola.

Ao iG, em General Severiano, sede do Botafogo, pouco depois de conceder entrevista a uma emissora de televisão, ele afirmou que foi mal interpretado nas notícias de que Ronaldinho Gaúcho, do Flamengo, outro clube onde é ídolo, não poderia mais vestir a camisa da seleção. Explicou que mantém a posição, mas disse só ser contra a escalação do camisa 10 da Gávea como meia, pois ele não tem mais “condição orgânica” para a função. “No ataque, seja o que Mano Menezes quiser”, completou Zagallo, que fala também sobre Copas do Mundo, começo da carreira e o assédio nas ruas aos 80 anos de vida.

Confira a entrevista de Mário Jorge Lobo Zagallo ao iG:

iG: Como foi a sua vinda para o Rio e o seu começo no futebol?
Zagallo: Vim de Maceió com meus pais e meu irmão. O meu pai veio como representante de uma firma, “Tecidos e toalhas Alexandria”, que era do meu tio, irmão da minha mãe. Cheguei ao Rio em janeiro ou fevereiro de 1932. Fui criado na Tijuca. O meu pai me levou para o América, era conselheiro, e comecei minha vida no futebol ali, no juvenil do América, em 48, 49, depois fui para o Flamengo e engrenei uma vida profissional. No América nunca recebi nada, era amador. Os meus pais eram contra, a vida de jogador profissional não era muito bem quista pela sociedade. Era outro esporte, não tenha dúvida. Prossegui e fui estudando também, me formei técnico em contabilidade no Vera Cruz, ali na Haddock Lobo, na Tijuca. Fazia tudo por ali.

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No comando da Portuguesa, em 1999, sua única passagem no futebol paulista
iG: O senhor já chegou a reclamar de falta de reconhecimento por tudo o que conquistou. Hoje o senhor acredita que o reconhecimento veio?
Zagallo: Acredito que sim. Eu só tenho a agradecer ao público brasileiro por todo o carinho. Todo o lugar que eu vou é um carinho muito grande, seja num casamento, teatro, casamento, restaurantes, nas ruas, batem fotografia a todo instante, chegam para mim e dizem: “Você vai ter de me engolir!”. É muito legal.

iG: O senhor venceu Copas do Mundo como jogador, como técnico e como coordenador. Há diferença? Qual foi a mais marcante?
Zagallo: São coisas diferentes, como jogador você está ali dentro das quatro linhas, fui através do (Vicente) Feola uma mudança tática no futebol brasileiro. E, em 1970, transformei a seleção que me foi entregue jogando em um 4-2-4. Coloquei jogando em bloco, como acontece hoje, com cinco jogadores que eram camisas 10 juntos: Jairizinho, Tostão, Gérson, Pelé e Rivelino. O Piazza, que era volante, foi para quarto zagueiro, Rivelino de ponta esquerda, Carlos Alberto Torres de lateral e ala, enfim, era uma equipe fantástica, com reconhecimento mundial.

Veja também: Treinadores exaltam as inovações de Zagallo

iG: Qual foi sua maior dificuldade e o que mais te ajudou ao assumir a seleção de 70?
Zagallo: Em 70 faltavam dois meses para a Copa do Mundo, mas eu treinava diariamente e tive uma felicidade muito grande. Tinha as minhas idéias fixas e isso me fortaleceu muito, especialmente com os jogadores. Houve um envolvimento muito grande e isso contribuiu muito para o sucesso daquela equipe.

iG: O senhor afirmou que o Ronaldinho jamais poderia jogar na seleção novamente. Depois das atuações recentes, o senhor continua com a mesma opinião?
Zagallo: Acho que houve um engano nas minhas palavras. Falei, quando ele saiu da Europa, que o Vanderlei Luxemburgo saberia colocá-lo numa posição que ele pudesse jogar. E foi o que ele fez. O Ronaldinho está solto, à vontade, não precisa voltar quando perde a posse, e essa é a posição que ele pode jogar. Jogou agora três boas partidas, mas não como era antigamente. Contra o Santos (em partida na qual o Flamengo venceu por 5 a 4) fez um jogo muito bom. Mas o que eu disse é que ele não tem mais condição orgânica de ser um homem de meio de campo, de fazer uma dupla função com a bola e sem ela. Aonde ele está jogando, lá na frente, pode jogar. Agora, se o Mano Menezes vai convocar ou não, é outra história. Mas como homem de meio ele não tem condição de fazer a dupla função.

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No comando da Portuguesa, em 1999, sua única passagem no futebol paulista
iG: O senhor conviveu com três dos maiores jogadores de todos os tempos: Pelé, Garrincha e Nílton Santos, além de muitos outros craques. Agora, aos 80 anos, quais as lembranças que o senhor guarda dos três?
Zagallo: O Pelé é incrível, inacreditável, mas é uma realidade. É o melhor do mundo, com quem tive a oportunidade de jogar e depois comandar, em 70. Ali foi a sua grande Copa, jogou todos os jogos. Uma satisfação dobrada, uma grande honra. Garrincha e Nílton Santos foram dois excepcionais jogadores, tanto no Botafogo, quanto na seleção brasileira em 58 e 62. Tudo o que o Mané fazia no Botafogo, fez para o mundo inteiro ver, além do Nílton, experiente, que mostrou toda a sua categoria nos mundiais.

iG: Na Copa de 94, alguns jogadores relataram que, após a partida contra a Holanda, o senhor disse a todos no vestiário que ninguém tiraria mais aquela conquista do Brasil. O que o senhor lembra dessa partida?
Zagallo: Foi assim, sem dúvida. Quando o jogo estava 2 a 0, eu até já tinha respirado fundo, aquela sensação de “já passamos”. Mas sofremos dois gols e foi quando tivemos a felicidade daquele gol do Branco e ganhamos. O resultado fez justiça ao que fizemos quando estava 2 a 0. Aí depois falei aos jogadores que dali para frente ninguém nos tiraria aquela Copa, porque a seleção havia mostrado que tinha equilíbrio e determinação para seguir em frente.

iG: Qual o presente que o senhor gostaria de ganhar aos 80 anos? Quais os planos para a Copa de 2014? Pretende estar no grupo?
Zagallo: O que eu mais desejo na minha vida é saúde, que Deus me dê muitos anos ainda. Se Deus quiser, em 2014, estarei torcendo pelo Brasil. Participar efetivamente é o destino de cada um que vai dizer, mas estarei ou dentro de um estádio, ou pela televisão, ou no vestiário e no campo, torcendo pelo Brasil.

 

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