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Em entrevista ao iG, avalia sua carreira e valoriza títulos que outros de sua geração não têm

Mano Menezes, de 49 anos, alcançou o comando da seleção brasileira com três títulos nacionais: dois brasileiros da Série B (pelo Grêmio e pelo Corinthians) e uma Copa do Brasil (pelo Corinthians). Tite, um ano mais velho que Mano, tem uma Copa do Brasil, uma Sul-Americana e agora um Campeonato Brasileiro. Assim, numa comparação simples dos currículos, o treinador corintiano, que renegocia seu contrato com o clube , avalia que não deve nada aos demais técnicos da sua geração.

Mano Menezes visitou o CT corintiano em março
AE
Mano Menezes visitou o CT corintiano em março

Em entrevista por telefone ao iG , Tite avaliou sua carreira e disse que não será mais “salvador da pátria” em nenhum clube. Com o gosto da vitória depois de uma temporada consistente no Corinthians, o treinador disse que o ano que antecedeu sua chegada ao clube foi fundamental para que repensasse os convites que já recebeu e pode vir a receber. E que não aceitaria o convite de Andrés Sanchez, em outubro de 2010, se seu contrato não lhe permitisse terminar 2011.

Leia a entrevista de Tite abaixo:

iG: Você concorda que despertou grande expectativa após o título com o Grêmio na Copa do Brasil em 2001, mas que não conseguiu confirmá-la até o título desse Brasileiro, 10 anos depois? Qual razão disso? Cultura imediatista do futebol?
Tite:
Eu digo assim. Pega os técnicos da minha geração. Dorival Junior, Vagner Mancini, que é um pouco mais jovem, e os títulos que cada um tem e os trabalhos que eles fizeram. Pega o Mano Menezes e vê quantos títulos tem e a importância deles. Tenho Copa do Brasil, Sul-Americana (com o Inter, em 2008). É fácil falar que Sul-Americana não tem importância. Fala para o Palmeiras se não queria Sul-Americana. Fala para o Vasco. Claro que queriam.

iG: Você ficou mais de um ano no Inter, saiu em outubro de 2009, aí passou alguns meses sem clube antes de ir para o Oriente Médio e de voltar ao Corinthians em outubro de 2010. Acha que esse período foi bom para você repensar sua carreira e ver o futebol de outra forma?
Tite:
Eu digo assim. Todas as vezes que encerrei o trabalho, saindo ou demitido, sempre apareceram oportunidades. O que tenho agora é um cuidado com a minha carreira para que não seja contratado apenas como salvador da pátria toda hora. Foi assim que assumi pela primeira vez o Corinthians (2004) e depois o Palmeiras (2006). Essas experiências me ensinaram o risco grande que é ter de enfrentar situações difíceis e por vezes não ter o trabalho valorizado. Se não bate um título, a carreira é prejudicada. O Corinthians e o Palmeiras eu salvei (do rebaixamento), mas não bati campeão. Aí não fiquei. O que ficou é que não adianta assumir qualquer coisa. Espera um pouquinho uma oportunidade melhor, mesmo que você fique desempregado, parado ou vá para o exterior. No Corinthians montei parte do time campeão de 2005, fiquei com a bala Juquinha, mas quem levou foi o Antônio Lopes. Antes, no São Caetano, montei um bom time, perdi um jogo no Paulista e aí entrou o Muricy e foi campeão (em 2004). O que ficou é que não vou ser salvador mais e vou me dar o direito de esperar por um projeto certo, como veio o Corinthians. Estava no Al-Wahda (time dos Emirados Árabes), iria disputar o Mundial de Clubes e eu não abriria mão para ficar oito jogos (no final de 2010) e só. Fiz contrato até o final desse ano porque queria ter pela primeira vez a oportunidade de ter um começo, meio e fim num grande clube de São Paulo. E tive isso e bati campeão.

Tite foi o 3º colocado no prêmio de melhor técnico do Brasileirão 2011
Gazeta Press
Tite foi o 3º colocado no prêmio de melhor técnico do Brasileirão 2011

iG: Você concorda que você teve uma importância para o título maior do que normalmente os treinadores têm?
Tite:
Eu prefiro que vocês (jornalistas) mensurem. Pode avaliar qual foi o tamanho da minha participação. Não me sinto confortável em fazer isso.

