Karioca, artilheiro nas categorias de base, revela ao iG que sonha em reviver dupla com Neymar

David Lessa da Silva, o Karioca, foi um dos primeiros companheiros de ataque de Neymar nas categorias de base do Santos , mas teve sua carreira transformada em uma "história de filme" em novembro de 2006. Artilheiro do time sub 15 e considerado uma das grandes promessas do clube, o atleta confessou que era “gato”, termo usado no futebol para um jogador que adultera a idade. Em vez de 15, Karioca tinha 20 anos, e usava o nome de outra pessoa para jogar futebol.

A história do jogador, que também virou “pastor evangélico”, veia à tona por ele mesmo, já que Karioca confessou na Justiça sua verdadeira idade. Quase cinco anos depois, ele decidiu falar sobre o fato com exclusividade ao iG .

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Além de revelar os bastidores e o sofrimento que passou na vida profissional e pessoal, o atacante falou com orgulho da amizade com Neymar, e pediu aos dirigentes santistas uma nova oportunidade para reeditar a dupla de ataque com o amigo.

“É um sonho que eu tenho: jogar um dia do lado do Neymar e do Ganso no Santos. Eu sei que se a oportunidade bater na porta, eu vou abraçar. Eu sei que posso jogar no Santos novamente”, disse o atacante.

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Karioca alega que o empresário que o levou para o Santos e os próprios diretores do clube da Vila Belmiro na época, foram os responsáveis por fazer seus documentos. Ex-menino de rua do Rio de Janeiro, o jogador não tinha documentação quando chegou a Vila Belmiro.

Após a mídia descobrir sua história, Karioca sofreu uma mudança radical na sua vida. O atacante que sonhava em chegar ao profissional junto com Neymar, passou a frequentar os tribunais e foi abandonado pelo Santos. O clube seguiu os conselhos do então técnico Vanderlei Luxemburgo, que achou melhor emprestar o jogador e não aproveitá-lo na equipe profissional. Karioca acredita que o treinador temia por comparações, já que Luxemburgo também teve problemas com a idade adulterada.

Enquanto aguarda por propostas, o atacante exerce a função de missionário e viaja o Brasil anunciando sua fé e contando sua história de vida. Após formar dupla de ataque com Túlio Maravilha nesta temporada, atuando pelo Canedense, de Goiás, Karioca está desempregado.

Em 2006, os amigos Neymar e Karioca formavam a dupla de ataque da equipe sub 15 do Santos
Arquivo pessoal
Em 2006, os amigos Neymar e Karioca formavam a dupla de ataque da equipe sub 15 do Santos

Confira a entrevista exclusiva com Karioca:

iG: Como começou essa história de gato?
Karioca: Eu morava no interior do Rio de Janeiro. Comecei a viajar para a casa de parentes a busca de trabalho. Fui alguns mercados, mas como não tinha documentação eu voltei para a casa, pois não conseguia emprego. Nesse intervalo, precisavam de um jogador para completar um time na várzea, fiz quatro gols, e um rapaz me disse que eu tinha futuro com a bola. Mas, eu disse que não tinha documento, mas ele disse que providenciava tudo. Na época só dava Robinho e Diego. Fiz a “peneira” e o Santos gostou de mim.

iG: E a documentação?
Karioca: Quando perguntaram da documentação disse que meu empresário que sabia, e ele com o Santos resolveram tudo. Comecei a jogar, fazer gols e as pessoas falavam de mim. Eu tive uma proposta do PSV, da Holanda. Caiu nos ouvidos do Santos e começaram a ir ao Rio de Janeiro (uma espécie de ameaça), mas não sabiam quem eu era. Só denegriram a minha imagem, pois eu tinha essa proposta.

iG: O Santos fez isso para você não jogar na Europa?
Karioca: Eles foram atrás da minha documentação. O Santos oferecia todo dia um contrato para eu assinar, foi quando o Neymar foi para o Real Madrid e deram R$ 1 milhão de luvas para ele. Foram no alojamento com o contrato na mão para eu assinar.

iG: O Santos queria esconder, mas você confessou a verdade ao juiz?
Karioca: Por ai, a respeito da mídia não tinha vazado nada. Eles queriam pedir outra certidão, pois eu falei que era um menino de rua. Mas não teve como pedir a certidão. Eu falei, confessei para eles. Falaram que iam pedir uma certidão nova com o juiz, que eu disputar um campeonato no final do ano. Eu estava perdido, e o Santos falava isso para mim.

iG: Como você revelou a verdade ao juiz?
Karioca: Eu perguntei o que eles (Santos) iam fazer, eles disseram que iam dar um jeito na minha documentação, mas eu falei para o juiz: meu nome é Davi, falei o nome dos meus pais, disse que tinha pai e morava na rua. Eu falei que estava confessando, pois essas pessoas são gananciosas.

iG: Você era o único caso de “gato” no Santos?
Karioca: O próprio advogado do Santos falou para o juiz na minha última audiência, no dia 6 de abril, que o Santos descobriu oito ou nove casos, e porque só o meu nome foi para o jornal. Está no depoimento.

iG: Como foi jogar com o Neymar?
Karioca : Eu conheci o Neymar, magrinho, com o olho verdinho. Eu percebi que ele era diferente. Uma vez treinou o time menor com a gente. Ele foi no fundo, ameaçou cruzar e eu fui parar lá na fora. Depois disso foi gerando uma amizade. Quando ele chegava à Vila ia ao meu quarto. Eu o tenho como um grande amigo. Eu falo sem medo de errar: em qualquer lugar que o Neymar me ver na rua, ele vem até a minha pessoa, pois ele sabe da história que tivemos, do carinho que tenho por ele. Eu encontrei ele esses dias, ele me disse: vai lá em casa.

iG : Você é evangélico. Virou pastor, missionário?
Karioca: É uma coisa que tem começo, meio, mas não tem fim. Desde o momento que sai nos jornais como bandido, foi no momento que apeguei com Cristo. A primeira coisa que me chamou a atenção foi que a minha esposa: ela disse para eu confiar em Deus e que estava comigo. Quando ela falou isso eu entendi que os evangélicos tinham algo diferente, pois muita gente me acusou.

Karioca: Tenho passado por várias cidades contando a minha história. Encontrei pessoas que me abraçaram quando muitos se afastaram de mim. Eu sei que onde abundou o pecado, super abundou a graça. Foi o momento mais difícil da minha vida, as pessoas gritavam na rua, olha o Karioca, o “gato”. Mas, graças a Deus encontrei um sogro e uma sogra, uma esposa maravilhosa e um Deus grande.


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