Câmbio mais favorável, crise financeira global e ações de marketing explicam fortalecimento de brasileiros

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Gazeta Press
Neymar e Ganso estiveram entre os brasileiros mais cobiçados pelo mercado europeu
A permanência do atacante Neymar no Santos , o maior nome em atuação no futebol brasileiro, após o fechamento de mais uma janela de transferência na Europa na quarta-feira, é sintoma da nova realidade vivida pelos clubes do país, na opinião de observadores que acompanham o mercado esportivo.

Um câmbio mais favorável, com o fortalecimento do real, a crise financeira global que atingiu mais os países europeus do que o Brasil e o fortalecimento das ações de marketing por parte dos clubes brasileiros são apontados como os principais fatores para a mudança.

Pela primeira vez em muito tempo, os clubes brasileiros dão sinais de que conseguem levantar recursos suficientes para suportar o assédio europeu e manter seus principais jogadores no país por mais tempo. Além de Neymar, o meia Paulo Henrique Ganso (Santos), o meia-atacante Lucas ( São Paulo ) e o atacante Leandro Damião ( Internacional ) são outros exemplos do que pode ser uma nova tendência.

"Até 2007, quando um clube via uma proposta de 20 milhões de euros, isso correspondia a algo próximo de R$ 60 milhões. Hoje os mesmos 20 milhões de euros representam R$ 30 milhões, R$ 35 milhões", diz Amir Somoggi, diretor da empresa de consultoria BDO RCS.

Por isso, a venda de jogadores ao exterior vem se tornando cada vez menos atraente. Desde 2007, observa-se uma diminuição da fatia representada pela negociação de atletas na receita dos clubes.

Um estudo da BDO aponta que, naquele ano, as transferências representaram 37% do volume de renda gerado pelos clubes brasileiros. O número caiu para 28% em 2008, 19% em 2009 e 15% em 2010.

"Em 2007, o mercado brasileiro ganhou R$ 603 milhões com a venda de jogadores e em 2010 apenas R$ 328 milhões, quase a metade", diz Somoggi.

Barcelona é o clube com a imagem mais forte atualmente e seu modelo já é copiado
EFE
Barcelona é o clube com a imagem mais forte atualmente e seu modelo já é copiado
Marketing
Em 2003, ações de marketing como patrocínio, publicidade e bilheteria somaram R$ 216 milhões ou 27% do dinheiro gerado pelos clubes brasileiros. Em 2010, o valor subiu para R$ 941 milhões, ou 43% do total. Um marco bem sucedido na exploração do marketing foi a contratação de Ronaldo pelo Corinthians em 2009.

"O caso do Ronaldo mostrou ao mercado brasileiro que existe uma demanda por projetos deste tipo", diz Somoggi.

"O Corinthians vendeu ao patrocinador a ideia de que o Ronaldo mais a marca Corinthians valem tanto", diz o jornalista Erich Beting, que criou o portal Máquina do Esporte, especializado na cobertura dos negócios do esporte no Brasil.

"Já o Neymar, representa um outro patamar. Em vez de patrocínio na camisa, o Santos convenceu os patrocinadores a ganhar dinheiro com o melhor garoto-propaganda que há hoje no mercado", diz Beting.

As estimativas são de que, até o final do ano, os rendimentos mensais de Neymar ultrapassem R$ 1 milhão por mês (algumas estimativas colocam o valor na casa dos R$ 1,3 milhão mensais), sendo que pelo menos a metade do total vem de contratos de publicidade - pelos quais o clube fica com cerca de 30%.

Barcelona é o clube com a imagem mais forte atualmente e seu modelo já é copiado
EFE
Barcelona é o clube com a imagem mais forte atualmente e seu modelo já é copiado
Críticas
Beting, no entanto, faz críticas à forma com que os clubes administram suas finanças, mesmo levando em conta a injeção financeira prevista para os próximos anos com o novo modelo de negociação dos direitos de televisão, que deve aumentar a receita das agremiações.

"A única diferença é que entra mais dinheiro, mas continuamos a ver irracionalidades. E vai ter uma hora em que vai entrar menos dinheiro", diz o jornalista.

Erich Beting acredita que existe um cenário de altos gastos e endividamentos, e cita como exemplo o adiantamento por parte de alguns clubes da cota de TV de 2012. “Quando chegar no ano que vem, eles vão precisar adiantar novamente porque não vão ter fluxo de caixa”, afirma.

O fim do modelo de negociações em bloco dos direitos de televisão também é criticado pelo jornalista por estimular as diferenças financeiras entre os clubes.

"No longo prazo, podemos ter um Campeonato Brasileiro dominado pelo eixo Rio-SP ou por dois clubes, que é o pior cenário", diz.

"A Europa já mostrou que isso é um mal negócio. O caso mais especifico é o espanhol, no qual Real Madrid e Barcelona detêm 65% dos contratos de TV. O restante é dividido em 18 equipes. Além disso, times como Villareal, Valencia e Sevilla ainda ganham mais. O resto fica com a rebarba".

"Quando o Barcelona termina com uma enorme vantagem sobre o segundo colocado, torcedores dos outros times perdem interesse na competição", acrescenta. "Porque comprar camisa ou ir ao estádio?"

"O Brasil pode chegar lá na frente e perceber que fez errado. Vai ter então que parar e montar uma liga que negocie junto, como era a concepção do Clube dos 13".

Barcelona é o clube com a imagem mais forte atualmente e seu modelo já é copiado
EFE
Barcelona é o clube com a imagem mais forte atualmente e seu modelo já é copiado
Futuro
Tanto Beting como Somoggi avaliam que, para os clubes brasileiros terem mais chances de competir em igualdade com os europeus, é necessário um maior aprimoramento das ações de marketing, com a melhoria do produto futebol como um todo.

"A maior defasagem que temos em relação aos europeus é com os estádios, infinitamente inferiores", diz Erich Beting.

Profissionalizar a gestão dos clubes também é importante, diz ele, lembrando que "nenhuma empresa bem-sucedida muda de presidente a cada dois ou três anos, trocando também toda a diretora. Isso acontece no futebol".

Outra diferença é a falta de globalização das marcas dos times nacionais que leva mesmo equipes razoavelmente conhecidas a não lucrar fora do Brasil.

"O processo leva tempo, tem que ser contínuo e explorar a sinergia que deve haver com patrocinadores, que devem ser de preferência globais”, diz Somoggi. “Quanto mais global o patrocinador, maior interesse em globalização os clubes vão ter".

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