Jerome Valcke diz que, para ter abertura, cidade não pode entregar o estádio após essa data, e explica gastos e preocupações

Complexo da Marina da Glória, que será palco do sorteio das Eliminatórias da Copa de 2014
Divulgação
Complexo da Marina da Glória, que será palco do sorteio das Eliminatórias da Copa de 2014
O secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, recebeu jornalistas em um hotel na zona sul do Rio para um café da manhã e uma conversa informal, onde se permitiu falar mais abertamente do que na coletiva do dia anterior, ao lado do presidente da entidade, Joseph Blatter, que acabou sendo dominada por questionamentos sobre os escândalos de corrupção . Afirmou, entre outras coisas, que o estádio de São Paulo, em Itaquera, poderá ficar pronto até fevereiro de 2014 e ainda ser incluído como sede da partida de abertura da Copa do Mundo, no dia 12 de junho de 2014. O problema seria ultrapassar este prazo, pois será necessária a realização de evento teste no local.

Valcke também afirmou que a cerimônia de abertura deverá ser curta, com menos de uma hora de duração, provavelmente no mesmo dia da estreia do Brasil. Ele afirmou que uma das preocupações é com a movimentação de pessoas, daí a atenção especial com aeroportos e transporte urbano , e acenou com a possibilidade de cada seleção fazer dois jogos na mesma cidade, por conta do tamanho do país e, portanto, o desgaste no deslocamento.

Confira as principais questões abordadas na conversa com Jerome Valcke:

Cronograma de jogos
“A primeira coisa é levar em conta todas as partes interessadas, os times, os torcedores, a televisão. O Brasil é um país grande, temos que levar em conta todos os elementos. Na África do Sul era mais fácil para se deslocar entre a Cidade do Cabo e Joanesburgo, aqui é mais complicado para ir de Porto Alegre para Fortaleza. Em Porto Alegre está fazendo 3°C, em Recife, 25°C. Existem muitas diferenças, na primeira versão levamos em conta os aspectos do país. Tivemos várias versões, provavelmente a oitava versão será a definitiva que apresentaremos ao comitê executivo. Na África, tivemos dois jogos no primeiro dia. E já disse que não quero dois jogos no dia de abertura. Haverá dias em que quatro jogos serão disputados. São todos esses elementos que temos que tentar ajustar e é algo que não pode ser feito em uma semana”.

Horário dos jogos
“Não posso contar ainda. Ainda temos que trabalhar com o Comitê Organizador Local (COL), mas os horários já estão definidos, estamos trabalhando com o COL para garantir que tudo seja conveniente para os brasileiros, do interesse dos torcedores”.

Sexta-feira 13 ou dia dos namorados
Nunca tinha pensado nisso. O dia 12 foi escolhido porque queríamos apenas um jogo no dia da abertura, por isso tivemos que adiantar o início da Copa em um dia . Interessante ter perguntado isso, nunca pensei antes. Algumas pessoas acham que o dia (a sexta-feira 13) dá sorte, depende da região que você vem”.

Cerimônia de abertura
"O foco da Fifa é um pouco diferente do Comitê Olímpico Internacional (COI). Na Olimpíada, a cerimônia é um show e tem valor como todas as outras competições. Na Fifa, pensamos que as pessoas querem futebol, jogos. A abertura é ver o Brasil no jogo de abertura. É por isso que no dia de abertura teremos uma cerimônia curta com uma hora ou menos, e vão retirar as proteções para permitir que o Brasil possa jogar."

Paciência com São Paulo por parte da Fifa e do COL

Complexo da Marina da Glória, que será palco do sorteio das Eliminatórias da Copa de 2014
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“A decisão sobre os estádios foi apenas na semana passada porque foi quando tivemos todas as confirmações. Boa parte dos estádios devem estar prontos no final de 2013, acho que São Paulo seria mais para o início de 2014. O que está ok para Fifa, tenho de ressaltar. Não temos nada contra receber o estádio em fevereiro de 2014 . Mas tem de ser fevereiro e não em abril. Agora estamos tentando determinar onde será o jogo de abertura. A final está evidente, mas se pensarem nisso não existem muitas cidades que poderiam acolher a final, um estádio que poderíamos imaginar a final e a recebeu há 61 anos atrás. Temos que decidir onde os outros jogos serão jogados, onde serão disputadas as semifinais,o jogo de abertura..."

"Temos que determinar quais serão as cidades em termos de capacidade, movimento de torcedores, facilidade de deslocamento. Em outubro vamos indicar onde os jogos vão acontecer. Alguns dizem que São Paulo é a porta de entrada para o Brasil, São Paulo é a maior cidade do Brasil, mas também temos que determinar onde será o congresso da Fifa, na mesma cidade na qual acontecerá o jogo de abertura. É uma cidade que pode receber todas essas pessoas. Mas também temos que pensar talvez num concerto um dia antes da abertura como na África do Sul e precisa ser uma cidade que possa acolher vários elementos.. Peço que esperem até outubro para ouvir essa decisão”.

Deslocamento de times e torcidas
“O Brasil é tão grande. No início pensamos em dividir o Brasil em quatro regiões para evitar deslocamentos muitos longos e frequentes dos times. Essa possibilidade de as seleções jogarem duas vezes na mesma sede faz parte das nossas opções”.

Arbitragem, chip na bola e auxiliares
“São dois órgãos que precisam decidir. O comitê executivo da Fifa e International Board. Todas as decisões vão ser feitas depois da Euro 2012. Vamos ter uma reunião para decidir tudo isso, assim como a questão dos árbitros e assistentes complementares . Poderíamos ter a partir de 2013 essa tecnologia e os árbitros complementares. Sobre a tecnologia na linha do gol, não estamos falando de vídeo. É um sistema para determinar se a bola saiu ou não do campo. A lógica é que, se fizerem isso, por que não colocar o vídeo?

