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Francisco Moraes lembra a viagem para assistir ao título mundial, que completa 30 anos nesta terça

Francisco Moraes tem 71 anos de paixão pelo Flamengo , em um nível difícil de ser copiado por outros torcedores. Tem orgulho de dizer que jamais perdeu um jogo oficial de Zico , hoje seu amigo, pelo clube da Gávea ou pela seleção brasileira . Conheceu mais de 70 países, fez incontáveis viagens, tudo do próprio bolso. A conta, claro, foi cara. A dedicação ao Flamengo lhe custou três casamentos e um apartamento que teve de vender para pagar as dívidas que o dinheiro da família do Piauí não conseguia quitar. Ele foi um dos poucos rubro-negros que estiveram em Tóquio para ver a final do Mundial de 1981, diante do Liverpool , e não hesita em dizer: "A minha vida foi maravilhosa".

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A postura de Moraes, jamais se aproximando dos grupos de torcidas organizadas que pressionam e articulam politicamente dentro do clube, atrai respeito. Durante a entrevista ao iG , a presidente Patrícia Amorim chegou à Gávea. Parou o carro e fez questão de cumprimentar o torcedor, como também fizeram diversos outros funcionários e crianças quando passaram pela entrada na Avenida Borges de Medeiros. Mas ele não usa o prestígio para ter privilégios. É totalmente contrário à prática comum no clube de líderes de torcida se aproximarem e cobrarem os jogadores.

Francisco Moraes viajou 40 horas para ver o Flamengo disputar o Mundial contra o Liverpool
Vicente Seda
Francisco Moraes viajou 40 horas para ver o Flamengo disputar o Mundial contra o Liverpool

"Jogador é jogador, torcedor é torcedor. Não se misturam. Apesar de ter visto todos os jogos do Zico, de acompanhá-lo desde 71, só fui falar com ele pela primeira vez em Udine, na Itália, quando se apresentou ao Udinese. Eu estava completamente duro, mas tinha levado 50 camisas do Flamengo. O Zico, quando me viu, parou a entrevista e veio falar comigo. Eu queria que ele autografasse as camisas para que eu vendesse e, assim, pudesse pagar a viagem. Vendi cada uma por US$ 100. Hoje o Zico é meu irmão de dar cascudo, mas naquela época ele era o Zico e eu era um torcedor. Eu era até meio mal educado, não dava nem bom dia", conta.

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Ao lembrar da odisséia para ir a Tóquio em 81, conta que foram 40 horas de viagem, em um tempo onde cruzar o mundo era tarefa das mais complicadas, e raras. "Fui ver jogo na Líbia, no Iraque, no Zaire, imagina isso na década de 80. Não trocaria por nada. Chegando em Tóquio ainda fomos fazer uma faixa da torcida em japonês, o Leandro e o Raúl ajudaram. Era fantástico ver aquele time, foi um momento único. Mas o grande jogo mesmo foi a final da Libertadores contra o Cobreloa. Apanhamos, teve até tiro no nosso ônibus. O Flamengo tinha de ter feito uma carreata quando voltou do Japão. Depois, todo mundo fez", lembra Moraes.

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O torcedor ri da própria história quando recorda de suas ex-mulheres. Tem dois filhos com mais de 30 anos, uma neta e largou a primeira esposa quando ela lhe deu um ultimato. "Disse que era ela ou o futebol. Dançou (risos). Mas hoje somos amigos. A terceira é que me largou quando fui ver um jogo do Flamengo em Volta Redonda. Tenho muita raiva. Quando voltei, estavam meus ingressos de Tóquio queimados e as camisas rasgadas para virarem pano de chão, com um bilhete dizendo: 'Meu presente para você'. Se eu encontrar, taco fogo nela. Pode avisar ao delegado que fui eu", brinca.

Sobre o apartamento que teve de vender fala pouco, sabe que o tema atrai a ira dos filhos. Tratava-se de um imóvel em Copacabana, zona sul do Rio, que serviu para quitar dívidas com a agência de viagens. "Era cliente VIP, comprava pacotes com 10, 20 passagens. Só que no mês seguinte a conta chegava. Numa dessas, não tinha mais como pagar, já não tinha tanto dinheiro e tive de vender. Mas faria tudo de novo sem piscar. Tive uma vida maravilhosa. De 73 a 93 não perdi um jogo oficial do Flamengo. Ninguém do mundo fez o que eu fiz".