Contratados para jogo em Manaus, Romário, Bebeto e Dunga elogiam prefeito Amazonino Mendes e vão à tribuna cumprimentá-lo, repetindo apoio a líder checheno

Romário e Bebeto se abraçam no jogo em Manaus, em que reeditaram parceria
Divulgação
Romário e Bebeto se abraçam no jogo em Manaus, em que reeditaram parceria
Romário foi a grande estrela da seleção que venceu a Copa de 1994. Dezessete anos depois, o hoje deputado federal (PSB-RJ) continua a ser o principal nome do grupo e atua com habilidade política para agenciar jogos, em troca de cachê de campeões do mundo. A seleção empresta seu prestígio a políticos por vezes controversos. No sábado, o ex-craque fez dois belos gols, na vitória de 5 a 2 contra um combinado master de Manaus (AM), com dois secretários do município, reforçado pelos ex-jogadores Edmundo e Túlio Maravilha.

nullPara todos vestirem a camisa amarela sábado,  Romário negociou um “bicho” de R$ 320 mil com a prefeitura local, administrada pelo polêmico Amazonino Mendes , a quem o craque chamou de “amigo” em entrevista coletiva. Ex-governador, o político foi acusado pelo Ministério Público de compra de votos, mas absolvido pelo Tribunal Superior Eleitoral, devido a um erro do MP na data do recurso. Em abril, discutiu com moradora de área de risco, que dizia morar lá por não ter aonde ir. "Minha filha, então morra! Morra!", disse, em vídeo que virou hit na internet.

Seleção em Manaus, antes de subir à tribuna para cumprimentar prefeito Amazonino
Raphael Gomide
Seleção em Manaus, antes de subir à tribuna para cumprimentar prefeito Amazonino
Cachê de R$ 320 mil para a seleção, sendo R$ 100 mil para Romário

Foi Romário quem reuniu o grupo que contou com o parceiro de ataque, Bebeto, além de outros nove integrantes daquela equipe. Do total, o principal craque recebeu sozinho R$ 100 mil, livres de impostos. O restante foi dividido entre o parceiro de ataque Bebeto , presença sempre exigida por quem contrata o time, outros nove campeões de 94 – Zetti, Márcio Santos, Ricardo Rocha, Aldair, Ronaldão, Dunga, Zinho, Paulo Sérgio e Viola – e atletas da Copa de 98, como Júnior Baiano.

Completaram o time ex-jogadores que jogaram poucas vezes pela seleção ou atuaram em clubes, recebendo R$ 5 mil cada, e da comissão técnica. Parte do dinheiro foi entregue aos atletas em cash, em um envelope, na noite de véspera da partida. A partida da seleção de 94 foi preliminar da final da Copa dos Bairros de Manaus, promovida pela prefeitura.

Não é a primeira vez que o time veterano empresta o seu prestígio à promoção de um político. Em março, durante o Carnaval, uma equipe nacional também liderada por Romário trocou o samba pela fria Chechênia para um amistoso com combinado local, que contava com o presidente da província, o polêmico Ramzan Kadyrov, aliado de Moscou. Como no Carnaval, sábado a equipe do Brasil acabou atuando como instrumento de propaganda a favor do político que a contratara.

Antes do início da partida, a seleção subiu a arquibancada para cumprimentar pessoalmente o prefeito Amazonino Mendes – vaiado momentos antes, ao ter o nome anunciado no estádio do Sesi, que recebeu 9.000 pessoas. Um a um, Romário, Bebeto, Dunga e os demais integrantes do time – reforçado por outros ex-jogadores – cumprimentaram o político local.

Perguntado pelo iG sobre o motivo da homenagem liderada por Romário, Amazonino respondeu: “A gente vem 'conversando' (esfrega os dedos polegar e indicador, em sinal de “dinheiro”)... Ele pode nos ajudar a soerguer o futebol daqui, nos orientar, fazer contratos conosco”, disse, referindo-se, entre outras coisas, ao projeto de criar um time profissional da prefeitura. Em entrevista coletiva, o ex-atacante chamara o prefeito de seu “amigo”.

