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Futebol
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Ricardo Gomes tenta mais uma vez fazer sucesso no Brasil

Técnico do Vasco lembra altos e baixos da carreira e aponta caminho para uma temporada regular

Hilton Mattos, iG Rio de Janeiro |

O dinamismo do futebol altera a rotina dos seus praticantes. Continentes, culturas, idiomas, hábitos. Tudo isso faz parte da vida de jogadores e técnicos atrás do simples ganha-pão ou de fortunas. Rico, culto, Ricardo Gomes, de volta ao Brasil desde 2010, vive, aos 46 anos, um novo capítulo nesse universo de conhecimento e transformação. E o Vasco lhe abre as portas para mais uma tentativa de sucesso na carreira em seu país.

Líder do grupo A da Taça Rio, com nove pontos, o time de São Januário desfruta de uma colocação jamais vivida na atual temporada. Depois de um começo irregular, a equipe parece ter engrenado. A vitória convincente de 2 a 0 sobre o Botafogo, no domingo, indica tal mudança.

Nesta entrevista ao iG, o carioca Ricardo Gomes fala dos altos e baixos da profissão. Uma passagem não podia ficar de fora: o fracasso no Pré-Olímpico de 2004, quando perdeu a vaga para os Jogos de Atenas com um time liderado por Diego e Robinho.

É na vida pacata ao lado da mulher, Claudia, com quem está casado há 25 anos, que ele busca o equilíbrio para os desafios do dia a dia no futebol. Pai de Diego (23 anos) e Ana Carolina (19), procurar estar junto da família em sua confortável casa na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. O treinador revela o medo de “perder” os filhos. Quer tê-los por perto enquanto ainda vivem sob o mesmo teto.

Nas horas vagas, o homem que morou em Lisboa, Paris e Mônaco curte as belezas da Praia Vermelha, a Floresta da Tijuca, o Jardim Botânico e a praia de Ipanema. Não dispensa as culinárias francesa e portuguesa, além de uma boa massa, o vinho sagrado no jantar e o cinema. O estilo discreto se reflete no trabalho. Gomes pouco se envolve em polêmica.

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Ricardo Gomes: vida à francesa no Rio de Janeiro
Ao iG, ele conta que se tiver de aparecer será com o trabalho. Atrás de um título que o consagre, sabe quer o sucesso do Vasco no Campeonato Carioca lhe trará notoriedade. Para terminar a temporada empregado e respeitado, avisa que tem até o mês de maio para definir o elenco. Passando deste prazo, periga ir mal das pernas no Brasileiro.

iG: Você está há um ano de volta ao Brasil. Qual a diferença entre o trabalho aqui e na Europa?
Ricardo Gomes: Aqui existe falta de maturidade. Você acha que não há cobrança no Real Madrid, por exemplo? Claro que existe. Mas é uma cobrança com qualidade. Eles oferecem estrutura, jogador, e quando te cobram, fazem com equilíbrio. Não tomam atitudes apenas em cima de resultados.

iG: Por falar em estrutura, sentiu diferença entre o São Paulo e o Vasco?
Ricardo Gomes: O São Paulo oferece mais campos. Um é pouco. No São Paulo, tem os campos A, B e C. Se você quiser fazer um treino específico, divide o grupo e coloca um em cada campo. E se dentro do centro de treinamento houver restaurante e local para repousar, melhor ainda. Atleta precisa de boa alimentação e repouso também. Aqui no Vasco, falta mais um campo. Seria ideal. Mas, numa coisa, o Vasco é muito bom: a comida daqui é ótima (risos). No Rio, a cultura dos clubes é diferente, mas é gostosa também. Quer ver? O jogador muitas vezes recebe o carinho do torcedor ali no alambrado, isso motiva. Enfim, são maneiras diferentes de se trabalhar. E o que importa nisso tudo é bola na rede.

iG: Você virou técnico por necessidade financeira ou por gostar da profissão?
Ricardo Gomes: Hoje, faço porque gosto. Não estou rico, vivo bem. Mas já precisei como o meu ganha-pão.

iG: Você encerrou cedo sua carreira de jogador, aos 31 anos. Foi vencido por alguma lesão?
Ricardo Gomes: Sim. Parei em 1996, no Benfica. Vou copiar o Ronaldo: Você tem a primeira morte quando para de jogar. Mas não tinha jeito. Operei o joelho aos 19 anos, no Fluminense. Foi uma lesão feia: menisco, ligamento cruzado lateral. Fiquei dois meses internado. Aí quando o médico do Benfica me operou pela segunda vez, ele me aconselhou a parar. Seria muito sofrimento. E como, um ano antes, havia recebido proposta do Paris Saint Germain para ser treinador, decidi me aposentar. Foi difícil, mas parei. As dores eram maiores do que o prazer de jogar.

