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Futebol
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Velhos parceiros e amigos lembram histórias "lado B" de Ronaldo

Perda de milhões, lesões, brigas e polêmicas com outros astros fizeram parte do cotidiano do "Fenômeno"

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

Antes de se tornar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo com 15 gols, de ser o artilheiro do Mundial de 2002, trazendo o penta para o Brasil, Ronaldo era um garoto nascido em Bento Ribeiro e que sonhava se tornar profissional enquanto treinava e jogava no modesto São Cristóvão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Nesta época, um empresário teve a chance de lucrar milhões com o atacante, então com 16 anos, mas acabou levando apenas R$ 100 mil. Essa e outras histórias, como o sofrimento após a ruptura total do tendão patelar na Inter de Milão, as cobranças de Raúl, capitão do Real Madrid, e a reconciliação com seu braço direito, Rodrigo Paiva, hoje diretor de comunicação da CBF, foram contadas por pessoas que conviveram diretamente com o craque que anunciou, na segunda-feira, a sua despedida dos gramados.

Léo Rabello perdeu milhões ao vender Ronaldo para o Cruzeiro
Ronaldo ganhou fama no mundo respaldado pelos empresários Reinaldo Pitta e Alexandre Martins, sócios que posteriormente se separaram do atleta e tiveram problemas com a Justiça, chegando a ser presos. Porém, antes do estrelato do atleta, Pitta dividia os direitos sobre o atacante com outro empresário conhecido no futebol, Léo Rabello. Já no São Cristóvão, Ronaldo teve 50% dos seus direitos comprados por Pitta e a outra metade por Rabello que, no entanto, preferiu vender a sua parte quando jogador se transferiu para o Cruzeiro. Rabello ainda chegou a receber comissão na venda de Ronaldo para o PSV, da Holanda, e ri ao lembrar do caso.

“O que eu vou fazer?”, se diverte Rabello quando indagado sobre o arrependimento de ter vendido sua participação sobre os direitos de um astro prematuramente. “Fui eu que o levei para o Cruzeiro e para o PSV. Eu o comprei do São Cristóvão com o Pitta e vendi para o Cruzeiro. Eu tinha 50%, vendi a minha parte por R$ 100 mil, seria o valor correspondente a isso hoje. Mas depois ganhei também uma comissão na venda para o PSV. O São Cristóvão não tinha nada. Eu e o Pitta somos amigos até hoje. Já brincamos sobre isso muitas vezes. Conheço bem o Ronaldo, mas nunca mais tive contato com ele”, completou o empresário. A venda de Ronaldo para o PSV gerou cerca de US$ 6 milhões. A transferência seguinte, para o Barcelona, rendeu cerca de US$ 20 milhões.

Rodrigo Paiva fala sobre a briga e as pazes no fim de 2010
Quem conviveu durante mais tempo, e com mais intensidade, com o atacante, foi Rodrigo Paiva, atual diretor de comunicação da CBF. Durante mais de seis anos, ele acompanhou de perto o auge e a fase mais complicada da carreira do jogador. Uma “divergência” sobre a qual Paiva não deu detalhes no dia do casamento de Ronaldo com a modelo Daniela Cicarelli, em 2005, afastou os dois, mas a reconciliação, embora tenha demorado, aconteceu no fim de 2010, em encontro no Leblon, no Rio de Janeiro. Em entrevista ao iG, Paiva falou pela primeira vez sobre o racha e a reaproximação com o amigo.

Gazeta Press
Ronaldo até fez uma tatuagem no pulso para Cicarreli, relacionamento que o fez brigar com Paiva
“Lembro que foram mais de seis anos que convivemos praticamente morando na mesma casa, porque na Itália eu ficava na casa dele. Acompanhei alguns dos momentos mais importantes da carreira, o título mundial e as duas lesões mais graves que teve. A Copa de 98 acabou em agosto e comecei a trabalhar com ele em dezembro. Não quis falar dele por muitos anos, mas agora eu posso falar porque acabou, não temos mais nada de trabalho, de dinheiro. Só coisa boa para frente. Tivemos uma divergência no dia do casamento dele, nem fui no casamento, mas nunca teve mágoa. A gente se distanciou porque tinha perdido o sentido. As coisas tinham mudado, o foco era outro, não tinha muito cabimento. Parei de trabalhar com ele no momento que tinha de parar mesmo. Foi coisa dos dois. As poucas vezes que encontrei, ele foi sempre carinhoso, mas não paramos para conversar”, contou Paiva.