iG: Você disse que, mais importante do que a valorização na renovação do contrato, o que se discute numa renegociação são as condições de trabalho que te oferecem. As do Corinthians você conhece bem. O que projetar para 2012?
Tite:
Eu preciso ser sabedor da forma que eles (da diretoria) veem meu trabalho. Se sou importante para o Corinthians no ano que vem, e foi isso que fui buscar (na reunião de terça-feira). Como é o Roberto que será presidente, a partir desse momento tem que haver uma interação entre o clube e o profissional. Nesse momento de transição política, não sei quem vai assumir, e eu preciso ter essa resposta de uma pessoa que entenda que o melhor para o Corinthians é que continue. Tendo isso, então tá. Eu quero também, mas tenho de saber que quem vai assumir também tenha esse pensamento e isso eu tenho. Agora é com o Gilmar (Veloz, empresário) que vão conversar para depois falarmos mais sobre o ano que vem.

iG: Você teme perder apoio no clube devido à saída do presidente Andrés Sanchez?
Tite:
Desejo o melhor para o Corinthians. A minha presença é boa? Me falaram que sim, que sou fundamental, e isso facilita. Não quero me posicionar politicamente dentro do clube, mas a partir desse momento a questão da renovação fica mais fácil sabendo que tenho o apoio da direção.

iG: Você conversou com o Andrés antes da conversa com os diretores. Sobre o que falaram?
Tite:
Da conversa, do que se falou, não posso dizer. Foi mais uma transmissão de confiança como foi da outra vez (quando assumiu em outubro de 2010). Tinha algumas situações particulares nossas. Confidências. Na sequencia fui conversar com a direção para falar de algo mais abrangente, de um planejamento para o ano que vem. A sintonia é pela permanência.

iG: Dos jogadores que o clube emprestou em 2011, com quais você conta em 2012 e quer que regressem? Tem o Marcelo Oliveira, o Boquita, o Defederico, o Bill...
Tite:
Todos os atletas que são do clube merecem uma oportunidade. Não vou citar nomes, mas é algo que vai ser visto a partir do ano que vem.

iG: A programação de exercícios para o Adriano nas férias já foi passada, e o presidente deu uma cutucada nele e disse que se ele fizer um esforço em 20 dos 30 dias de férias será bom. O que espera do Adriano para 2012?
Tite:
O que podia falar eu falei. Não tenho como falar mais. Não posso falar individualmente de cada atleta. Não posso e não vou falar nada a respeito mais. Entendo a pergunta, o interesse jornalístico, mas seria leviandade minha. Quando houver definição sobre meu contrato vou poder falar melhor.

Andrés Sanchez apoia a permanência de Tite para 2012
AE
Andrés Sanchez apoia a permanência de Tite para 2012

iG: Na Europa, os principais clubes têm se destacado pela força ofensiva. No Brasil, os campeões primam por uma boa defesa. O Corinthians foi a melhor a defesa e venceu 17 das 21 partidas por um gol de diferença...
Tite:
Vou te dar um dado pra refletir. Pega todos os campeonatos mais importantes: Espanhol, Italiano e Inglês. Pega esses três e você vai ver que o campeão nos últimos anos sempre teve uma equipe equilibrada e que as equipes que foram campeãs tinham ou a primeira ou a segunda ou a terceira melhor defesa. Sempre. Essa é uma característica do vencedor. Outro dado. Depois do Corinthians, quem foi que mais venceu? O Fluminense com 20 vitórias. Sabe quantas por um gol de diferença? Foram 13 por um gol. O que isso demonstra? Há um equilíbrio da competição muito grande e placares dilatados não são normais. O Barcelona tem um estilo que tem a posse de bola e com ela agride. Antes de dar um nocaute, fica girando, girando, girando e depois dá o golpe final. O Barcelona não é uma comparação justa, mas pode ser visto como exemplo.

iG: O atual elenco do Corinthians está preparado para jogar uma Libertadores?
Tite:
Eu não quero fazer nenhum comentário sobre uma questão que está para a direção analisar. A gente divide bem as coisas. Eu cuido do campo. Não estou com meu contrato renovado ainda e questão de contratação e saída de jogadores fica a cargo da direção.

iG: Seu jeito de falar, a tal treinabilidade, era motivo de piada no começo, mas acabou cativando as pessoas que trabalham com você. Isso tudo te fez ganhar a simpatia não só dos corintianos. Você mudou nesse tempo de Corinthians?
Tite:
Nada foi feito de uma maneira estudada. Simplesmente foi uma situação de ficar mais leve, de entender e saber conduzir de forma mais tranquila sem necessidade de criar fantasmas. Eu me senti muito à vontade, fiquei mais solto nas entrevistas, nos posicionamentos. Cheguei num momento em que não preciso ser toda hora politicamente correto e que minhas opiniões podem ser dadas, já que estou técnico do Corinthians, um cargo que por si só desperta um respeito. Os resultados eram bons, então abracei a ideia de poder ser externamente o que era internamente. Ser mais informal atrai mais as pessoas, aí as coisas acontecem naturalmente.