iG: É difícil saber a hora de parar?
Ricardo Gomes: É. É muito difícil. O ambiente no futebol é muito saudável. É complicado para o jogador tomar a decisão. No futebol, você lida com boa alimentação, atividade física, vida saudável. De uma hora para outra você troca tudo isso? Não é fácil. Ainda mais se o atleta não tem uma lesão que o apresse a parar com o peso da idade.

iG: Você vem de classe média do Rio, estudou, cursou faculdade. Tem um perfil diferente da maior parte dos jogadores...
Ricardo Gomes: Cursei Engenharia e Administração. Primeiro, fiz Engenharia na Gama Filho. Mas não estava rendendo. Entrei na faculdade com 17 anos, quando me profissionalizei no Fluminense. Fiz apenas oito meses. Depois, fui fazer Administração. Cheguei a cursar dois períodos. Foi quando veio a lesão no joelho, no (Campeonato) Brasileiro de 84. Fiquei parado, sem andar...E nisso o meu limite de faltas extrapolou. Sou carioca, filho de um sargento da Aeronáutica, criado no Maracanã com mais três irmãos. Estudei no Pedro II da Tijuca. Uma vida normal.

iG: Como você classifica o nível do jogador no Brasil e na Europa?
Ricardo Gomes: Na Europa, há uma política de esporte nos ensinos primário e secundário. Trata-se de um problema social.

iG: No Brasil, você ainda está se firmando como treinador. Passou por momentos difíceis, não?
Ricardo Gomes: uns bons, outros ruins.

iG: Os bons foram logo após os dois anos que passou no PSG (97 e 98)...
Ricardo Gomes: Dirigi Vitória duas vezes, Sport, Guarani e Juventude. No Juventude, fizemos uma campanha maravilhosa em 2003, chegando em quarto lugar no Brasileiro.

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Gomes comandou a reação vascaína no Campeonato Carioca
iG: Na sequência, veio o pior ano da sua carreira. O fracasso com a Seleção Pré-Olímpica deixou marcas?
Ricardo Gomes: Deixou. Não fomes bem. Quando a preparação não é boa, a competição não é boa também. Treinamos um time, mas na hora H jogamos com outro. Disputamos o Pré-Olímpico (Chile) sem Kaká, Luisão, Thiago Mota e Júlio Baptista. Na final, perdemos Maicon e Fábio Rochemback. Mas, mesmo assim, dava para se classificar, pois tínhamos um time de categoria. Perdemos o jogo para o Paraguai (1 a 0) e não fomos para a Olimpíada. Culpa nossa. Mas vai um alerta: No Brasil, não temos Seleção Olímpica. Temos a Sub-20, a Pré-Olímpica você monta e bota para jogar às vésperas da competição. É difícil. Não fui o único a não classificar.

iG: No Vasco, as coisas estão dando certo até o momento...
Ricardo Gomes: Posso dizer que não tenho do que reclamar. Felizmente, as coisas estão conspirando a favor. Isso é importante, e ajuda bastante. Mas nada disso foi possível sem trabalho. Encontrei um time fragilizado emocionalmente, cheguei com a missão de mudar este quadro. Fui feliz logo na estreia. Em pouco tempo, jogadores, torcida, clube, todos caminharam numa mesma direção. Os jogadores recuperaram a confiança, a alegria, e os resultados voltaram a aparecer.

iG: Vencer clássicos é importante?
Ricardo Gomes: Não tenho como avaliar o meu elenco, por mais que ele, no papel, seja forte. Só sabemos se o grupo é realmente bom em jogos decisivos. Ali se avalia o potencial do time, virtudes e carências.

iG: Diego Souza chega para resolver?
Ricardo Gomes: Diego Souza não foi bem em 2010. Precisamos vê-lo mais. Ele vai somar, não vai resolver.

iG: Como você avalia o seu elenco? Acha que precisa de mais contratações?
Ricardo Gomes: O período do ano ainda é de análises. Mas uma coisa é certa: se chegarmos em setembro precisando de contratação é porque alguma coisa está errada. A menos que seja um acidente, o ideal é chegar em maio com o elenco todo definido. Depois, trazer uma peça ou outra. Não podemos, repito, chegar no meio do Brasileiro desesperados por reforços.

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