O encontro no fim de 2010, no Leblon, bairro onde Paiva nasceu e cresceu, trouxe de volta a antiga amizade. “A gente teve um encontro no fim do ano e foi uma catarse. Eu acho. Ele me deu um presente de Natal gigante que foi esse momento de poder conversar. Tudo conosco sempre foi verdadeiro. E agora é um momento que eu acho que ele poderá ter paz para viver com quem gosta dele de verdade, com quem não se aproximou dele para tirar proveito. É uma pessoa fantástica, tem muito mais a oferecer do que dinheiro e fama. Esse encontro foi no Rio, no Leblon. Inclusive eu sempre quis trazer ele para o meu bairro, aí nesse período afastado ele comprou um apartamento na rua ao lado da minha. Agora poderemos estar perto de novo. Tudo voltou, porque sempre foi de verdade. A minha relação com ele nunca foi por dinheiro. Eu não ganhava tanto assim e ele teve vários gestos comigo fantásticos que não tiveram nada a ver com dinheiro. Eu cuidava dele como se estivesse cuidando de mim, e vice-versa”.

O sofrimento e a depressão de Ronaldo
Em 1997, a Internazionale de Milão pagou US$ 32 milhões ao Barcelona por Ronaldo. Em 99, contudo, começou a fase mais complicada da carreira do jogador. No dia 21 de novembro, ele pisou em um buraco no gramado quando enfrentava o Lecce e sofreu uma lesão no joelho, ruptura parcial do tendão patelar, que o afastou dos gramados por cinco meses. No retorno, o que era para ser festa se transformou em tragédia. Ronaldo voltava ao campo no dia 12 de abril de 2000, no início do segundo tempo. Foram pouco mais de seis minutos em campo. Recebeu a bola no ataque, partiu para cima da zaga, e a imagem da ruptura total do mesmo tendão ganhou o mundo. Rodrigo Paiva conta como foi a recuperação que durou mais de um ano:

AP
Ronaldo cai depois da lesão no joelho em 2000
“Eu ficava o tempo todo ao lado dele nas lesões, foi muito difícil. Naquele momento não havia nenhum relato de alguém que tivesse sofrido aquela lesão e conseguido voltar a jogar futebol. Foi muito trágico, porque era o momento da volta. O mais duro foi ali na hora, em termos de emoção, mas a recuperação foi dura demais. A gente foi morar nos Estados Unidos, em uma estação de esqui no verão, não tinha ninguém, era deserto, e depois teve uma parte em um local isolado na França. O César (secretário de Ronaldo) ficava com a Milene, que estava grávida do Ronald, e era eu e Filé (fisioterapeuta Nilton Petrone) o tempo todo junto com ele. Teve um momento que ele entrou em depressão, mas as pessoas o empurravam para frente. Era um processo muito doloroso. Ele não conseguia nem dobrar a perna, tinha de fazer uma força gigante, chegava a chorar quando o médico fazia o exercício para tentar dobrar. Imagina alguém que não consegue dobrar a perna, como vai correr? Foi um processo que terminou graças a Deus em cima da Copa. Se a Copa de 2002 fosse três meses antes ele não teria jogado”, lembrou Paiva.