" O vídeo ajudaria o árbitro em todo o campo, não apenas na linha do gol perguntariam as pessoas . Se pudermos evitar contestações, reclamações, por que não? Essa decisão do gol muda tudo, decide um campeão, decide um finalista. Quanto aos assistentes adicionais, o que vimos até agora é que eles podem ajudar o árbitro a tomar decisões e de uma certa forma podem trazer mais paz à área, evitar situações mais agressivas, puxões por exemplo na zona do gol. Vemos que com os árbitros suplementares, os jogadores ficam menos agressivos naquele espaço. Porém, é complicado para todas as confederações. A primeira é uma questão de tecnologia, que podemos organizar com os fornecedores para não sair tão caro. A segunda é uma questão humana e precisaremos de mais árbitros de qualidade”.

Questões preocupantes além dos aeroportos

“Temos muitas preocupações. Sabemos que teremos os estádios, vão estar prontos. Precisamos de oito cidades para uma Copa, e temos 12. A questão é quantos estádios vão ficar prontos, mas não é um problema. Quando se fala de Copa o que interessa é o deslocamento das pessoas e por isso nos preocupamos tanto com os aeroportos . Precisa haver uma facilidade de deslocamento para os torcedores, dentro das cidades e de uma sede para outra. Não estou falando dos funcionários da Fifa, das delegações, pois teremos batedores, o que facilita, mas queremos não apenas uma área vip cheia, queremos o resto do estádio cheio, então os torcedores precisam se deslocar com facilidade."

"Sabemos que o Brasil é enorme e temos que garantir um sistema de transporte público. Quando nós vemos o transporte no Rio, as pessoas têm dificuldade, o transito está congestionado. É preciso ter hotéis de várias categorias, não apenas de cinco estrelas, mas também os que as pessoas em geral possam pagar. Acho que o maior legado que para a África foi o trem em Joanesburgo que leva do aeroporto para a cidade em minutos”.

Possibilidade de diminuição no número de sedes
”Hoje nós temos 12. São poucas as cidades que os estádios estão atrasados. Eles precisam acelerar um pouco para respeitar o cronograma. Em 2010, nós tínhamos certeza que uma das cidades não estaria pronta para a Copa das Confederações. E havia um problema político, tivemos de excluir Porto Elizabeth. Ou seja, se tivermos de tomar uma decisão, tomaremos, mas por enquanto tenho a impressão que teremos 12 cidades. Isso pode mudar em seis meses, mas hoje, a impressão é essa”.

Bahia e Mato Grosso negociam mudança de transporte para Copa de 2014

Possíveis protestos no sorteio das eliminatórias
Não penso que o Pelé como embaixador da Copa conseguirá parar os protestos sozinho. Espero que ele não seja usado para entrar nesse tipo de assunto . Espero que os protestos, se houver, não atrapalhem o sorteio. Nenhum país do mundo consegue organizar uma competição desse tamanho sem investir dinheiro. Talvez Estados Unidos, Alemanha, agora a África do Sul, mas mesmo a França para a Euro de 2016 está construindo estádios. É preciso ter dinheiro público quando se trata de infra-estrutura, de transportes. Tudo o que for feito nesse sentido deixará um legado."

'Dizem que esse dinheiro será gasto pela Copa, mas talvez fosse um investimento a ser feito nos dez anos seguintes, a Copa acelera o processo. E as pessoas perguntam porque a cidade está gastando tanto. Foi a cidade do Rio que decidiu receber Olimpíada e Copa, o que a transforma no centro do mundo até 2016. A cidade acolheu o sorteio preliminar, mas as outras cidades também precisam ter oportunidades. O sorteio final não deverá ser no Rio. Não pedimos ao governo ou à prefeitura para gastar esse dinheiro para o evento. Eles decidiram por isso”.

Complexo da Marina da Glória, que será palco do sorteio das Eliminatórias da Copa de 2014
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Complexo da Marina da Glória, que será palco do sorteio das Eliminatórias da Copa de 2014

Investimento público em estádios
Não estou pedindo para escrever o que estamos falando, mas temos feito tantas coisas boas, o futebol é uma grande plataforma . Encontramos pessoas para falar de como a Copa pode ajudar a floresta tropical, por exemplo. Temos 32 dias para utilizar a Copa do Mundo como plataforma para ajudar um monte de causas. O dinheiro que será gasto nos estádios não se compara ao que será gasto nas estradas, nos aeroportos. E isso será um legado. A maior parte do dinheiro será utilizada para modificar o país. Serão investimentos para o futuro. Digo sim que é muito dinheiro, mas temos que ver o panorama geral”.

Experiência na África para a Copa no Brasil
“Penso que aprendemos muito na África do Sul. A situação é um pouco parecida em termos de infra-estrutura. Conseguimos uma experiência na Copa que pode nos ajudar fazendo com que as coisas fiquem prontas. Na África gastamos muito nos estádios, mas não levamos em conta o gramado. No Brasil já indicamos uma empresa para isso. Na Alemanha, os campos já são bons, o sistema de transporte também funciona bem, não precisa se tomar avião porque o país é pequeno... Podemos dizer que o Brasil é maior do que a África do Sul e foi melhor ter tido essa experiência”.

Preparação das seleções e Santos x Flamengo
Não vi o jogo, mas me disseram que foi fantástico . O pessoal falou que o futebol na África não foi o melhor nível, e nós queremos que o futebol sempre seja o melhor possível. Alguns jogadores chegam exaustos na Copa e estamos trabalhando com os clubes para ver como podemos solucionar isso. O Ricardo Teixeira disse que o Brasil deveria sair com a sexta estrela, mas todos vão querer ganhar do Brasil”.

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