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Internado por hemorragia, ex-jogador rejeita dependência ao álcool: "Faz parte da sociedade, meninas hoje bebem como os pais''

Sócrates se recupera em casa da hemorragia estomocal que o deixou internado
Gazeta Press
Sócrates se recupera em casa da hemorragia estomocal que o deixou internado
Sobre uma prateleira de vidro, próxima à TV, os livros empilhados mostram a predileção do dono da sala pela leitura. Quatro volumes de “O Capital”, de Karl Marx, estão em destaque para não deixar dúvida que a casa é de Sócrates , fã do socialismo. Uma olhada mais de perto e surge o livro do jornalista Gianni Mina, com a entrevista que fez com o líder cubano Fidel Castro e que o “Doutor” leu em italiano mesmo, língua que aprendeu quando jogou na Fiorentina.

Poucas semanas antes de sofrer a hemorragia digestiva que o deixou internado por nove dias, Sócrates esteve com a esposa em Havana. “Se eu tivesse sangrado alguns dias antes teria encontrado Fidel e Chávez no hospital”, brincou, citando o presidente venezuelano Hugo Chávez, que esteve em Cuba para se tratar de câncer .

Quatro dias depois de deixar o hospital Albert Einstein, Sócrates já cantarola quando toma banho. Sua cabeça ainda está pesada, um pouco confusa, admitiu – e a musculatura se recupera depois de ficar mais de uma semana deitado em uma cama . Ao iG contou que seu fígado está apenas parcialmente comprometido e que vai se regenerar, o que descarta o transplante. O fator “álcool”, que segundo ele causou a hemorragia, é algo que vai conseguir evitar, sem ajuda de profissionais – a recomendação médica é não consumir mais álcool . Ele não se considera dependente químico e diz que o problema está relacionado aos hábitos da sociedade.

"A sociedade consome álcool desde sempre, talvez seja o estimulante mais antigo que exista. Algumas consomem mais, faz parte do cotidiano, algumas com menor incidência, por religiosidade, ou por outros motivos. Ele (álcool) faz parte integrante da sociedade. Não tenho ideia, com relação à economia, quanto uma cidade como São Paulo tem de botecos”, disse o ex-craque da seleção brasileira e do Corinthians .

Vício disse ter somente um e que está espalhado pela sala: os livros. Como ainda não pôde trazer sua biblioteca de Ribeirão Preto, cidade na qual nasceu e onde tinha residência fixa até pouco tempo, os exemplares da obra do filósofo alemão Nietzsche se misturam a “Cem anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez (em espanhol) e à compilação da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investigou a ligação da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) com a Nike e se transformou em um livro dos deputados Aldo Rebelo e Silvio Torres. Sua última leitura foi ""Os Últimos Soldados da Guerra Fria", a novidade de Fernando Morais, sobre espiões cubanos que atuaram nos EUA.

“Tenho uma dependência, a intelectual. Preciso ler, senão não consigo ficar sossegado. Bem menos mal do que beber uma garrafinha de vinho, não é?

Sócrates é contra a construção do Fielzão

Vinho? Nem pensar. Por isso Kátia, sua mulher, traz a bandeja com o lanche da tarde: uma garrafinha de água de coco, café, leite e cereal. Tomando uma xícara de café, Sócrates faz careta quando ouve os nomes de Garrincha e de George Best (jogador britânico), futebolistas que morreram devido a problemas relacionados com consumo de álcool excessivo. Formado em medicina, ele usas as terminologias médicas com cuidado, mas sabe do que está falando. Por isso não gosta de “rótulos”, como de que jogadores são “bêbados” e morrem por causa de bebida.

“Quase todo mundo consome álcool de alguma forma. Ontem ouvi uma frase: antigamente as meninas cozinhavam como as mães, atualmente bebem como os pais. É o estimulante mais barato que tem”.

No seu caso, o uso contínuo de álcool gerou uma lesão no fígado. Justamente no órgão do corpo humano que mais fascinava o estudante de medicina no final dos anos 70. Apesar de não se considerar dependente de álcool, usa a expressão alcoólatra para se definir porque diz que o termo não pode ser usado apenas para quem tem dependência química. “A terminologia é secundária, alcoolismo na verdade é dependência, seja ela química, psicológica, emocional, cria alguma dependência. Já estava 3 meses sem beber antes do sangramento, foi tranqüilo. De alguma fora é preciso evitar situações, ir para um bar por exemplo, você controlar isso, esse tipo de coisa. Existem pessoas que têm dependência química”.

Nem mesmo do cigarro Sócrates acha depender. Claro que os médicos pediram para ele maneirar e durante o bate-papo, de quase uma hora, ele fumou duas vezes . Na última pediu o cigarro para a mulher, que agora fica com os maços para controlá-lo. “É para maneirar, não para parar. Eu gosto de fumar, mas se precisar ficar sem, fico. Tem amigo que cola 15 adesivos de nicotina durante uma viagem de avião de mais de 12 horas, senão enlouquece. Eu viajo tranqüilo”.

Campanha
Sócrates foi convidado para trabalhar com o doutor Ben-Hur Ferraz Neto, especialista em transplantes de fígado. Justo o órgão que deixou Sócrates internado e que ele tanto gostava de estudar na época da faculdade. “Gosto de fisiologia, e o fígado centraliza boa parte dessas funções, mobilização de gordura, de carboidrato, mil funções de interesse”, contou. Nos dez anos que exerceu a medicina, após encerrar a carreira no final dos anos 80, a clínica tratava de medicina esportiva.

Quando se recuperar 100%, Sócrates pretende fazer campanhas, não só contra abuso de álcool, mas também contra racismo. Usará um personagem, um bonequinho seu, que terá uma faixa na cabeça (das que costuma usar) com frases provocativas. “Colaborar com a mobilização”. Mas ele jura que não será candidato a nada. Ou quase nada: à CBF, quem sabe...

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