Preleção de Felipão e apoio do grupo em 2002
O amigo de Ronaldo lembrou também que a recepção do técnico Luiz Felipe Scolari e dos companheiros de seleção foi fundamental para o desempenho do atacante em 2002, conquistando o pentacampeonato mundial para o Brasil como artilheiro da Copa. “O Felipão quando o trouxe de volta ainda sem condições deu uma preleção e falou assim: ‘Não quero que o Ronaldo volte para marcar. Pode ficar lá na frente. Não podemos exigir que ele dê mais do que está dando. Aí o Cafu e o Émerson pediram a palavra e disseram: ‘Deixa o Ronaldo lá que a gente corre por ele, vai ganhar essa Copa para a gente. Faz o que você tem de fazer, Ronaldo, e o resto deixa com a gente. Cada um aqui fará o que puder para suprir o que estiver faltando em você e você vai recompensar a gente com o título’. Não deu outra”, contou Paiva.

Primeira frase ao sair de campo na final da Copa de 2002: “Deus foi muito bom para mim”
Após todo o sofrimento na recuperação, Ronaldo não esqueceu de quem esteve ao seu lado. Marcou dois gols na final da Copa do Mundo e, ao ser substituído, foi abraçar Paiva. “O que vai ficar marcado para sempre como resumo dessa história foi na hora que ele foi substituído na final da Copa. Saiu do campo, veio na minhadireção e disse: ‘Deus é muito bom para mim’. Naquele momento já éramos campeões do mundo com os dois gols dele. Aí nos abraçamos, choramos juntos. Realmente eu sabia o que ele queria dizer. Ele podia ter reclamado de tudo. Era como você ter o melhor carro do mundo e tirarem os pneus. Ali ele estava recebendo tudo em dobro. Ele podia voltar e jogar bem o Campeonato Espanhol, fazer um grande Italiano, ser o melhor de uma temporada, mas não, ele voltou na Copa do Mundo e foi o artilheiro. Trouxe a Copa para o Brasil”.

AE
Ronaldo foi decisivo e comemorou o título da Copa do Mundo de 2002

No Real Madrid, uma “perseguição boa” do capitão Raúl
Outra pessoa que conviveu com Ronaldo foi o preparador físico Antônio Mello, que sempre acompanha o técnico Vanderlei Luxemburgo. Atualmente, ambos estão no Flamengo e não foi diferente quando ele comandou a seleção brasileira e também quando dirigiu o Real Madrid. “O Ronaldo teve uma lesão que, para qualquer ser humano normal, significaria o fim da carreira. Só por isso, ele já seria um fenômeno”, disse.

Mello ressaltou o respeito que Ronaldo tinha mesmo em meio a craques do quilate de Zidane, Figo, Beckham e Raúl. Este último, porém, era o capitão da equipe e costumava “pegar no pé” do brasileiro, como contou o preparador. Mello lembrou que Raúl reclamava por Ronaldo não o acompanhar, ao lado de outras estrelas do grupo, nas corridas mais longas para manter a resistência. Dizia que outros questionavam. Foi então que o preparador resolveu fazer uma avaliação física para acabar com a polêmica:

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Ronaldo brilhou e sofreu no Real Madrid
“O Raúl era capitão do time e tinha uma certa perseguição com o Ronaldo. Mas era uma perseguição boa, não era ruim. E, no treinamento, ele achava que o Ronaldo deveria acompanhar alguns jogadores naquelas corridas mais longas. Eu disse ao Raúl: ‘O Ronaldo é velocista, você tem resistência’. Mas explicar isso é complicado, não tinha como mostrar. Então fiz uma avaliação física com todo o grupo e fizemos seis tiros consecutivos de 35 metros. Neste teste, o Ronaldo conseguiu colocar uma diferença de mais de seis metros em relação ao Raúl. Ou seja: numa corrida, que não foi o caso, ele terminaria com seis metros de vantagem, o que é muita coisa em um espaço de 35 metros. Aí mostrei o resultado ao Raúl e falei: ‘Está vendo? O Ronaldo é muito veloz, não é resistente. Ele não precisa ficar dando volta no campo para se condicionar’. Aí o Raúl só disse: ‘O senhor está certo’ e até me parabenizou pela avaliação”, contou.

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