Jogadores do tetra elogiam secretário de Esportes de Manaus em coletiva
Raphael Gomide
Jogadores do tetra elogiam secretário de Esportes de Manaus em coletiva
Há cerca de um mês, Romário já estivera em Manaus, para participar como convidado de outro evento, futebol de praia, em arena que reuniu 35 mil pessoas, segundo a organização. Na entrevista da véspera, ele, Dunga e Bebeto já haviam elogiado, com entusiasmo, o trabalho da prefeitura e do secretário de Esportes, Fabrício Lima. O total gasto com o evento foi cerca de R$ 500 mil, de acordo com o secretário.

A partida da seleção de 94 no fim de semana teve infraestrutura impecável, de um evento profissional. Os (ex-) atletas do Brasil ficaram em um hotel 5 estrelas, reservado, e tiveram direito a batedores da Polícia Militar e até a ônibus adesivado da seleção tetra.

Cerca de 300 PMs e 200 guardas municipais integraram a segurança do evento. A entrada do publico no estádio do Sesi era mediante entrega de um quilo de alimento, e um telão de 44m x 5m foi montado do lado de fora do estádio, para cerca de 2.000 pessoas. A TV local A Crítica e três rádios transmitiram a partida ao vivo.

Um esquema especial, com batedores e ônibus adesivado, foi montado a seleção
Raphael Gomide
Um esquema especial, com batedores e ônibus adesivado, foi montado a seleção

Romário marca dois e Bebeto um na goleada dos tetra

Na partida para a qual foi contratada, a seleção campeã de 1994 dominou a partida, deu show e venceu por 5 a 2, com dois gols de Romário, um de Bebeto, um de Zinho e um de Viola. A dupla Romário-Bebeto, segundo o primeiro a melhor da história do futebol, foi reeditada com sucesso mais uma vez.

O começo, porém, foi ruim, relembrando “peladas” de times amadores. Os jogadores pareciam estar frios, duros, sem conseguir esticar as pernas. A corrida resultava penosa para os quarentões, e a bola, a todo momento, fugia ao controle dos craques.

O time levou os primeiros 15 minutos para assumir o controle do jogo e chegou a levar um gol, marcado pelo secretário da Casa Civil de Manaus, Braguinha. “Foi sorte, também, aquele gol todo mundo faria”, desdenhou Amazonino, em tom de brincadeira. No Manaus, Edmundo corria muito, reclamava e era o principal perigo.

A partir de então, a seleção passou a cadenciar o jogo, e a exibir sua superioridade técnica para envolver os adversários e controlar o meio-campo. Dunga dava seus tradicionais passes de trivela, distribuindo o jogo com lançamentos para Bebeto e Romário e o ex-lateral direito Paulo Roberto, penetra”; Zinho corria conduzindo a bola e organizando a equipe. Atrás, o goleiro Zetti fez boas defesas e contou com a colaboração de uma zaga de respeito, com Márcio Santos, Aldair e Ronaldão. Ricardo Rocha atuou como treinador.

Zinho abraça Viola, após gol em Manaus
(Divulgação)
Zinho abraça Viola, após gol em Manaus
Zinho marcou o primeiro, em rebote na área, e comemorou cerrando o punho no ar. Romário reverteu o placar, aproveitando o rebote de cabeçada de Viola – que, minutos depois fez o seu, de voleio, comemorando muito. Bebeto fez lançamento perfeito de 30 metros para Paulo Sérgio, mas o goleiro rival defendeu o chute.

No segundo tempo, uma amostra da genialidade de Romário. Ele recebeu lançamento de Bebeto na entrada da área, dominou com o ombro e chutou de esquerda, de primeira e com precisão para marcar. O juiz anulou, alegando mão.

Três minutos depois, recebeu passe, matou da mesma forma e chutou por cobertura, fazendo praticamente uma reprise do gola anterior, anulado. Bebeto também marcou um, ao seu estilo, de voleio, acertando o canto.

Túlio Maravilha, contratado para atuar pelo Manaus, fez o segundo, de pênalti, após Edmundo ter tido um gol anulado, por impedimento.

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